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E-livros: como transformar "piratas" em consumidores

Eu sinto pena das editoras de livros, especialmente no Brasil. Elas tem o comportamento de velhinhos chatos que vivem reclamando que o mundo não é como deveria ser.

É como se a gente escutasse eles conversando: - "Porque no meu tempo não tinha essa sem-vergonhice de pílula anticoncepcional. A garota de família namorava em casa sentada no sofá..."

Por que o livro digital custa tão caro?

Enquanto isso, há uma imensa oportunidade batendo na porta de quem está nesse mercado. Nunca foi tão fácil distribuir conteúdo intelectual. Se você tem uma coisa que as outras pessoas desejam, elas mesmas ajudam a espalhar a notícia para viver a experiência coletivamente de consumo desse conteúdo.

Em vez de tirar proveito disso, as editoras batem o pé e querem que as pessoas continuem tendo que se deslocar até as livrarias e tendo que carregar esse objeto físico para onde elas forem ou cobram quase o mesmo preço pelo produto digital, o que é ridículo.

O consumidor se sente mais explorado do que feliz pelo produto que adquire. O que fica nas entrelinhas é: estamos oferecendo esse conteúdo, mas na verdade nós não queremos que você compre. Porque não queremos abrir mão do esquema tradicional.

Parece que eles não entenderam que não estão lutando contra concorrentes, mas contra os próprios consumidores. Quem gera e compartilha esses arquivos - como nos casos que relatei aqui - não faz isso para ganhar dinheiro; faz porque considera que os preços estão errados.

Ninguém prefere usar conteúdo irregular

As editoras continuam apegadas à "religião do analógico". Por medo não abrem os olhos para encarar o mostro-pirata frente a frente. Então, vamos fazer essa experiência aqui de ver quem são esses contraventores.

Pense no trabalho que dá digitalizar um livro: o tempo, a disponibilidade de equipamento, o know-how e até o perigo de se expor a processos legais que isso tudo custa. E as pessoas que fazem isso não estão atrás de remuneração, mas por amor às obras.

Digo mais: não acredito que elas se sintam bem roubando o conteúdo legalmente adquirido pelas editoras e prejudicando seus autores prediletos. Elas gostariam de participar positivamente do sucesso da obra que elas adquirem, mas entendem que seja mais importante promover a obra e o preço cobrado prejudica sua circulação.

Ganhar mais cobrando menos

Agora pense na possibilidade de a editora oferecer um catálogo compatível com o entendimento de que o digital custa menos e pode ser mais facilmente distribuído.

Nesse sentido, em vez de oferecer o digital pela metade do preço do impresso ou algo em torno disso, o impresso sairia pelo custo atual (algo como 50 reais) e o digital pelo valor de um app, algo como dois reais. Ou alternativamente uma versão básica do livro é oferecida de graça, mas a versão premium custa cinco reais.

Há, então, a experiência de consumo positiva: em vez de você consumidor se sentir um idiota sendo explorado, você se sente fazendo um bom negócio, se sente economizando. E a editora ganha em escala por conta da facilidade da venda e da distribuição e pelo ganho de novos compradores que já não se sentirião motivados a procurar a versão irregular.

O trabalho que o potencial consumidor teria gasto para procurar o livro compartilhado ilegalmente (e que, muitas vezes, implica em aceitar um conteúdo de qualidade editorial inferior), esse esforço pode ir para ajudar a editora a promover aquele produto querido.

Utopia ou pragmatismo?

Uma versão anterior deste texto recebeu críticas oportunas e generosas de participantes do grupo Amigos dosEditores Digitais (EAD), em funcionamento pelo Facebook. Graças a essas participações, entendo, por exemplo, a perspectiva de quem acha a minha fala utópica. Estar fora da realidade das editoras me liberta do condicionamento de quem depende e dependeu do impresso.

Fui informado dos debates sobre precificação dos livros e entendo que a editora não gasta só com papel e tinta. Ao mesmo tempo, percebo o receio que existe de queda de faturamento se houver uma passagem rápida do impresso (caro) pelo digital (barato) - um raciocínio que não considera o potencial lucro trazido pelo ganho na escala de vendas.

Reconheço também que o meu entendimento de livro digital seja de um produto específico, não necessariamente o livro impresso em versão digital, mas algo na linha de conteúdos feitos para o consumo em tablets ou celulares - como estes. Mas acho que a reflexão vale para os demais produtos que se encaixam dentro do termo e-livro.

Ter uma editora sempre foi um pouco profissão de fé. Não que o objetivo de uma empresa não seja ganhar dinheiro, mas o publisher tem também um amor pela cultura que o fazendeiro de soja ou o banqueiro não necessariamente compartilham. Esse é um mercado que prospera paralelamente à expansão do universo de leitores, que tem a ver com a promoção da educação.

Pensem em apps e em quem anda de ônibus

Desafio as editoras a fazerem experimentos pensando menos paranoicamente em proteger a distribuição irregular; e apostem em oferecer produtos que, além de bons, desejados, relevantes, atendam usuários de dispositivos portáteis e tenham preços que desincentivem o compartilhamento ilegal.

Pensem em apps e nas pessoas que passam horas sentadas nos ônibus indo e voltando para casa. Pensem em esquemas alternativos - como a disponibilização do conteúdo gratuitamente por patrocínio. Porque o livro digital não é apenas a versão digital de um produto analógio. É o contrário: o analógico é que é um dos formatos do produto digital.

E para não ficar no blablablá, termino citando casos interessantes. A Zahar lançou a coleção Expresso Zahar com livros com livros custando menos que cinco reais mas majoritariamente menos que dois reais. A Imã Editorial aponta para alternativas para a distribuição tradicional. A e-Galaxia diminui a distância entre autores e profissionais do ramo editoral e também oferece uma solução para distribuir esses livros que ficam prontos. E há ainda soluções como a PressBooks, que em breve terá versão funcionando no Brasil, e que simplifica o trabalho de pessoas interessadas em produzir livros.

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Piratear não é preciso

Dizem que “de graça, até injeção na testa”. Se o remédio for um livro bom, essa injeção pode ser a melhor alternativa para expandir o consumo e melhorar a qualidade dos livros.

É que hoje, quem lê em inglês têm pela internet um serviço correspondente ao de uma fantástica biblioteca de bairro, completíssima, eficiente e atualizada.

A “Amazon dos PDF” - Esse manancial de informação e cultura – que é ilegal – é conhecido principalmente dentro de espaços acadêmicos, entre estudantes que não podem depender das bibliotecas de suas faculdades para ter acesso a livros.

Mas as facilidades oferecidas pelo ambiente digital ampliaram a variedade de títulos.

Hoje, qualquer livro em inglês razoavelmente conhecido e que foi disponibilizado nos últimos dez anos pode ser encontrado em sites como Libgen – uma espécie de “Amazon dos arquivos PDF” – e Pirate Bay. Individualmente ou em coleções de centenas ou milhares de títulos.

(A chegada da Amazon ao Brasil trazendo apenas livros digitais deve também contribuir para que mais livros em português, devidamente “crackeados”, circulem por esses canais.)

No lugar das bibliotecas - Se o caso da indústria fonográfica serve de exemplo, o esforço para evitar o compartilhamento de conteúdo proprietário é vão. A natureza do digital é se espalhar.

A injeção contínua de livros digitalizados na rede alimenta acervos pessoais que facilmente podem ser recirculados quando um ou outro site de distribuição sai do ar.

Muitos livros impressos desaparecem depois da primeira edição por perderem o apelo comercial. A pirataria, então, indica uma possibilidade de reaproveitamento dos catálogos das editoras.

Seria possível que empresas comprem os direitos de pacotes desses livros que desaparecem no limbo para disponibilizá-los como coleções patrocinadas? Apareceriam assim: “Biblioteca Vale do Rio Doce de Autores Contemporâneos”. Ou “Coleção Banco do Brasil de obras de Economia”.

A rede se torna oficialmente essa biblioteca que muitos não têm e não terão a oportunidade de ir.

Outro modelo de negócio - Quem é mais velho tende a analisar esse fenômeno atribuindo a ele a responsabilidade por uma possível desestabilização do mercado editorial. Mas a questão pode ser relativizada.

O “pirateamento” de um livro é também uma expressão do sucesso dessa obra. As pessoas tanto querem ler que ajudam – informalmente – a fazer sua distribuição.

Se o livro puder ser grátis como a TV aberta para financiar a curadoria do editor e o trabalho de revisores, designers, etc, a obra digitalizada e relevante terá um alcance muito maior via recomendações boca-a-boca por redes sociais, por exemplo.

O patrocinador / mecenas não paga impressão nem distribuição. E uma tiragem normal do impresso, que hoje é de três mil exemplares ou menos, pode se ampliar radicalmente com a migração para o digital.

Auto-publicações – O mesmo meio digital que multiplica as opções de acesso a livros também facilita as possibilidades de produção de livros fora dos domínios tradicionais.

Livro publicado pode trazer prestígio, mas raramente compensa financeiramente o autor, que investe meses ou anos trabalhando. E se der para compartilhar o esforço e a recompensa?

Em 2009, eu levei 45 dias para reunir as participações para uma coletânea chamada Para Entender a Internet, publicada por mim mesmo.

Os co-autores, além de escrever, ajudaram a promover o lançamento e em uma semana o número de downloads ultrapassou o número de exemplares impressos do meu primeiro livro, lançado dois anos antes e cuja edição não tinha ainda esgotado.

Balanço final – Há milhares de livros já disponíveis em espaços de compartilhamento informal na internet. Muitos desses livros nunca chegariam aos leitores, por falta de dinheiro ou de bibliotecas.

Isso é um prejuízo? É para a gente celebrar ou para lamentar que mais pessoas queiram ler?

Fico pensando se, contra-intuitivamente à racionalidade comercial, a dita pirataria não pode gerar um efeito inesperado de ampliar o interesse pelos livros. E também de estimular empreendimentos criativos que “surfem essa onda”.

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Como melhorar um PDF e transforma-lo em e-book

Fiz dois tutoriais agorinha para quem lê muito, usa muito documento em PDF e quer saber como tirar melhor proveito deles. As instruções ensinam a:

1) Melhorar a qualidade do PDF: melhorar o contraste da página, transformar página dupla em página simples, fazer reconhecimento de caractere para poder copiar e colar conteúdo do PDF.

2) Trasformar o PDF em ebook: Existem muitos PDFs circulando na internet e não costuma ser muito útil abrir o PDF no ebook (Kindle, Kobo, etc.), porque o PDF aparece como imagem e não como texto. Daí não dá para usar dicionário, mudar tamanho de letra, etc.

Espero que os tutoriais ajudem principalmente universitários a aproveitarem melhor os milhares de arquivos que eles tem para ler.

Aqui vão:

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Leitor de e-book: vale a pena comprar e qual?

Faz tempo que eu estava com a ideia de fazer esse videozinho para ajudar quem estivesse indeciso em relação a comprar um leitor de ebook. Aproveitei que a semana passada teve uma série de notícias sobre o assunto - chegada da Amazon, etc - para tirar a ideia da cabeça.

Neste vídeo eu falo sobre: 1) vantagens do livro digital; 2) diferença entre leitores de ebook e tablets para consumo de livros; 3) diferença de leitores genéricos e "proprietários" como Kindle e Kobo; 4) por que prefiro o Kindle; 5) vantagens do Kindle para quem estuda e pesquisa.

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Library.nu não pode ser comparada a outros sites de compartilhamento ilegal

É sempre interessante notar as coisas que ecoam pela internet. No caso do fim do Library.nu, estou com a impressão que a análise que melhor capturou o entendimento e o sentimento dos usuários desse site foi a do antropólogo americano Chris Kelty, da Universidade da California, Berkeley - leia aqui, em inglês.. Para quem não sabe, o Library.nu disponibilizava gratuitamente entre 400 mil e um milhão de livros.

Kelty chama a atenção para o fato de que a saída do ar do Library.nu atenta contra o desejo de se adquirir conhecimento. A maior parte do conteúdo compartilhado é do tipo que estudantes e cidadãos em geral de países desenvolvidos têm acesso nas bibliotecas públicas. A Library.nu era o que vinha balanceando essa relação ao permitir ao resto do mundo ter contato com obras científicas de todas as áreas. (Note a quantidade de mensagens sobre o fim do site publicadas via Twitter e que não estão em inglês.)

Legalmente havia violação de direito autoral, mas o assunto fica confuso na medida em que a gente para de pensar no livro como um produto voltado ao entretenimento para vê-lo como algo fundamental para o desenvolvimento dos potenciais da sociedade. (Buscando uma comparação na medicina: pense na Aspirina e nas vacinas, uma vendida e a outra dada gratuitamente e obrigatória.) Kelty argumenta que o Library.nu não pode ser classificado junto com outros sites semelhantes por esse motivo.

Imagino que uma pessoa qualquer convidada a avaliar a situação teria mais facilidade para chamar de "furto" a apropriação não remunerada de softwares, filmes ou músicas do que de um livro de filosofia ou química. Talvez a gente tenha consciência de que o livro é um produto diferente e que a sociedade já dispõe de uma solução para fazer o livro chegar a quem não pode adquiri-lo: a biblioteca. É por isso, Kelty lembra, que o site se chamava "library".

Fico pensando em como essa situação pode ser comparada aos casos em que o Brasil licenciou compulsoriamente patentes de medicamentos para o tratamento da AIDS. Podemos argumentar, sim, que ninguém vai morrer por falta de acesso a livros. Também podemos argumentar que a disponibilidade no Brasil não comprometeria o comércio dos mesmos medicamentos em outros países. De certa forma, é verdade que não se morre (diretamente) de desnutrição de conhecimento. E a existência do Library.nu estimulava o acesso gratuito não apenas a quem não tinha alternativas, mas a qualquer pessoa. Por que comprar o livro físico se o exemplar digitalizado está online e grátis?

Ainda assim, a resposta a esse dilema não é obvia. Primeiro, uma grande parte das obras disponibilizadas no Library.nu ainda tem direito autoral vigente mas está fora de catálogo; ou seja, nem querendo se pode comprar o exemplar. Segundo, há indícios de que a disponibilização do arquivo do livro tende a estimular a venda do volume impresso. E ainda deve-se considerar que boa parte do conteúdo disponibilizado lá não é comprado pelo consumidor comum, mas principalmente por instituições, especialmente por bibliotecas e centros de pesquisa. E essas instituições continuarão comprando pelo mesmo motivo que elas não usam software ilegal.

Tentei resumir os argumentos do Kelty, mas acabei escrevendo bastante também. Mas não rivaliza com o dele porque é uma alternativa para quem preferir ler em português.

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Você quer pagar pelo livro, até aceita as restrições de uso, mas a Amazon não vende. Por que?

Esta é a história de um cara que queria muito ler um livro.

Queria tanto que visitou um site chamado Amazon.com e encontrou o livro em formato Kindle, o que permitiria a ele ter o arquivo imediatamente.

Tudo bem que o livro viria em formato fechado, com várias restrições de uso, para emprestá-lo, por exemplo. Não importa, ele queria ler.

Daí o nosso leitor procurou um botão de compra que não estava na página. Devia ser por ele ter se mudado de país recentemente. Mas isso é fácil resolver: ele alterou seu endereço e inseriu os dados do novo cartão de crédito para cobrança.

Feliz por ter resolvido o problema, nosso heroi fez uma nova busca pelo nome do autor e estranhou encontrar uma outra lista, menor e menos interessante, de obras. Foi, então, ao histórico de navegação no site, achou o livro novamente e acessou sua página. Foi quando se deu a grande revelação na forma de uma frase:

- "This title is not available for customers from your location in: Latin Am. & Caribbean".

E tinha mais: - "Due to copyright restrictions, certain Kindle Titles are not available everywhere. If the country or region displayed is incorrect, you may change it at http://www.amazon.com/manageyourkindle."

E ele entendeu tudo e também não entendeu nada. Por que, oh Senhor Deus, impor essa limitação? O que pode justificar a existência desse obstáculo injusto e aparentemente irracional?

Seria para forçar a compra de exemplares impressos? Ou será uma restrição imposta pela editora ou pelo autor? Mas por que, se o livro não está disponível nesta região do mundo, só o exemplar impresso encomendado?

Alguém tem outra hipótese para iluminar a situação?

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Textbooks da Apple e a cirurgia estética para deixar o livro popozudo

A Apple é mesmo a cara do Steve Jobs. Pode ser ao mesmo tempo genial e não ter escrúpulos quando a meta é vender e ganhar um mercado.

Fiquei muito mal impressionado com a propaganda - abaixo - sobre o novo campo de atuação da empresa: livros escolares digitais.

O que há de novo e verdadeiramente relevante nesse produto? Uma coisa: reduz muito o peso que o estudante leva na mochila.

Agora, assisto a propaganda e me lembro de outro produto, pré-internet, que fez certo sucesso e desapareceu: o CD-room. (Lembram da enciclopédia Encarta?)

A retórica é a mesma: falar para pais que não entendem nada do assunto e que ficam deslumbrados com animações.

E fica a pergunta: onde está a interatividade do produto? Esses meninos vão poder aprender uns com os outros, entre pares, que é o novo da comunicação em redes digitais, que é o que está por trás da transformação trazida por Wikipédia, YouTube e Flickr, para citar alguns?

Resposta: Não existe. Esses produtos não se ligam entre si. Esse tipo de "livro" não serve para isso.

A traição deste comercial é vender algo genuinamente ultrapassado e obtuso com uma roupagem nova, siliconada.

As "novidades" que eles colocam dentro desses livros, os estudantes já encontram pesquisando na rede há muito tempo. Não é novidade.

E o que é entregue junto mas não está explicado é uma plataforma de venda de livros digitais. (Leia, se quiser, o post em inglês deste advogado especializado em licenças de uso falando sobre o software de produção de livros lançado pela Apple.)

Em uma das falas de professores defendendo o produto, há uma que argumenta que o livro físico perde a função. E o que a gente faz com o livro digital da Apple: devolve e recebe o dinheiro de volta?

Aliás, será que dá para emprestar esse livro? Ou revender para um sebo? Ou passar adiante para um amigo? Não sei e gostaria de saber.

O comercial é intelectualmente desonesto, inclusive por se fazer passar por documentário quando a gente sabe que as falas foram escolhidas para vender o produto. Não há poréns...

Acho que essa iniciativa é uma furada e, mais, ele tem cara daqueles produtos que governos compram de baciada só porque parece ser a "grande novidade do momento". Como se isso fosse resolver o problema do aprendizado.

ps. 1 Quem está "pensando diferente", "fora da caixa" nesse quesito da educação são os finlandeses - leia aqui - e até os americanos estão tentando repetir a fórmula.

ps. 2 Tem um professor no comercial que fala que usar livros impressos é condenar os estudantes a usarem tecnologia de ensino dos anos 1950. OK, ele está se referindo a livros didáticos, mas, antes dos didáticos, como as pessoas estudavam?

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Você já pensou em ficar sócio de uma biblioteca pública?

Bibliotecas, parte 1

Frequentei com uma certa assiduidade a biblioteca "infanto-juvenil" do nosso bairro, aqui em São Paulo, quando eu era meninote e cursava o fundamental 1.

Dava-se o nome de fazer "pesquisa" ao ato de reproduzir palavra a palavra determinados verbetes enciclopédicos, geralmente os mais longos.

A ida à biblioteca condenava à morte uma tarde perfeita assistindo desenhos na TV. No entorno, bibliotecárias de avental parecidas com as professoras da minha escola e um pouco também com guardas carcerários.

Não chegava a ser uma experiência traumática, mas a lembrança física que ficou é parecida com a experiência de ir ao dentista: um aborrecimento que não podia ser evitado.

Bibliotecas, parte 2

O fato é que no ano passado tive a oportunidade (na verdade, um presente do Céu) de parar de trabalhar para, durante um ano, "apenas" estudar.

Ficamos em Londres, mas, na prática, vivi entre as salas de aula e bibliotecas, a da própria universidade e a British Library.

Biblioteca, neste caso, é mais do que um arquivo público de livros. É o ambiente propício ao estudo: cadeiras, mesas e iluminação específicas para acomodar o corpo em certas posições durante horas e - luxo para quem é distraído - bastante silêncio.

Comecei a sentir saudades da Inglaterra antecipadamente, no dia frio de janeiro em que me inscrevi para usar a British Library: salas intermináveis, silêncio, acomodações confortáveis, internet grátis e 150 milhões de itens disponíveis para pesquisa.

Da biblioteca à livraria

Alguns anos depois de "ter alta" das idas compulsórias à biblioteca da minha infância, passei a frequentar voluntariamente a livraria do meu bairro. Mas diferente daquela, esta tinha pessoas simpáticas e livros que me interessavam.

Troquei a biblioteca pela livraria. A ponto de ter transformado a ida a livrarias em passeio. Difícil não levar alguma coisa para casa, mas, reconheço, a maior parte eu deixei para depois. Comprei por impulso e muitos acabaram entrando para uma fila grande e desordenada de coisas para ler "em algum momento".

Tenho muito mais livros do que eu posso ler e, pasme, continuo tendo o desejo de comprar. Mas voltei a São Paulo disposto a buscar um equilíbrio novo entre ganhar dinheiro e ter tempo e, nesse novo contrato, me ocorreu que poderia ficar sócio de uma biblioteca pública.

Por que eu não tinha pensado nisso antes? Será que eu não tinha tempo por estar no escritório nas horas que as bibliotecas abrem? Será que eu pensava que não encontraria livros que me interessariam? Suspeito que, no fundo, haja um certo orgulho de ter poder de compra.

Alceu Amoroso Lima

É um prédio meio arrojado, de concreto mas elegante, na esquina da Cardeal Arco Verde com Henrique Schaumann. Vi pela internet que precisava de comprovante de residência e RG para ficar sócio.

A especialidade deles é literatura, mas com a mesma inscrição eu posso retirar livros em qualquer outra biblioteca municipal. O acervo pode ser consultado por computador. Quem não puder ir no horário de funcionamento, pode ligar e o livro será reservado para ser retirado até as 19h.

Encontrei livros usados mas em bom estado. Livros da Cosac, da Cia das Letras, de outras boas editoras. Publicações recentes e também outros que, tendo perdido o valor comercial, geralmente as livrarias não têm.

Comprar para que?

A experiência de ser bem atendido e de encontrar livros atuais e em boas condições na biblioteca pública do bairro me fez repensar o sentido de ter criado e manter a minha modesta coleção privada.

Veja: o livro (enquanto livro) tem vida útil de, em média, um mês ou menos. Depois disso, a imensa maioria se converte em itens de decoração que ocupam espaço e são difíceis de transportar em quantidade.

Neste cenário, a gente parece optar pelo gasto e pelo compromisso de armazenamento futuro (apesar de sua provável inutilidade) à perspectiva de não ter o produto ou para evitar a inconveniência de procurá-lo por outros meios.

Mas, por estranho que isso possa soar, acho que, como eu, muitas pessoas nem consideram a possibilidade de frequentar a biblioteca. Mesmo sabendo que ela abre aos sábados e sem investigar a qualidade do acervo.

Necessidade induzida

Estou considerando a hipótese de que o consumo de livros nas condições que descrevi seja uma necessidade induzida e em grande parte dispensável.

Se no seu bairro a biblioteca tem um acervo interessante, se ela abre nos finais de semana, se você pode escolher o que quiser e levar para casa sem pagar e sem ter que armazenar eternamente, você está gastando à toa.

Sim, a livraria tem livros atuais, mas acho importante mencionar o esforço das editoras para alimentar essa imagem da atualidade. Eu já comprei muitos livros impulsivamente, seduzido por capas e recomendações.

Outros apareceram, perdi o prazo de devolução e eles entraram na lista do "um dia quem sabe".

"Emprestar" da rede

Não sei se as bibliotecas públicas do passado eram muito ruins ou se a gente cultiva a noção de que emprestar livros é coisa de quem não tem dinheiro para comprar.

O fato é que encontrei um acervo atualizado e bem-cuidado na biblioteca do meu bairro. É grátis ficar sócio e não tenho ansiedade de pegar ou não pegar um livro. Se não tiver na hora, tem outros. Se eu não gostar, devolvo.

Isso me faz pensar em fazer uma boa "rapa" no meu acervo pessoal e doar para a Amoroso Lima. Eles cuidam bem e meus livros servirão a outros.

E finalmente, isso me faz pensar também no livro digital. Se eu posso emprestar da biblioteca, por que não "emprestar" da rede?

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Netflix para livros: a maior biblioteca do mundo no seu tablet

Fiquei me perguntando hoje porque a indústria do livro não abraçou um modelo de distribuição semelhante ao da Netflix. Curiosamente, a Mashable informou no mês passado que a Amazon está trabalhando nesse projeto. O assinante paga um valor definido por mês e tem acesso a todo o acervo do catálogo. Pode ler o que quiser, quando quiser, sem pagar mais por isso. Este post apresenta algumas vantagens desta solução.

No caso da TV, a gente paga para assistir 100% do conteúdo de canais a cabo, mas, na prática, fica subordinado ao que é transmitido em determinados horários. Uma alternativa é se dar ao trabalho de encontrar cópias de boa qualidade do conteúdo que se quer ver e baixar esse material. Há um preço nisso: o trabalho de procurar, a frustração por descobrir que o arquivo é ruim e se expor a infestar a máquina com cookies e virus.

A Netflix considerou que a internet traz oportunidades de economia. Eles podem concorrer com locadoras sem precisar se preocupar com os custos relacionados à produçao, transporte e armazenamento da mídia física. Isso significa que, por R$ 15, o assinante nao precisa sair de casa e pode assistir quantos filmes ou séries quiser sem sair de casa.

Não se trata apenas da empresa economizar dinheiro usando a rede, mas de outro cálculo que o consumidor faz. Quantas vezes voce já se arrependeu de ter pago para assistir um filme no cinema ou ter comprado um livro ou um disco?

Há dois tipos de conteúdo: o que se quer provar e o que se quer ter. Já li relatos de casos indicando o efeito benéfico da distribuição livre para a comercialização de certos produtos. É que quem prova e gosta quer ter. Quem gosta muito de um filme que baixou quer ter a melhor versão e também prestigiar os responsáveis por disponibilizar o conteúdo.

Fico me perguntando como isso pode fazer sentido para livros. Eu pagaria R$ 15 por mês para baixar e ler os livros que quisesse. Qualquer um! É uma mudança de perspectiva. Vou poder experimentar livremente e sem ter a obrigaçao de ficar com alguma coisa.

Sim, porque ficar não é sempre a melhor solução. Ficar com alguma coisa implica em mante-la em um lugar (de preferencia, acessível): uma estante, uma pasta em disco rígido, etc. Quantos livros da sua estante você não devolveria para o livreiro para ter mais espaço se soubesse que poderia acessar essa cópia a qualquer momento?

A possibilidade de acessar qualquer produto, no caso do livro, aponta para uma outra vantagem: ela dá sentido ao livro impresso. O impresso é aquilo que a gente gosta tanto que quer ter fisicamente, quer pegar, fazer anotações, etc. O resto nao precisa ser impresso.

Esse ambiente novo traz consigo um catálogo muito maior do que o disponível hoje pelas editoras. A gente sabe da quantidade de livros que não é reimpresso porque nao tem demanda e que novos leitores nao tem acesso porque o prazo do direito autoral ainda nao expirou. Se eu pago por qualquer arquivo, se a editora recebe um valor proporcional ao número de livros baixados, faz sentido que a editora queira disponibilizar a versão digital dos livros que estão fora de catálogo. Isso torna o ambiente de leitura mais interessante em função da diversidade de conteúdo.

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E se tratarmos livros como softwares e eles evoluirem com o tempo?

Editoras precisam lançar livros novos para gerar receita. Uma vantagem do livro recém lançado é que pouca gente leu, então, se a capa for caprichada e a resenha aparecer nos veículos certos, a venda acontece. Daí o consumidor chega em casa e percebe que o título não é aquilo que esperava, mas daí é tarde. Nem todos conseguem voltar para trocar.

E os ótimos livros que saem de catálogo porque a demanda baixa não justifica a reimpressão? Se eles não estão vendendo tanto, por que não disponibilizá-los bem baratinho online? Isso não está dando certo com a música/vídeo via iTune/Netflix e similares? O problema é que disponibilizar o conteúdo fora de catálogo pode saciar o desejo do leitor e reduzir os gastos com as novidades.

Parece que há um grande silêncio no mercado editorial em relação a esse assunto. As editoras querem continuar vendendo papel impresso apesar das inúmeras vantagens e facilidades do formato digital, para si e para o consumidor, e o consumidor vai descobrindo o crescente mercado de livros compartilhados ilegalmente online.

E fico me perguntando se não podemos pensar no livro da mesma forma como pensamos o software. A gente não compra o pacote inteiro do Windows quando uma nova versão sai, a gente atualiza o programa, e quando isso não é de graça, custa apenas uma fração do preço integral.

Livros também são sequências de código. A editora pode começar a pensar nele como tal. O custo de impressão e distribuição hoje não existem. Por que não concentrar recursos na curadoria para oferecer um produto sensacional?

Por que esse produto não pode ser vendido bem baratinho ou de graça, como os apps para IPhone ou IPad, e terem modelos alternativos de rentabilização? Sim, o preço é um dólar, mas sim, você não paga nada para copiar ou distribuir, e se é barado, é mais fácil comprar do que procurar no "black".

Pense em uma editora que lança livros em formato de apps. Os livros continuam sendo aperfeiçoados porque cada vez que ele melhora, mais pessoas querem comprar e também se fideliza quem já comprou. O sucesso do livro conduz ao desenvolvimento e isso traz novas vendas.

O livro não precisa ser do tamanho que tem hoje. Pode ser adaptado à falta de tempo. Pode ser mais compacto e distribuído em mais capítulos.

Se for ficção, seções da história podem ser modificadas ou acrescentadas. O bacana passa a ser acompanhar esse processo produtivo. Se for não-ficção, a conteúdo pode ser expandido, aprofundado, aperfeiçoado a partir do que o leitor demonstrar ter interesse.

O livro não precisa acabar. Antes ele acabava porque custava muito dinheiro imprimir e distribuir. Era melhor ou mais garantido fazer outro.

Pense em um autor que voce gosta muito. No meu caso, é o Rubem Braga. É claro que eu compraria o livro do R.B. para ter o prazer de ver o livro vivo, em movimento; me surpreender com descobertas de como ele desdobrou uma cronica ou uma parte da cronica que tenha sido particularmente popular. Eu pagaria, sim, para estar mais perto do autor que eu admiro.

O autor é um programador também, mas o código dele é a cultura e ele programa a maneira como a gente percebe e entende o mundo. Como isso se apresenta não obedece a fórmulas. A fórmula traduz o momento em que ela foi adotada.

Hoje, a versão atualizada de um livro é algo que acontece raramente. O livro precisa ser um sucesso para ganhar uma "versão atualizada e expandida". Agora, em vez de gastar com o papel e tinta e distribuiçao e promoçao, por que nao pagar o autor? Afinal é ele a parte essencial do produto.

Antigamente, também, a comunicação do público com o autor e do público com o público acontecia dentro do espaço escasso das seções de cartas dos leitores nos jornais. Hoje é só abrir um fórum de discussão e, se o livro for incrível, o espaço vai se encher com gente falando a respeito dele. Monitores podem ajudar a processar a conversa para retirar dessa participaçao o filé que poderá retro-alimentar o autor para ele, sabendo como está sendo lido, desenvolver a obra.

Escrevo isso e eu mesmo me censuro pensando: "É absurdo, livro não funciona assim, tem que acabar na última página." Quem disse? As coisas se reinventam. Existe o modelo atual e o que ainda não foi inventado e que a grande promessa que ninguém ainda tenha ousado fazer.

Um dos maiores motivadores na hora de se comprar um livro é conhecer o autor. Ter gostado de um livro anterior reduz a perspectiva de se desapontar. Então, por que não reinventar o livro fazendo com que ele possa ser reescrito e republicado tantas vezes quanto ele seja capaz de encantar os leitores.

E isso nao vale apenas para o livro cujo autor é vivo. Fico imaginando a delícia de poder me interagir com outros adoradores do R.B. e da possibilidade de reler os textos dele dessa maneira. A editora pode ter um "curador" que se encarregue de fazer os updates no "código". Não estou sugerindo que ele reescreva os originais, mas a criaçao de conteúdos novos junto com o original.

É isso: eu curtiria a ideia de pagar R$ 1,00 por um livro e ter experiencias como essa.

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