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Como matar o intermediário: um estudo de caso sobre auto-publicação

Um dia ele criou um blog porque se sentia sozinho em um país estrangeiro.

Com o tempo, o blog se tornou popular e começaram a aparecer convites para publicar nos meios tradicionais.

Essa oportunidade implicou em limitar o acesso do conteúdo dele a "mercados", dificultando ou inviabilizando o acesso a quem não era atendido pelas estruturas de distribuição.

Um dia, ele cansou e, em 1400 palavras, mandou passear os principais jornais da Espanha, do México e da Argentina. E resolveu abrir uma editora.

Ele se propôs a fazer uma revista trimestral, sem nenhuma publicidade, com duzentas páginas, apenas com a participação das pessoas que ele gostava de ler.

De cara, teve dez mil pré-assinantes. Detalhe: a revista é disponibilizada online, grátis.

Vale a pena conhecer esta história:

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E se tratarmos livros como softwares e eles evoluirem com o tempo?

Editoras precisam lançar livros novos para gerar receita. Uma vantagem do livro recém lançado é que pouca gente leu, então, se a capa for caprichada e a resenha aparecer nos veículos certos, a venda acontece. Daí o consumidor chega em casa e percebe que o título não é aquilo que esperava, mas daí é tarde. Nem todos conseguem voltar para trocar.

E os ótimos livros que saem de catálogo porque a demanda baixa não justifica a reimpressão? Se eles não estão vendendo tanto, por que não disponibilizá-los bem baratinho online? Isso não está dando certo com a música/vídeo via iTune/Netflix e similares? O problema é que disponibilizar o conteúdo fora de catálogo pode saciar o desejo do leitor e reduzir os gastos com as novidades.

Parece que há um grande silêncio no mercado editorial em relação a esse assunto. As editoras querem continuar vendendo papel impresso apesar das inúmeras vantagens e facilidades do formato digital, para si e para o consumidor, e o consumidor vai descobrindo o crescente mercado de livros compartilhados ilegalmente online.

E fico me perguntando se não podemos pensar no livro da mesma forma como pensamos o software. A gente não compra o pacote inteiro do Windows quando uma nova versão sai, a gente atualiza o programa, e quando isso não é de graça, custa apenas uma fração do preço integral.

Livros também são sequências de código. A editora pode começar a pensar nele como tal. O custo de impressão e distribuição hoje não existem. Por que não concentrar recursos na curadoria para oferecer um produto sensacional?

Por que esse produto não pode ser vendido bem baratinho ou de graça, como os apps para IPhone ou IPad, e terem modelos alternativos de rentabilização? Sim, o preço é um dólar, mas sim, você não paga nada para copiar ou distribuir, e se é barado, é mais fácil comprar do que procurar no "black".

Pense em uma editora que lança livros em formato de apps. Os livros continuam sendo aperfeiçoados porque cada vez que ele melhora, mais pessoas querem comprar e também se fideliza quem já comprou. O sucesso do livro conduz ao desenvolvimento e isso traz novas vendas.

O livro não precisa ser do tamanho que tem hoje. Pode ser adaptado à falta de tempo. Pode ser mais compacto e distribuído em mais capítulos.

Se for ficção, seções da história podem ser modificadas ou acrescentadas. O bacana passa a ser acompanhar esse processo produtivo. Se for não-ficção, a conteúdo pode ser expandido, aprofundado, aperfeiçoado a partir do que o leitor demonstrar ter interesse.

O livro não precisa acabar. Antes ele acabava porque custava muito dinheiro imprimir e distribuir. Era melhor ou mais garantido fazer outro.

Pense em um autor que voce gosta muito. No meu caso, é o Rubem Braga. É claro que eu compraria o livro do R.B. para ter o prazer de ver o livro vivo, em movimento; me surpreender com descobertas de como ele desdobrou uma cronica ou uma parte da cronica que tenha sido particularmente popular. Eu pagaria, sim, para estar mais perto do autor que eu admiro.

O autor é um programador também, mas o código dele é a cultura e ele programa a maneira como a gente percebe e entende o mundo. Como isso se apresenta não obedece a fórmulas. A fórmula traduz o momento em que ela foi adotada.

Hoje, a versão atualizada de um livro é algo que acontece raramente. O livro precisa ser um sucesso para ganhar uma "versão atualizada e expandida". Agora, em vez de gastar com o papel e tinta e distribuiçao e promoçao, por que nao pagar o autor? Afinal é ele a parte essencial do produto.

Antigamente, também, a comunicação do público com o autor e do público com o público acontecia dentro do espaço escasso das seções de cartas dos leitores nos jornais. Hoje é só abrir um fórum de discussão e, se o livro for incrível, o espaço vai se encher com gente falando a respeito dele. Monitores podem ajudar a processar a conversa para retirar dessa participaçao o filé que poderá retro-alimentar o autor para ele, sabendo como está sendo lido, desenvolver a obra.

Escrevo isso e eu mesmo me censuro pensando: "É absurdo, livro não funciona assim, tem que acabar na última página." Quem disse? As coisas se reinventam. Existe o modelo atual e o que ainda não foi inventado e que a grande promessa que ninguém ainda tenha ousado fazer.

Um dos maiores motivadores na hora de se comprar um livro é conhecer o autor. Ter gostado de um livro anterior reduz a perspectiva de se desapontar. Então, por que não reinventar o livro fazendo com que ele possa ser reescrito e republicado tantas vezes quanto ele seja capaz de encantar os leitores.

E isso nao vale apenas para o livro cujo autor é vivo. Fico imaginando a delícia de poder me interagir com outros adoradores do R.B. e da possibilidade de reler os textos dele dessa maneira. A editora pode ter um "curador" que se encarregue de fazer os updates no "código". Não estou sugerindo que ele reescreva os originais, mas a criaçao de conteúdos novos junto com o original.

É isso: eu curtiria a ideia de pagar R$ 1,00 por um livro e ter experiencias como essa.

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A internet não inventou a revolução

O vídeo da professora Amanda me dá a oportunidade de falar sobre a recorrente associação da internet com transformações sociais recentes.

1) A internet está recebendo o crédito em nome também da rede pública de TV que capta e transmite as sessões legislativas. Sem isso, não haveria o ótimo registro, disponível para a população.

2) A repercussão na rede foi maior porque conseguiu se tornar um fato noticioso e chegar às redações do país e de lá, a programas de audiência nacional como o do Faustão.

A fala sobre o poder revolucionário da internet é perigosa porque alterna dados de realidade e "dados de empolgação". Há uma percepção que passa subentendida de que basta acrescentar internet para o mundo se transformar para melhor.

Em relação a isso, consideremos o seguinte:

1) que acontecem revoluções no mundo muito antes da existência da Internet e a gente não precisa ir muito longo para acompanhar, nos anos de 1990, a queda dos regimes comunistas na Europa do leste.

A comunicação entre as pessoas é um aspecto fundamental desses processos, mas, em vez de se creditar uma parte da infraestrutura, faz mais sentido pensar o ecossistema midiático sem o qual a parte ou não funcionaria ou não teria a mesma força.

2) que por trás da internet existem pessoas, suas culturas e suas histórias. Essas pessoas interpretam e adotam a internet segundo seus pressupostos e dentro do possível permitido por suas conquistas coletivas.

É bacana ver que a mensagem da professora Amanda ecoar nos corações e mentes de tantas pessoas, mas apenas passar o link adiante, por enquanto, só foi suficiente para dar uma pauta aos jornalistas. Resolver o problema de educação no país vai exigir um pouco mais de trabalho.

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Dados brutos e conclusões iniciais sobre a pesquisa sobre sociabilidade na Internet

Estou disponibilizando o resultado bruto da pesquisa proposta na semana passada - ver o post anterior. A proposta era mapear os canais de pesquisa que o usuário de internet usa para conversar com grupos diferentes de sua rede de relacionamento.

Motivação da pesquisa

Estou interessado em entender como o brasileiro lida com o fato de os sites de redes sociais reunirem públicos diferentes. Na vida presencial aprendemos a controlar e a entender contexto, de maneira que a gente sabe o que dizer e não dizer em em determinados lugares e circunstâncias, mas esse aprendizado está se dando em relação ao uso da internet.

Há N casos de pessoas que tiveram problemas mais ou menos complicados por terem partes de suas vidas reveladas a públicos de contextos diferentes. Por exemplo: as fotos da professora na balada que circulam entre os alunos e chegam aos pais e à direção da escola.

Na medida em que os sites de redes sociais ainda não oferecem soluções para compartilhar informação dentro de contextos - conforme indica este estudo do Google -, a intenção da pesquisa foi ver se os usuários constroem por conta própria soluções para administrar esses contextos em sua vida online.

Montagem do questionário

A pesquisa, portanto, pedia para os participantes apontarem quais canais de comunicação eram importantes para eles conversarem com grupos diferentes. Os canais eram: presencial, fone, SMS, comunicador instantâneo (Messenger, etc), email, Orkut, Facebook e Twitter.

Os grupos relacionados foram 1 (família direta): pais, irmãos e filhos; 2 (família próxima a) tios e avós; 3 (familia próxima b) primos; 4) amigos de grupos (igreja, clube, vizinhança, etc); 5) amigos do ensino fundamental e médio; 6) amigos do ensino superior; 7) amigos do trabalho.

Os participantes tinham quatro opções de resposta para indicar a importância de cada canal para o contato com o grupo, a saber: fundamental, útil, indiferente e não se aplica.

A amostragem foi de cem pessoas, sendo que 86 responderam todas as perguntas. Em torno de 50% dos participantes disseram morar no Estado de São Paulo, principalmente na capital. Os estados do Sudeste e do Sul aparecem também em destaque, junto com Brasília. Aproximadamente metade dos participantes responderam que têm entre 20 e 29 anos e cerca de 30% disseram ter de 30 a 39.

Resultado e conclusões iniciais

Fiz um esforço para que o experimento fosse controlado, solicitando o preenchimento do questionário nos mesmos horários e pelos três canais de sistes de rede social mencionados na pesquisa: Orkut, Facebook e Twitter. Tenho dúvidas sobre a validade desse cuidado porque entendo que existem outros fatores sutis que podem impactar de maneira relevante o resultado.

A análise dos dados a princípio indica que canais que exigem mais atenção individual e/ou disponibilidade imediata (como telefone e email) são preferidos para se falar com familiares, ao passo que canais online supostamente menos intrusivos (como sites de relacionamento) servem para a gestão de contatos entre amigos. Há ainda uma aparente separação de canais por geração: usa-se mais os sites de rede social para falar com primos do que com tios e avós.

O resultado indica, portanto, que o site de rede social parece estar sendo usado como ponto de contato entre grupos de origens diferentes. É possível especular, no entanto, que há um acordo não implícito de que informações relativas a contextos sejam compartilhadas por canais diretos e sigilosos como mensagem direta ou email.

Inteligência coletiva

No final, acho que aprendi mais COM a pesquisa do que DA pesquisa.

Valeu a pena ter incluído no final do questionário uma pergunta sobre outros grupos e ferramentas que não teriam sido mencionadas. Várias pessoas indicaram ter sentido falta da inclusão de listas de email - como Google Groups - entre as ferramentas. Outro item que teria feito sentido incluir é o Ning. Os dois se prestam justamente para conversas verticais.

Entre os grupos não relacionados, apareceram as seguintes recomendações de categorias: amigos íntimos; amigos no exterior / distantes; contatos profissionais; pessoas que são referências em setores (que a gente segue pelo Twitter e ocasionalmente encontra); colaboradores (talvez o correspondente ao contato profissional para ativistas e acadêmicos); e companheiro/a, marido/esposa, namorado/a.

Essas são as minhas impressões e vou ficar grato pelo feedback que for compartilhado publicamente no campo de comentários abaixo ou mais discretamente por email.

Recados finais

Ao fazer a tabulação dos dados, senti necessidade de acrescentar duas colunas, uma para indicar a soma das respostas afirmativas (funtamental e útil) e a soma das negativas (indiferente e não se aplica), para visualizar também desta forma a importância da ferramenta. No documento, uso as cores: laranja para indicar destaque de uso; lilás para indicar destaque de não-uso; e verde para indicar um resultado intermediário ou de transição entre uso e não-uso.

É importante deixar claro, caso isso já não esteja, que este foi um experimento pessoal, usando uma conta básica da ferramenta de pesquisas Survey Monkey. A intenção foi: 1) fazer uma sondagem inicial para refletir sobre os caminhos para avançar no entendimento da questão indicada e 2) compartilhar esses resultados para abrir canais de interlocução sobre o assunto.

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Virtual Open Day do mestrado em Antropologia Digital da UCL

Durante muitos anos, eu acho, a melhor forma de se aprender sobre a Internet era se envolvendo com ela, arrumando um trabalho na area ou apenas passando horas "brincando" na rede. (Continua sendo, mas finalmente estao surgindo outras.)

Meu diagnostico precario eh que esta area de atuacao rompe a separacao tradicional das universidades e do conhecimento. A atuacao na internet envolve (pelo menos) duas coisas, um interesse por tecnologia - inclusive no sentido literal do termo, de fazer com as maos, de criar artesanalmente - e tambem por pessoas e grupos sociais.

Acho que eh por isso que a Internet nao foi inventada - outros inventos foram sendo apropriados, mas ninguem a anteviu - e tambem por isso que as universidades continuam tentando - para atender a demanda - criar cursos superiores nesse campo.

Quem estiver procurando um caminho menos obvio mas muito promissor - profissionalmente e em relacao a oportunidade de desenvolvimento intelectual - pode acompanhar o Open Virtual Day da University College London.

Sera uma sessao interativa de 1 hora em que os interessados - particularmente no curso de Antropologia Digital - poderao fazer suas perguntas aos professores e mestrandos.

Tem mais informacao aqui, horario, etc. Tambem no "reclame" abaixo.

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Download grátis do Para Entender a Internet, Manual do Twitter e parte do Conectado

Estou envergonhado com a bagunça pública que está este blog. Não tenho podido escrever, por um motivo ou outro, depois explico. Esta notinha é só para dizer que em breve pretendo retomar o uso deste espaço para compartilhar ideias, conversar. Por agora, tenho recebido emails de pessoas dizendo que não estão conseguindo baixar o manual do Twitter e o Para entender. Aproveito, então, para republicar esse material.

Prefácio e alguns capítulos do meu Conectado

Manual do Twitter

Para Entender a Internet

Logo nos falamos ;-)

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Bibliografia em inglês sobre Internet e cultura digital

Fonte:List of resources on the Social Web

History of the Internet

Critical approaches to the Internet

Internet possibilities:

Theory and background

Digital generation

Social behaviour

Popular culture

Social networks

Blogs

User-generated content

Trust, privacy and ethics

Searching, finding and collective intelligence

Impact on news, journalism and print

Business, marketing and innovation

Politics

Health

User guides

Software

ARTICLES

Social media

Web 2.0

OTHER RESOURCES

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Guia mostra erros e acertos na criação de um projeto 2.0

Um dos meus textos favoritos sobre o futuro da comunicação compara a física da colaboração à física do clima. A gente sabe as forças que estão atuando, mas ainda não podemos prever o que vai acontecer em função da abundância de complexidade.

A maneira que temos hoje de explorar ecossistemas complexos "é testando um montão de coisas, e você torce para que as pessoas que falharem, falhem de maneira informativa para que pelo menos você encontre os crânios nas estacas próximos de onde você estiver indo."

Essa frase me veio à cabeça logo que comecei a folhear pelo computador o livro do Paulo Siqueira, Web 2.0 – Erros e Acertos – Um guia prático para o seu projeto, que acaba de ser lançado online e com licença Creative Commons.

Todo mundo que trabalha com tecnologia sabe que a parte mais chata do processo é a documentação. Um programa pode ter milhares de linhas de código, um projeto geralmente tem centenas de etapas até ficar pronto, e a documentação é o que permite que aquele território conquistado possa ser mantido.

Tudo o que estamos fazendo de maneira colaborativa e descentralizada depende disso. Cada experiência vivida é compartilhada, muitas vezes em forma de tutorial, tanto para permitir que outros sigam a diante como para indicar que aquele é um beco sem-saída, que é perda de tempo fazer daquela forma.

No começo deste ano o Paulo colocou no ar um projeto pessoal para criar um serviço, o digi.to, para integrar Twitter a SMS. Algumas coisas funcionaram, outras não. Todos conhecemos dezenas ou centenas de projetos nessas condições. A diferença é que o Paulo se deu ao trabalho de fazer um mapa de sua aventura como empreendedor dizendo por onde ele andou, onde o terreno era firme, onde havia armadilhas.

Esse é o grande mérito do livro e um grande exemplo de como, em tempos de internet, transformar um limão em limonada. Por isso estou participando do lançamento e desejo sucesso à obra e ao autor.

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Procura-se bons tutoriais sobre Internet

Quero montar um livro em PDF - registrado com licença Creative Commons - reunindo tutoriais sobre como usar serviços como WordPress, Flickr, Delicious, Twitter, etc. A aposta é que, fazendo uma pequena triagem e reunindo esse material em um só arquivo, a utilidade do conteúdo se multiplicará.

Se você tem tutoriais prontos no seu blog ou conhece algum existente em português, publique-o no Delicious com a tag livrotutorial. Se você não sabe usar o Delicious, pode aprender lendo este tutorial do MeioBit ou me passar o link por email.

Existem tutoriais feitos em vídeo e também em apresentações, mas, para este formato, é necessário que ele seja prioritariamente em texto, de preferência incluindo links e imagens ilustrativas.

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"Me parece um excelente canal para disseminar valores e reposicionar marcas"

Especialistas de determinadas áreas vêm sofrendo com a Internet. Li um artigo na revista New Yorker dizendo que a Wikipedia não diferenciava um acadêmico de um garoto de 14 anos que lê bastante. E eu sinto prazer verdadeiro sempre que encontro esses amadores, pessoas que, por exemplo, nunca escreveram profissionalmente, nunca venderam um texto, talvez nem tenham pensado em fazer isso, mas tem paixão por um assunto e isso as coloca numa posição interessante em relação ao profissional da área. O amador geralmente tem mais liberdade para dizer o que pensa, porque ele faz isso porque quer, quando quer, sempre depender de prestar contas a uma organização.

Estou fazendo essa introdução porque o post sobre o Blog do Planalto e o Twitter do Serra aproximou o jornalista Vinicius Gorgulho, que se deu ao trabalho de deixar um longo e lúcido comentário após o texto - como o José Murilo do MinC também fez. Pedi autorização a ele para publicá-lo aqui pelo valor da reflexão e também por gratidão, na medida em que é um texto crítico ao meu, mas feito abertamente e com argumentos.

Sou um bastante preocupado com política e acho que a política partidária é o lodo do fundo da fossa da participação política no mundo moderno. Sou mais pela participação direta, via plebicitos sustentados por um modelo de educação que torne as pessoas protagonistas de suas vidas, famílias e comunidades.

PT partido sem mídia, PSDB mídia sem partido, Marina criacionista, os sombrios Demos etc. são todos farinha do mesmo saco. Nenhum deles se preocupou pra valer em fazer um projeto que revolucionasse a educação, como vários emergentes no mundo fizeram com sucesso, assegurando sustentabilidade para projetos de desenvolvimento.

Ainda que, como os outros, o foco do PT seja um projeto de poder, entre os demais é o que mais chega perto de um projeto de desenvolvimento, porque concentra esforços na distribuição de renda, coisa que nunca foi projeto de tucanos e demos.

Lula é totalmente populista, meio caudilho, messiânico, sem protocolo e muitas vezes sem noção, mas toca um projeto que já originalmente tinha vocações mais participativas que os opositores.

O problema é como novo rico político (nunca teve e agora tem muito poder) o PT come iguarias e arrota lavagem. Não prima pela gestão, nem pela idoneidade, tem rabo preso com coronéis como Sarney, mas ainda assim é menos voltado ao modelo que esvazia o estado e centraliza decisões no mercado, ou seja, no poder econômico.

Infelizmente, diante do poder, o PT se afastou da base e está cada vez mais parecido com o PSDB: são partidos de caciques. Sem mídia para fazer costas quentes, como rola com os tucanos, fica muito mais fácil para nós policiarmos os petistas.

Dito isso, acho que é muita ingenuidade esperar que blogs e twitters de partidos como esses sejam esferas de participação popular. Eles são meramente ferramentas de RP.

O blog não dialógico do planalto é simples apoio à imprensa, o modelo torcido de RP, onde só se pensa em relações com a imprensa. O twitter do Serra serve ao reposicionamento da imagem do político, um RP online com caráter mais amplo, de relacionamento com a classe média graduada ou pós-graduada e usuária pesada de internet, público notadamente formado por uma maioria de profissionais de comunicação, gente influente no engajamento da opinião pública.

Se é ele mesmo que responde eu não sei. Sei que qualquer bom profissional de comunicação pode ser um ótimo ghost writer, inclusive emulando a naturalidade do personagem.

Vale dizer também que uma mídia que oferece "peças" de 140 toques, demanda uma hiper-rotatividade e já tem credibilidade de canal de informação e opinião entre o público que mencionei, acaba fazendo o seguidor ler e "comprar" discursos subjacentes, sem muita análise do discurso a priori.

Dessa perspectiva, me parece um excelente canal para disseminar valores e reposicionar marcas. Marcas como José Serra.

Por fim, acho que a internet é sim "O" grande canal para operacionalizarmos uma democracia verdadeira, de participação direta em rede. Só que ela sozinha, sem um projeto de educação transformadora pode simplesmente nos transformar num povo fascistóide, comos os malucos que foram ao discurso do Obama fortemente armados.

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