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O legado da Copa

A Copa dos estádios superfaturados talvez deixe um legado positivo que os militantes e ativistas à frente dos protestos não terão condições de reconhecer - ou talvez admitir.

A primeira consequencia da Copa foi nos estimular a falar sobre o Brasil. Os olhares do mundo estão aqui para o evento. As coisas que acontecem aqui rapidamente repercutem internacionalmente. E isso nos torna mais autoconscientes.

Os xingamentos à presidente, o pênalti cavado pelo Fred, J.Lo sambando na abertura aumentam de importância porque a circulação de informação está intensificada: nós nos vemos e nos medimos a partir do feedback que o olhar deles nos mostra.

Estaremos, neste mes, em uma espécie de câmara de ressonancia; as mensagens pingue-pongueiam e repicam mais rápido e intensamente e a gente pode ouvir o que é dito de formas diferentes e refletir sobre isso. E mesmo a conversa sendo sobre futebol, ela acaba relacionada a assuntos maiores.

Porque estamos conversando, estamos também nos expondo mais do que o normal. Vejo isso acontecendo no Facebook: amigos escrevem que estão reavaliando suas amizades dentro do serviço por causa das opiniões que elas estão emitindo.

Esse choque de perspectivas pode parecer negativo, mas tem valor porque revelam posicionamentos e também porque o atrito de opiniões enriquece a conversa com possibilidades, dúvidas e crítica. Temos tido chances de sobra para debater e para nos rever.

Um dos assuntos gerando debate são os protestos contra a realização da Copa. Esse tema é fascinante por suas contradições. Aqui estão dois casos:

- Manifestantes defendem a legitimidade de ações, mesmo das violentas, ao mesmo tempo em que denunciam o posicionamento violento da polícia.

- Os ricos que puderam comprar ingressos para a cerimônia de abertura também fizeram sua parte protestando contra o governo popular que trouxe a Copa para eles assistirem no Brasil.

De uma maneira ainda difícil de se entender, esses dois grupos se tornaram duas moedas do mesmo lado. E isso é positivo também porque estamos olhando para essas contradições e não apenas vivendo sob a proteção das certezas.

Mas continua no ar a grande dúvida: por que são poucos os que protestam se a maioria está também irritada com o riso mal-disfarçado dos canalhas que prometeram e descaradamente não entregaram, mas embolsaram o dinheiro?

Em certa medida, esses milhões de brasileiros irritados talvez não aceitem a ideia de ter protestos que façam a gente passar vergonha publicamente. Seria como quando a família recebe visitas e a gente evita brigar na frente deles.

O silêncio desses brasileiros parece estar dizendo que a faxina pode acontecer quando os convidados forem embora.

Mas sinto que há ainda um motivo maior do que esse para estarmos comportados e até leves em relação ao evento: um sentimento de respeito pelo Felipão e pelo grupo que ele escolheu para representar o Brasil na competição.

Além de Neymar Jr, as peças-chave do elenco são dois zagueiros, David Luiz e Thiago Silva. Eles compartilham a responsabilidade ingrata e humilde de defender a retaguarda do time. Cordiais fora de campo, são guerreiros quando vestem a farda.

Se houve tanto desmando, tanta sacanagem para o Mundial acontecer, a equipe liderada por eles tem demonstrado querer deixar o melhor exemplo - não por hipocrisia, mas apenas porque essa é a parte que cabe a eles realizar.

Apesar de jovens, parece que eles aceitaram a responsabilidade simbólica de defender o orgulho do futebol brasileiro em uma Copa jogada em casa.

Se os burocratas e os políticos deram maus exemplos, a nossa seleção tem se comportado bem dentro e fora de campo. Ganham seus jogos, aguentam o tranco, mas sem sacrificar o espírito travesso do futebol reinventado no Brasil. O nosso não é um time retranqueiro ao mesmo tempo em que não se descuida da defesa.

Fico pensando como eles provavelmente são exemplo de vitória e de transformação para os jovens do país que têm origens semelhantes às deles. A admiração desses outros brasileiros parece brotar não do futebol bonito, mas daquilo que esses "meninos do Felipão" conquistaram com seu trabalho.

Se os jogadores estão fazendo a parte deles e em campo estão mostrando que podem vencer, por que não retribuir esse gesto?

Será que fora da lógica da luta de classes a gente pode olhar para essa malha mais complexa de possibilidades e ver que há um poder simbólico a ser conquistado coletivamente caso essa equipe vença em casa. E que mesmo que não seja sangrando na rua, mas assistindo TV e torcendo, isso pode não ser um ato de alienação política, mas uma escolha?

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Várias coisas que a Copa do mundo está me fazendo pensar e sentir

* Show de abertura chinfrim. Ok que ninguém se lembra de aberturas, mas qualquer carnavalesco teria dado mais estofo e empolgação ao momento. Os olhos do mundo estavam aqui

* A Copa é aqui mesmo? A sensação é de que os brasileiros que irão aos Estádios são os mesmos que iriam se fosse no exterior. O que significa exatamente que a Copa aconteça no Brasil?

* Meu coração brasileiro escolheu ficar só lado dos meninos do Felipão. Eles ganham fortunas mas, diferente de seleções do passado, parece que o grupo é menos moleque. Parece que eles desejam seriamente mostrar a competência, a graça, a inventividade do país. Eles, sim, por suas origens, representam as aspirações da maioria do Brasil. Eram as estrelas, mas eram também talvez os únicos no estádio que viveram o Brasil do andar de baixo.

* Estou confuso em relação aos protestos. A elite que foi ao estádio cuspindo no prato do governo que trouxe a festa para cá. Uma coisa rancorosa. A elite protestando como ralé, deselegante e irresponsável. E como esse protesto ao mesmo tempo contrastava mas também ecoava o daqueles que escolheram protestar nas ruas durante a Copa. Parecia que PSOL e PSDB eram a duas moedas do mesmo lado - o que quer que isso signifique.

* Esses malabarismos ideológicos acabaram por não permitir o extravaso da sensação coletiva de que está Copa custou muito mais caro do que deveria e de que vários canalhas estão agora rindo às nossas custas.

* É também parte do preço da Copa ter que assistir comerciais presunçosamente poéticos que buscam, de um milhão de maneiras, amarrar um nacionalismo raso e babaca com a venda de sanduíches, refrigerantes, cervejas e carros. Mas alguns se distinguem e valem a pena.

* Parece que houve um consenso entre os "especialistas" de que o Fred forjou a falta que levou ao pênalti que desempatou o jogo e abriu caminho para a virada brasileira. Eles parecem dizer também que esse ato, antiesportivo, resume e expõe as fraquezas da nossa alma mulata, que só saberia ganhar traspasseando. Essas observações possivelmente falam mais sobre eles do que sobre o ato em si. Me pergunto por que não falam da malandra simulação do defensor que também desequilibra fingindo não o fazer?

* Em resumo, apesar de tudo e também por causa de tudo, a realização do evento funcionou bem. As pessoas chegaram ao estádio, se divertiram e foram embora sem grandes problemas. A presidenta talvez não esteja tão nua nem tão sozinha. Ao que tudo indica, #vaitercopa. E o Brasil, meus amigos, corre o risco de vencer por seus méritos, para o desencanto de alguns.

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Piratear não é preciso

Dizem que “de graça, até injeção na testa”. Se o remédio for um livro bom, essa injeção pode ser a melhor alternativa para expandir o consumo e melhorar a qualidade dos livros.

É que hoje, quem lê em inglês têm pela internet um serviço correspondente ao de uma fantástica biblioteca de bairro, completíssima, eficiente e atualizada.

A “Amazon dos PDF” - Esse manancial de informação e cultura – que é ilegal – é conhecido principalmente dentro de espaços acadêmicos, entre estudantes que não podem depender das bibliotecas de suas faculdades para ter acesso a livros.

Mas as facilidades oferecidas pelo ambiente digital ampliaram a variedade de títulos.

Hoje, qualquer livro em inglês razoavelmente conhecido e que foi disponibilizado nos últimos dez anos pode ser encontrado em sites como Libgen – uma espécie de “Amazon dos arquivos PDF” – e Pirate Bay. Individualmente ou em coleções de centenas ou milhares de títulos.

(A chegada da Amazon ao Brasil trazendo apenas livros digitais deve também contribuir para que mais livros em português, devidamente “crackeados”, circulem por esses canais.)

No lugar das bibliotecas - Se o caso da indústria fonográfica serve de exemplo, o esforço para evitar o compartilhamento de conteúdo proprietário é vão. A natureza do digital é se espalhar.

A injeção contínua de livros digitalizados na rede alimenta acervos pessoais que facilmente podem ser recirculados quando um ou outro site de distribuição sai do ar.

Muitos livros impressos desaparecem depois da primeira edição por perderem o apelo comercial. A pirataria, então, indica uma possibilidade de reaproveitamento dos catálogos das editoras.

Seria possível que empresas comprem os direitos de pacotes desses livros que desaparecem no limbo para disponibilizá-los como coleções patrocinadas? Apareceriam assim: “Biblioteca Vale do Rio Doce de Autores Contemporâneos”. Ou “Coleção Banco do Brasil de obras de Economia”.

A rede se torna oficialmente essa biblioteca que muitos não têm e não terão a oportunidade de ir.

Outro modelo de negócio - Quem é mais velho tende a analisar esse fenômeno atribuindo a ele a responsabilidade por uma possível desestabilização do mercado editorial. Mas a questão pode ser relativizada.

O “pirateamento” de um livro é também uma expressão do sucesso dessa obra. As pessoas tanto querem ler que ajudam – informalmente – a fazer sua distribuição.

Se o livro puder ser grátis como a TV aberta para financiar a curadoria do editor e o trabalho de revisores, designers, etc, a obra digitalizada e relevante terá um alcance muito maior via recomendações boca-a-boca por redes sociais, por exemplo.

O patrocinador / mecenas não paga impressão nem distribuição. E uma tiragem normal do impresso, que hoje é de três mil exemplares ou menos, pode se ampliar radicalmente com a migração para o digital.

Auto-publicações – O mesmo meio digital que multiplica as opções de acesso a livros também facilita as possibilidades de produção de livros fora dos domínios tradicionais.

Livro publicado pode trazer prestígio, mas raramente compensa financeiramente o autor, que investe meses ou anos trabalhando. E se der para compartilhar o esforço e a recompensa?

Em 2009, eu levei 45 dias para reunir as participações para uma coletânea chamada Para Entender a Internet, publicada por mim mesmo.

Os co-autores, além de escrever, ajudaram a promover o lançamento e em uma semana o número de downloads ultrapassou o número de exemplares impressos do meu primeiro livro, lançado dois anos antes e cuja edição não tinha ainda esgotado.

Balanço final – Há milhares de livros já disponíveis em espaços de compartilhamento informal na internet. Muitos desses livros nunca chegariam aos leitores, por falta de dinheiro ou de bibliotecas.

Isso é um prejuízo? É para a gente celebrar ou para lamentar que mais pessoas queiram ler?

Fico pensando se, contra-intuitivamente à racionalidade comercial, a dita pirataria não pode gerar um efeito inesperado de ampliar o interesse pelos livros. E também de estimular empreendimentos criativos que “surfem essa onda”.

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Meus 20 centavos sobre os protestos; o bicho está solto

Também estou curioso e amedrontado para ver o que está para vir das movimentações no futuro próximo. Mas estou feliz com o quanto sinto que todos crescemos transformando teoria em prática e vice-versa, nas muitas conversas e ações vividas nas ultimas duas semanas. Aqui vai a minha contribuição:

Há um bicho que nasceu, que saiu para a luz; um bicho com muitas raivas e que deve ser tratado como tal. o bicho nao pensa; o bicho está desabafando, chorando, gritando, se defendendo, vomitando tudo o que engoliu.

acho complicado chamar o bicho de fascista. acho que o bicho é jovem, é idealista, é em parte ingênuo (e sonhador), sente que tem algum poder e está animado com isso.

acho que o bicho é filho de uma classe média que está desiludida e cansada. cansada de ter medo da polícia e do bandido, do transito infernal, dos políticos aumentando o próprio salário, dos investimentos superfaturados para a Copa e para as Olimpíadas.

nao acho que o bicho esteja errado ao atacar a participaçao de partidos políticos nas marchas. o bicho não pensa que sem partido não há governo. para o bicho, os partidos tiveram seu momento e há uma grande desilusão em relação aos resultados até aqui.

tendo vindo da classe média, o bicho está decepcionado com o PT e com os partidos de esquerda em geral. na verdade, todos nós, ex-militantes e simpatizantes nos sentimos traídos pelo que o partido se tornou, com sarneys, renans, collors, etc.

dizer que o bicho é fascista implica em dar a ele uma unidade ideológica que ele nao tem. o bicho quer soltar seus cachorros e não está pensando nas consequencias.

o que o governo pode fazer agora? pode tratar o bicho com respeito. pode pressionar o congresso para votar rapidamente pautas importantes para o bicho e que vem sendo proteladas: cassaçao de corruptos, 10% para educação, etc. pode dar provas de que será mais transparente nas decisões.

o que nós podemos fazer agora?

bom, nós fomos para uma festinha que virou um festão, pegou fogo (no bom sentido), amigos de amigos de amigos foram chegando, muita bebida, vizinhos insones chamaram a polícia, houve desgastes, também pessoas começaram a brigar e quebrar coisas na festa, o som saiu do controle e está tocando música alta de qualidade duvidosa.

um caminho para a gente é ir embora para casa e esvaziar a movimentaçao. isso ajuda a reduzir a pressão do ambiente. outro caminho, para os mais amigos do dono da casa, é ficar lá até o final, pegar uma vassoura, fazer um café forte e começar a varrer o chão.

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Cinese - ensine o que você sabe (e ganhe dinheiro com isso)

No começo deste ano eu recebi um convite para montar um curso de dois meses sobre etnografia para ambientes online para uma universidade aqui de São Paulo, mas depois que a proposta estava elaborada percebemos - eu e eles - que não ia dar tempo para o curso passar pelas etapas de aprovação no curto prazo. Resultado: o projeto foi para a gaveta.

Nessa época eu cheguei a considerar a possibilidade de realizar o curso de forma independente. Mas no final das contas achei que isso exigiria muito esforço ao mesmo tempo em que eu não tinha clareza do interesse que o curso geraria. Me lembrei dessa história conversando recentemente sobre o projeto Cinese. É bem possível que, se esse serviço existisse antes, o curso teria tido uma oportunidade maior de sair do papel.

Vamos imaginar quantas coisas existem por ai que atraem o nosso interesse e que a gente tem que aprender por conta própria porque não existem escolas para isso. Demora um tempo até uma determinada prática ser difundida a ponto de motivar instituições de ensino a abrirem espaço para aquele conteúdo. É que, por enquanto, a ideia de ensinar alguma coisa formalmente está muito amarrada à existência de escolas.

O Cinese oferece uma alternativa para juntar quem quer ensinar e o público interessado em aprender. Digamos que o Babe Terror resolva complementar a renda dele oferecendo um curso sobre criação musical usando a técnica que ele vem desenvolvendo. Ele pode formatar a proposta, publicar no Cinese e distribuir isso dentro da rede em que ele atua e que é constituída por pessoas interessadas no que ele faz. Se a proposta for conveniente para o público, o site intermedia o pagamento e a experiência rolará independentemente do envolvimento de uma instituição de ensino.

Acho essa perspectiva incrível por algumas razões. Primeiro, porque o serviço do Cinese responde a um problema prático. Uma determinada prática pode ser estimulada ao oferecer meios para o dono desse conhecimento comercializar seu know-how. Em outras palavras: o Cinese facilita que o hobby de algumas pessoas, aquilo que elas fazem por amor, se torne uma forma dessa pessoa se manter e, assim, se dedicar mais a esse assunto. E isso vale especialmente para práticas menos populares - tipo ensino de hieroglifo - ou novas, que venham sendo praticadas há relativamente pouco tempo, como aquilo que o Babe Terror faz.

Também me fascinou o contraponto que o Cinese faz à ideia predominante de como a internet pode contribuir com a educação e com a distribuição do conhecimento. A gente normalmente ouve falar de Ensino à Distância (EaD) ou da oferta de recursos em vídeo de disciplinas acadêmicas. Nesse caso, a rede digital favorece as oportunidades de ensino presencial fundado na prática, na experiência direta com um determinado tema e com as pessoas envolvidas com esse tema.

Falo disso e fico pensando, por exemplo, no meu cunhado que é astronomo e que é "forçado" a sobreviver, enquanto faz seu doutoramento, com bolsas que pagam pouco ou dando aulas de matemática e física em universidades privadas. Quantas pessoas em São Paulo não gostariam de ter uma "iniciação à astronomia", por exemplo, e pagariam por isso na medida em que - eu suponho - existem poucas escolas que oferecem cursos de astronomia para leigos? Para mim, todos serão mais felizes com essa possibilidade: ele, capaz de organizar melhor seu tempo e ganhar dinheiro fazendo o que gosta, e o público, tendo a oportunidade de aprender sobre astronomia sem precisar fazer vestibular e entrar na USP.

Você pode apontar que a USP ou outra instituição de ensino tem o "notório saber" e que pelo Cinese qualquer um pode dar uma de sabido e começar a ensinar astronomia. Essa é uma discussão longa e que tem ecos, por exemplo, no debate sobre a relevância do conteúdo da Wikipédia, conteúdo este que também é produzido em parte por "amadores". Mas há uma diferença, me parece, no caso do Cinese: é que a pessoa que se oferece para ensinar precisa ser convincente para atrair aprendizes e uma das maneiras de fazer isso é mostrando suas credenciais, inclusive as acadêmicas.

Enfim, esse texto já está muito maior do que eu gostaria. Existem mais coisas que eu poderia dizer sobre a experiência, mas fico por aqui. Podemos seguir a conversa na área de comentários. Só faltou completar a informação dizendo que o serviço, por enquanto, está aberto apenas para oferta de cursos gratuitos e isso faz parte da estratégia de lançamento, que visa tornar a proposta conhecida e trazer massa crítica para o site. Mas logo - não sei bem quando, vou perguntar - a possibilidade de pagamento estará disponível e funcionará via Pay Pall. Por que apenas Pay Pall? É que assim quem paga tem a garantia de receber o dinheiro de volta se aquilo que for oferecido não for entregue. Ou seja, é mais uma maneira de garantir o retorno para quem quiser participar.

PS - Depois de terminar esse post, "viajei" um pouco mais longe nas possibilidades de trabalho para mestres e doutores que hoje dão aula em escolas comuns ou universidades e que podem expandir seu cardápio de entregas com cursos tipo: "mitologia clássica e o universo de Tolken". Coisas que existem hoje em ambientes restritos como a Casa do Saber, mas que pelo Cinese podem alcançar outros públicos.

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Eleições e internet: lições de 2010 e desafios de 2012

O Bito Teles, amigo querido da época da Talk, me pediu um depoimento sobre eleições e internet e, especificamente, para eu falar sobre lições da eleição de 2010 e desafios deste ano, que temos as disputas municipais.

Escolhi refletir sobre o problema que é, para a internet, termos que nos enquadrar no modelo de comunicação que separa "falar" e "ouvir" e, em seguida, defendo a importância de a indústria da internet superar o preconceito pelo usuário das classes CDE, conforme argumento neste post recente.

Aliás, acho que a segunda parte do problema proposto está desenvolvido, mas a primeira ainda não. Veja: se a internet é caracterizada por ser uma plataforma para conversas grupais, qual é a consequência de colocá-la junto com as equipes que praticam a comunicação tradicional?

Eu vejo uma conformação que divide a internet e impõe a esse canal que ele só fale a não dialogue.

As equipes de internet nas campanhas fazem isso: ficam junto com equipes de jornalistas e o resultado é que há uma ênfase em gerar informação enquanto despreza-se a outra perna da comunicação dialógica que é escutar.

O que estou querendo dizer aqui é muito simples: colocar a equipe de internet junto com outros jornalistas denuncia a maneira como a internet é vista. Está-se impondo a quem é contratado para realizar esse pedaço do trabalho que el@ foque sua atenção em falar e reduza sua atenção para o aspecto da troca, da interação.

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Orkutizando Obama: que tal olhar pro nosso usuário?

Vivi de dentro campanhas eleitorais em 2008 (Kassab) e 2010 (Marina). E a pergunta continua no ar: quando a internet vai desafiar a lógica do dinheiro nas disputas pelo voto? Quando a mensagem do candidato associada ao poder de auto-organização da rede vai mudar o resultado de uma eleição majoritária no Brasil?

A minha hipótese é que isso ainda não aconteceu porque a internet se tornou um espaço de disputa entre as classes AB, que controlam a indústria, e os emergentes, que são a maioria e vêem a internet como grande aliada em seu processo de ascensão social. Agências e grandes produtores de conteúdo têm como Meca o Vale do Silício e tendem a desprezar e se envergonham da maneira como o Novo Usuário da Internet do Brasil (NUIB*) se comporta.

O problema disso é que são 70 milhões de NUIBs só na classe C contra 18 milhões dos usuários no segmento AB. Ou seja, enquanto esse eleitorado é mantido à distância (como uma espécie de "usuário de segunda categoria"), o candidato continuará precisando de dinheiro para fazer suas campanhas usando as chamadas "mídias clássicas", cuja industria está amadurecida para atender todos os segmentos de público.

Na última sexta fiz uma apresentação no Social Media Brasil, aqui em São Paulo, explicando por que prestar atenção nos usuários emergentes e fazendo algumas recomendações aos candidatos que queiram usar a internet como um canal mais eficiente para ativar seu eleitorado. O vídeo abaixo traz a "versão pocket" dessa palestra. Ou veja apenas os slides.

* O termo é meu, para facilitar a referência a este conjunto; baseado no já aceito "Nova Classe Média Brasileira".

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Por que os grevistas da polícia não têm voz nos notíciários? Uma nova Revolta da Chibata?

Em 1910, marinheiros que eram tratados como escravos pelos oficiais se rebelaram, tomaram conta de navios de guerra e apontaram as armas para o Rio de Janeiro, então capital do país. Encurralado, o governo aceitou assinar um acordo de rendição, mas, tão logo os insurgentes se entregaram, foram traídos e receberam punições crueis. "Para mostrar quem manda nesta porra!" O evento ficou conhecido como a Revolta da Chibata porque queria-se o fim da punição usando esse tipo de chicote.

Hoje esses insurgentes, especialmente seu lider, são cantados em verso e prosa, aparecem como herois lutando por uma causa justa nos livros de história. Ironicamente, essa revolta vira-e-mexe vira tema de desfile de escola de samba. Digo "ironicamente" porque estamos acompanhando o que parece ser uma nova revolta da chibata: governo e conglometados de mídia calando a voz de grevistas que, como recurso de negociação, estão ameaçando cancelar o carnaval no Rio e na Bahia.

Os líderes são presos em presídios de segurança máxima e a sociedade é manipulada para se indispor contra o movimento. A posição dos grevistas não aparece diretamente. Na reportagem de hoje do Jornal Hoje só quem fala são os políticos e aqueles contrários à greve. A mensagem é: o movimento acabou, a polícia está nas ruas, a greve é ilegal, os líderes são vândalos e o Exército está ponto para agir. Só quem fala é o governo, não há outro lado.

Mas o outro lado resiste. Se a notícia oficial é de desmobilização, o movimento revive no Rio. Qual jornal noticiou que isso estava para acontecer? E qual é o ânimo das corporações nos outros estados do país? Há um grande silêncio, todos com medo de que a greve se alastre mais.A notícia de ontem era: câmara carioca vota aumento parcelado em regime de urgência, mas - a minha dúvida - por que a pressa? Silêncio. De manhã, jornais noticiam a mobilização pública da categoria à noite decidindo em favor da greve.

O outro lado aparece apenas em escutas telefônicas editadas para conter apenas partes específicas de conversas. (O audio chega para quem? Para o Jornal Nacional...) O outro lado aparece também dentro de pequenas notas técnicas e desinteressantes: os grevistas querem isso, querem aquilo. PEC 300 para cá, reajuste parcelado para lá. Quantos espectadores entendem isso? O que quer dizer? Qual é a diferença entre o que eles pedem e o que é oferecido? E onde está o calor do grevista e da família do grevista tocando a sociedade com a força de sua raiva, de sua indignação?

Dá a impressão clara de ser uma operação abafa que tem por objetivo salvar o carnaval. Não o espírito carnavalesco, mas os contratos de anúncios relacionados aos desfiles. Se não houver público, se os turistas cancelarem suas viagens, vão mostrar as arquibancadas das passarelas vazias? Se as escolas não desfilarem ou desfilarem incompletas, vão ter que devolver o dinheiro dos anunciantes? Qual é o prejuízo para a imagem do país que está para sediar Copa e Olimpíada nos próximos seis anos?

É interessante ainda que não apareça nas reportagens a opinião pública. E eu suspeito que seja porque a sociedade está, apesar do silenciamento dos grevistas, resistindo a comprar a ideia de que os políciais estejam errados. Onde está o instituto de pesquisa colhendo o ponto de vista da sociedade? Onde está essa informação nos noticiários? Apesar de acharem errada a estratégia dos grevistas, tenho a impressão de que a maioria dos brasileiros simpatiza pela causa dos policiais e bombeiros.

Um taxista resumiu assim a sua percepção dessa história: "os deputados não fazem greve porque eles mesmos se dão aumentos..." O policial não pode se dar aumento nem pressionar o poder público quando a via da negociação não funciona.

Fiquei me lembrando da música dos Titãs. O refrão pergunta: polícia, para que precisa? Aparentemente precisamos muito, mas, se precisamos, por que não dar melhores condições. Agora os papéis se inverteram: são eles que estão em posição de fragilidade frente a esses interesses de poderosos e é a vez de a sociedade se manifestar para proteger os manifestantes e defender o direito de se ter mais paz e segurança no país.

P.S. Os jornais ficam anunciando o número de mortes e crimes na Bahia desde o início da greve. É para, subliminarmente, colocar a sociedade contra os grevistas?

P.S.2 Eu tenho família morando na Bahia e eles estão surpresos com o peso das tintas usadas para pintar a situação no estado. Parece que na TV o problema é muito maior do que nas ruas. É o espetáculo da notícia ou outro indício de manipulação da opinião pública.

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Twitter + Ficha Limpa = ?

Acompanhei via internet ontem e hoje madrugada a dentro, junto com muitas outras pessoas, o debate dos ministros do Supremo sobre o Ficha Limpa - artigo na Wikipedia e site oficial. Não me lembro de ter visto outro caso parecido na história da internet no Brasil: graças ao Twitter, a audiência sabia de si mesma. O tuiteiro e Professor de Direito Penal da UFMG, Tulio Vianna, postou, entre suas muitas mensagens, que "Nunca antes na história deste país tanta gente assistiu a um julgamento do STF. Democrático pra caramba a galera dando seu pitaco jurídico."

O que aconteceu ontem de extraordinário para a Internet -na minha modesta opinião - foi um acontecimento apresentado pelo @cshirky no Here Comes Everybody. Ele fala do contexto que propicia ou facilita ou favorece as insurgências sociais. Uma coisa é eu saber que estou insatisfeito com a corrupção, outra é quando eu sei que os outros se sentem da mesma forma. E outra - e é aí que a situação se transforma - é quando "eu sei que você sabe que eu sei", ou seja, quando existe uma consciência coletiva de que todos pensam da mesma forma, o que nos estimula a agir confiando na proteção do coletivo.

Sabe quando o professor ou o técnico de futebol perde o respeito da turma ou da equipe? As pessoas, mesmo sendo individualmente menos poderosas, passam a funcionar coletivamente, mesmo sem a necessidade de discutir ou organizar acordos ou procedimentos. Elas funcionam como grupo, agem coletivamente. É isso, segundo o Shirky, que produziu o efeito em cadeia que levou à queda do Muro de Berlim.

Foi isso o que eu experimentei ontem de uma forma sem precendentes. Centenas, talvez milhares de pessoas, oferecendo voluntariamente seu tempo de sono na madrugada para assistir o desdobramento da votação do Ficha Limpa no Supremo. E eu sei que eram muitas pessoas porque me lembro de ter visto que, dos dez temas destacados no Trending Topics, a metade ou algo próximo disso dizia respeito ao evento. E as pessoas não estavam apenas falando, elas conversavam. Acompanhar o que os ministros falavam era literalmente tão instrutivo ou mais do que assistir a transmissão pela TV ou rádio. Havia uma mistura muito densa e rica de informação e opinião, descrição e análise. E isso continuou até o fim da sessão, quase às 2 da manhã.

É isso que já se nota acontecendo em conferências quando o público, antes "condenado" ao silêncio da audiência, passa a ter um meio de se expressar e medir a temperatura e as intenções de seus vizinhos. Este é foi um caso clássico. Foi a primeira vez que eu senti isso acontecendo motivado por um tema de interesse coletivo - a outra vez que eu vi no Brasil uma mobilização parecida a ignição foi o último apagão.

Até onde eu entendi, a expectativa é que a sessão seja retomada na quarta ou quinta da semana que vem - é isso, mesmo? Se for, fiquei imaginando a tensão envolvendo esse evento. Será uma final de Copa do Mundo com pessoas comuns - entre elas, advogados, estudantes de direito, juristas - registrando, analisando, dissecando cada fala, cada argumento dos dez ministros do STF, de forma a ajudar e dar munição para a sociedade civil e também os jornalistas para entenderem e criticarem as decisões expressas. Ontem o clima foi quase esse, imagina quando estivermos a três dias da eleição? E ainda com a quantidade de notícia e mobilização que a sessão de ontem já produziu. (No momento em que estou escrevendo, 12 horas depois do encerramento da discussão, "Supremo Tribunal Federal" é o primeiro tópico no Trending Topics, "Gilmar Mendes" e "#fichalimpa" também estão entre os dez assuntos mais falados.

Não consigo antever um cenário de o que vai acontecer na semana que vem, se a sessão realmente acontecer na véspera da eleição, mas acho que os efeitos dessa mobilização serão muito mais notadas e reconhecidas do que a mobilização em si. Uma coisa notável, ainda, em relação à mobilização no Twitter ontem foi o fato de os "oponentes" tucanos, petistas e verdes, para ficar entre os mais numerosos, não brigavam, não se atacavam, ao contrário, agiam como um bloco compacto defendendo a aprovação do Ficha Limpa. Imagina a força disso...

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Ano novo, novos rumos

A primeira pessoa que me fez reparar na então ministra Marina Silva foi a minha tia Márcia, geógrafa, doutora em educação indígena, que, na época, estava trabalhando no Ministério do Meio Ambiente. Meu tio Paulo, agrônomo, com seu jeito reservado, também falou da Marina com admiração especial.

Tenho pensado muito neles nesses últimos dias, desde a semana passada, quando fui convidado e aceitei o desafio de participar da equipe de comunicação de acompanhará a senadora de agora até o final da campanha presidencial em setembro ou outubro deste ano.

Estou muito contente pela oportunidade de me integrar a uma equipe diferenciada para atuar usando as mídias sociais para um projeto em que eu acredito.

O cenário é promissor. Será a primeira eleição no Brasil em que a lei eleitoral não inibirá (tanto) o uso da internet nas campanhas. Some a isso o fato quase 60 milhões de brasileiros estarem usando a rede e de existirem mais de 150 milhões de celulares ativos no país. Isso significa que as fórmulas antigas de campanha já não são receitas infalíveis de sucesso.

Eu poderia falar de muitas formas, apresentando detalhes e recorrendo a jargões, sobre a nossa proposta para a utilização de ferramentas de mídia social, mas ela se resume a dois elementos: escancarar os canais para escutar a sociedade e, junto com isso, ajudar as pessoas que quiserem participar voluntariamente deste esforço.

É simples falar assim e é relativamente simples de se fazer algo assim, mas nem todo mundo quer se dar ao trabalho ou quer correr o risco de abrir um canal sobre o qual não se tem controle. No nosso caso, isso não é uma opção nem um problema, é a nossa principal força.

Do outro lado do ringue está a TV, historicamente a principal forma para se chegar ao eleitor. Ela é muito poderosa por sua abrangência no Brasil, mas tem uma limitaçao em relação às novas mídias. Enquanto a TV é boa para reunir pessoas com interesses comuns, a Internet, além de também servir para formar grupos, ainda reduz radicalmente as barreiras para eles se relacionarem.

A visão de que o consumidor (e eleitor) é preguiçoso -- não quer se envolver, não se interessa por política e prefere ficar em casa controlando a TV da poltrona -- perde força na medida em que se abre a perspectiva de compartilhamento do controle.

Permitir que as pessoas participem, não da maneira como você quer, mas aceitando escutar e conversar, é o segredo mais difundido das campanhas de sucesso na Internet. E é assim que pretendemos usá-la.

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