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Entrevista com Rene de Paula, evangelista da internet e criador do Radinho

Quem diz que trabalha com internet e não conhece o "Rene do Radinho"? É o cara que está em todas. Dá curso, faz palestra, viaja, mantém blog, grava podcasts, twita, fora o trabalho remunerado. E ele ainda lê e responde aproximadamente cem mensagens por dia só da lista famosa que ele criou e mantém desde 2001.

Esses dias eu publiquei um artigo sobre evangelistas. O Rene é a única pessoa que eu conheço no Brasil que tem esse título impresso no cartão de visitas. Para chegar lá, foram 12 anos trabalhando com internet, mais cinco no curso de engenharia e mais a graduação em rádio e tv.

Explorei basicamente os dois temas na nossa conversa: o percurso que ele trilhou combinando expertises para se projetar profissionalmente e a gênese e evolução do Radinho, uma lista histórica, responsável por aproximar muita gente atuando nessas novas carreiras.

Claro que o papo foi longo, trocamos 30 mensagens desde 3 de março. Por isso estou publicando uma versão compacta a seguir e o texto integral para quem quiser conhecer os detalhes da experiência do Rene.

Perguntei e ele concordou em continuar essa conversa na área de comentários. Afinal, especialmente neste caso, o meio é a mensagem ;-)

Versão integral da entrevista com Rene de Paula

Conte um pouco sobre você.

Minhas raízes são aéreas, sou a primeira geração paulistana nascido de pais vindos de longe, de São José do Rio Preto, avós de Ribeirão, Jaboticabal, Campinas, Trás-os-Montes... Meu berço é o centro velho da cidade. Sou de 64.

Minhas memórias de menino ainda são vívidas. O que havia debaixo daquelas tampas de bueiro de onde saía um bafo quente e forte? O que havia por trás das portas de ferro? Aonde levavam os botões do elevador que eu não entendia? Por que os faróis dos carros continuavam acesos quando acabava a luz? E houve o choque de descobrir que por baixo do asfalto havia terra.

O que voce quis ser quando crescer e como isso foi se transformando até voce chegar à internet?

Eu não tinha problema algum com disciplina alguma e devo ter ido para exatas porque era "mais difícil". Quando dei por mim já estava perdido na Poli, a Faculdade de Engenharia da USP. Era 1983.

Passaram-se cinco anos e eu não tinha a menor esperança de felicidade. Deixei a Poli para trás sem me formar e fui fazer Rádio e TV na ECA. E, na família, ganhei um título honoris causa de ovelha negra.

Durante a ECA comecei a estagiar em produtoras de vídeo, fui parar no SBT e por fim virei produtor de programas da HBO Brasil. Falando assim parece um final feliz, mas no final eu estava é com fome de recomeço.

Era 96, e uns colegas de ECA estavam começando a Hipermídia, uma das primeiras agências de internet (seja lá o que isso fosse naquela época) em São Paulo.

Joguei minha carreira na HBO pra cima e fui pra Hipermídia sem ter a menor noção do que era trabalhar com internet.

Você praticamente misturou duas formações para criar uma profissão nova. Já pensou sobre esse assunto?

Na ECA ninguém faz contas, todos os professores se formaram numa época em que assunto sério era política, economia, cultura.

Quando eu abandonei a Poli, achei que nunca mais iria precisar da minha formação engenheirística. Bem... precisei. Não das leis da termodinâmica nem dos tipos diferentes de rolamentos e mancais, mas sim de algo mais sutil: a facilidade de modelar problemas, a intuição meio mecanicista de saber se algo "funciona" ou não, mesmo que seja um business plan. Sem falar na maior facilidade com códigos, protocolos e tecnologias em geral.

Quando comecei na Hipermídia, não havia formação pra web aqui em Sampa, e tive que aprender o pouco que aprendi na unha, online, com amigos, colegas e tal.

Com o tempo fui assumindo um perfil meio singular, algo meio raro: alguém capaz de fazer com que áreas diversas e antípodas conversassem e colaborassem e produzissem, alguém capaz de falar a língua da casa grande e da senzala, alguém confortável na sala de estar e também na cozinha. Em muitos casos era isso que faltava: um integrador, um homem-middleware, um catalisador de reações colaborativas. Coisa de libriano, acho.

O que te levou à Hipermídia?

Tudo começou assim: estava eu na HBO numa situação singular, por um lado feliz por estar no céu televisivo mas infeliz por estar num limbo existencial.

Assim que internet começou a ser oferecida a pobres mortais, eu assinei e vidrei. Foi nesse mix de emoções que reencontrei velhos colegas da ECA, os fundadores da Hipermídia.

Eu tinha entrado de férias na tv e resolvi passar os dias peruando no escritório deles, que ficava numa casa/loft maravilhosa na Vila Madalena, com um salão e mezanino que o sol da tarde inundava com luz dourada em dias memoráveis.

Me encantei tanto que falei para a [sócia] Sandra Chemin: vou pedir demissão da HBO pra trabalhar aqui, e você só precisa me pagar a hora em que eu souber fazer algo que o valha. Ela topou.

Foi uma época tumultuada na Hipermídia e em pouco tempo já tinha trabalho de verdade.

Descreve um pouco da sua rotina de trabalho nesses primeiros anos de internet?

Como se começa num emprego novo num métier que não existe? Foi assim que comecei na Hipermídia, sem saber nada numa época em que ninguém sabia muita coisa.

Claro que o pessoal ali já dominava técnicas avançadíssimas (fazer um gif animado, por exemplo, algo esotérico) ou checar se todos os links de um site estático estavam ok usando PageMill e, algo sobrenatural, mandar os arquivos pra algo chamado servidor usando... Fetch. Tempos heróicos. E eu tinha como technical skills, boa vontade e vontade de aprender.

Seis meses depois, mal tinha começado a engatinhar nas ferramentas básicas (Photoshop, HTML, etc), surgiu uma oportunidade na Almap.

Você foi contratado para fazer o que lá?

O job description era detalhadíssimo, tipo... toca o site aí :)

Durante um bom tempo eu levei o site sozinho: conteúdo, programação, divulgação, meios-de-campo, etc. Meio webmaster, meio webslave, conectando por um modem de 14400 pela linha do meu ramal. E na agência toda tinha mais uns dois ou três modems e nada mais.

Experimentei um monte de tecnologias novas, fui um dos primeiros por aqui a publicar entrevistas em áudio usando Real e Java, fui criando um cadastro dos visitantes, abria espaço para perguntas, fazia chats, making-offs, comecei a publicar comerciais em vídeo...

Aquilo foi meu laboratório de Dexter por dois memoráveis anos.

Posso estar equivocado, mas o início da internet tupiniquim está muito associado às agências de publicidade mais pioneiras, como DPTO, Almap, DM9, McCann, Rapp Collins, FNazca... Ali estavam Fernand Alphen, Bob Gebara, PJ, Pedro Mozart, Marcelo Sant'iago, Caio Barra Costa, Ricardo Anderaos, Jampa...

Quais desafios te moveram na Almap?

O primeiro foi cativar a própria agência, estimulá-los a colaborar e criar junto. O segundo foi criar uma rotina semanal de fazer making offs, chats, entrevistas, updates, etc. O terceiro foi começar a criar uma comunidade em torno do site (trabalho que nos trouxe um grand prix do Prêmio ABOUT, o primeiro dado a um site de internet). O quarto foi mais difícil ainda: responder à pergunta pá-pum do [Marcelo] Serpa, "como fazer dinheiro com isso?". O quinto foi iniciar um núcleo interativo dentro da agência...

Como a sua carreira evoluiu a partir daí?

Saí da Almap, me associei ao Luigi Telles na gloriosa Usina, fase épica que durou 3 meses. A Wunderman nos contratou, nos poupando de uma prova pública da nossa completa falta de tino comercial. Na Wunderman o cenário já era outro: nossa missão era criar aqui a versão brazuca da Brand Dialogue, o braço interativo da agência lá fora.

Se a Almap foi minha chance de experimentar, a Wunderman foi minha chance de aprender. Os conceitos todos de marketing de relacionamento, mensuração, fidelização, segmentação etc, deram esqueleto, carne e roupagem ao que até então era intuição pura.

Na Wunderman, internet tinha que se encaixar num contexto maior, tinha que fazer sentido, e nosso papel era "desenhar" isso, algo que na Click acabou sendo chamado de Arquitetura de Presença. A época foi formidável: internet crescendo exponencialmente, dinheiro aparecendo em penca, clientes como IBM, Citibank, Ford...

No auge da bolha segui o canto da sereia e troquei a Wunderman por uma pontocom cheia de promessas. Saí de lá a tempo de escapar do naufrágio. Próxima parada: AgênciaClick, na época e ainda hoje, a Gisele Bündchen do mercado.

Na Click assumi outro papel: tocar projetos mais cabeludos. Equipes enormes, gente brilhante, projetos grandiosos: a loja da C&A, o portal RBS...

E veio a bolha.

Fui para a Sony, servi de ponte e farol num projeto regional de e-commerce e CRM. No Yahoo! liderei como pude uma equipe responsável por 40 ou 50 produtos. No Banco Real liderei uma equipe responsável por uma área de comunidades.

Em cada ocasião o mesmo desafio: mapear território inexplorado, entender os interesses de cada um, transformar peças soltas numa máquina que funcione.

O que voce responde quando alguém te pergunta o que voce faz?

É engraçada essa história de falar sobre o que eu faço. Fácil não é, claro, mas difícil mesmo deve ser para os meus pais contarem pros amigos o que raios quer dizer alguém estudar Rádio e TV (ele conserta televisão?), trabalhar com internet (pagam pra ele navegar, é isso?) ou ser evangelista (ele virou padre?). Em suma: eles sofrem mais do que eu.

Hoje quando me perguntam o que faço eu explico: trabalho na Microsoft e meu papel é criar parcerias com quem faz web (agências, produtoras, designers, developers, deVigners...), divulgando nossa visão e nossas tecnologias. Acho que é um bom elevator pitch.

A essência do trabalho eu não sei que nome tem. Eu sei que tem a ver com fazer acontecer, com ser capaz de fazer com que pessoas e áreas e disciplinas conversem entre si e façam algo acontecer.

Como voce chega a empregos novos ou como eles chegam a voce?

Sou algo meio parteiro de projetos. Falando assim parece fácil, mas vá você vender esse peixe. Não é mole. A necessidade existe, o mercado precisa mais do que nunca de gente que converse, que crie pontes, que supere abismos. Mas essa posição transversal não cabe em organogramas.

Felizmente as relações que crio e criei foram todas proveitosas e fecundas, e disso deriva um networking amplo do qual eu cuido com zelo e carinho.

Mas não tenho idéia do que o futuro nos reserva. Como disse um pesquisador gringo que eu entrevistei, "esse front não tem trégua". Cada dia uma certeza dá de cara com provas em contrário, e dá-lhe repensar e entender e mapear e agir.

De onde veio a inspiração para criar o radinho?

Eu fiz parte de uma lista histórica, a panela, que congregou por um bom tempo os primeiros nomes em internet por aqui. O perfil da era mais publicitário, nem tanto por formação individual mas pela posição de cada um.

Na época éramos todos pioneiros solitários esperneando para ganhar espaço no seu próprio entorno, e era genial se sentir parte de algo maior e mais vibrante. [Aqui, um registro das trocas de mensagem.]

Na panela só se entrava sob convite, e havia direito de veto a novos membros. Ter sido aceito ali foi uma honra pra mim, um absoluto alien no mundo da propaganda, um novato completo.

A panela teve seus dias de glória mas, na minha humilde opinião, não resistiu à glória dos seus membros. Em pouco tempo egos começaram a conflitar, a agenda de cada um ficou mais obscura e a colaboração foi por água abaixo.

Eu contribuía muito, postava sem parar (como posto até hoje) e num dado momento, numa querela qualquer, desisti da panela... mas não do tesão por contribuir.

Em 2001 criei uma lista na Topica, chamei de radinho de pilha e convidei alguns amigos (uma dúzia, acho) a participar. A idéia original era, juro, simplesmente ter pra quem mandar o que eu descobria todo dia. O fiasco da panela me intrigava, então resolvi seguir o caminho oposto: nada de veto, nada de convite, nada de exclusão. O radinho teria entrada franca.

Qual é o recorte temático da lista?

Tecnologia, internet e publicidade sempre foram "on-topic" espontaneamente. Com o tempo fomos criando uma sensibilidade intuitiva para avisar aos assinantes quando se fosse falar de outros temas. Passamos a fazer isso colocando no assunto da mensagem a indicação de "off-topic".

Para evitar auto-promoção descarada e marketing de guerrilha, passamos a recomendar o uso do tag "jabá" no subject. Uma precaução ou outra para complementar o que o bom-senso deveria garantir.

Desde sempre, considerei como tabu temas como futebol, política e religião. Não levam a lugar nenhum.

A que voce atribui a vitalidade do radinho?

Modéstia à parte, a história do radinho me parece impensável se não fosse pela minha dedicação contínua e quase insana. Há anos a média de mensagens beira 100 por dia, e eu leio todas. Grande parte delas, aliás, são minhas. Eu participo da hora que acordo (seis) à hora em que me deito (onze e tanto).

Férias? Nunca. Tréguas? Nunca. 24/7. Apenas por uma fé teimosa em algo mágico, a colaboração.

Como a comunidade que habita o radinho vem evoluindo desde 2001?

No começo, éramos todos amigos ou colegas ou pelo menos do mesmo contexto, tudo era lindo. Difícil foi quando participar de comunidades virou arroz-com-feijão. Levas e levas de novos radianos com os perfis mais diversos, com os repertórios mais disparatados, com maturidades variando do sênior a pré-júnior.

Primeiro surgiram os filhotes de wikipedia, gente que sabia de tudo... via browser. Na seqüência apareceram os apoteóticos da web 2.0, blogueiros e apóstolos da colaboração redentora. Depois vieram os xiitas, a turma radical do software livre e similares. Pra piorar surgiu o marketing de guerrilha e a tal da "social media".

Muitos dos novos participantes eram gente jovem, estudantes, iniciantes, desempregados, etc, com mais tempo livre do que os outros e mais disposição para encarar aquele espaço como um chat contínuo. Resultado: muita gente senior, com coisas para compartilhar, passou a se retrair, a não se expor tanto diante de gente com pedras na mão, gente sem experiência nem responsabilidade.

Existe um percentual da lista que participa pelo menos uma vez por semana?

Curiosamente, mesmo que o número de radianos tenha passado de 150 pra 1300, o número médio de mensagens/mês continua beirando os mesmos 3000. Interessante, não?

Isso me leva a pensar que:

1) pessoas só conseguem interagir com um número X de mensagens/dia; se passar disso não faz diferença.

2) as pessoas que efetivamente interagem não são uma fração Y do total, mas sim o que é possível caber no "palco" dessa "cena" social; acho que não somos capazes de assimilar uma história com mais de N protagonistas.

Mesmo assim, nunca sei se vou ter o que precisa para gerenciar 1300 cabeças e corações. Basta duas horas sem checar a lista e já me deparo com um incêndio iminente. Não há trégua.

E como a sua função mudou para se adaptar ao crescimento e à diversidade de participantes?

Depois que a lista foi criada, não demorou muito para eu perceber que o radinho não era mais "meu", ou ao menos não era mais "a cara do pai". Então resolvi ser menos gerador de pautas e passar a ter um papel mais moderador mesmo, intervindo só quando necessário. Um papel reativo e protetor.

Começou a se configurar uma hegemonia de opinião muito excludente, intolerante e, o que é pior, massiva. O que fazer?

Criei um princípio: não importa o que é colocado, mas como é colocado. Pluralidade de opiniões sim, mas urbanidade sempre. Há maneiras e maneiras de se expressar, mas algumas maneiras matam conversas e outras fazem com que a conversa prossiga, se enriqueça e abra novos horizontes. Como, e não o quê passou a ser o crivo.

Com isso em mente decidi intervir de maneira mais kamikazi. Desencanei da pretensão de ser popular ou estar entre iguais: comecei a intervir mais duramente contra um ou outro gerador de cisânias, a me indispor contra gente autoritária ou leviana, a questionar em público atitudes imaturas, e tal.

Esse pearl harbour radiano chamuscou minha imagem, chocou alguns fãs, escorreguei feio e em público algumas vezes. Mas ao menos reverteu a notória decadência do radinho nesses tempos de invasões bárbaras.

Eu olho para o palco hoje e vejo uma pluralidade gigante de perfis conversando sem tensões maiores.

Você já pensou em desistir da lista?

Sim, duas vezes. Pela mesma razão, aliás: me deparar com comportamentos tão desconcertantemente destruidores e sórdidos que me fizeram questionar se valia a pena apostar em pessoas. Nos dois casos anunciei pra lista que iria fechar o boteco e inventar outra história, mas a reação foi tão emocionante e vívida que repensei e voltei atrás.

Como voce lida com o overload informativo?

Eu acordo cedo, durmo pouco e costumo usar bem meus tempos mortos (trânsito, filas, reuniões chatas, etc) para checar emails via celular ou ouvir podcasts (TWIT, BOL, Cranky Geeks, In Our Time da BBC4...) ou gravar meus próprios podcasts ou blogar sobre aquilo que encontro e descubro e invento. É uma das vantagens de não se gostar de futebol, cerveja ou games: sobra mais tempo :).

Você tem vontade de voltar a estudar? O que?

Sinto falta de me aprofundar em algo. Só não sei o quê. A academia (tanto a Academia quanto as de ginástica) me dão calafrios, e tampouco tenho o perfil pra fazer um MBA qualquer. Faz anos que me pergunto o que eu deveria fazer... Hoje penso em algo que envolva comunicação convergente, ou algo que misture tecnologia, comunicação, urbanismo, antropologia e que seja divertido. Algo me diz que vai demorar mais alguns anos pra achar :)

De qualquer maneira, me sinto realizado produzindo conteúdo, projetos, idéias, iniciativas... e isso há de entreter algum acadêmico um dia.

Nem toda empresa está preparada para blogar; entrevista com Thiane Loureiro

Em 2007 aconteceu o primeiro BlogCamp e um dos assuntos das conversas de corredor era a febre de interesse sobre como se ganhar dinheiro blogando. Como medir resultados, atrair tráfego, usar o Page Rank, fazer marketing viral - isso monopolizou a atenção da maioria dos participantes. Na mesma época em que o sentimento de hostilidade e desconfiança entre blogueiros e jornalistas se tornou público, alguns blogueiros contraditoriamente acusavam os jornalistas de serem profissionais vendidos ao mesmo tempo em que se esforçavam para vender seus serviços.

Tive vontade de entrevistar a Thiane ao descobrir que compartilhávamos a impressão de que o blog estava sendo promovido a partir de motivações emocionais e eventualmente confusas, mais do que pensando nas vantagens e também nas dificuldades que aparecem pela adoção dessa ferramenta no ambiente corporativo.

Por dentro da Reactable: entrevista com o engenheiro e o músico da equipe

Primeiro os instrumentos musicais exigiam perícia física, coordenação. Com os computadores, fazer música passou a depender de teclado, mouse e programas de mixagem e remixagem. O Reactable alia esses dois lados: explora o lado conceitual do fazer música - entender o que está fazendo é mais importante do que dominar o aspecto psico-motor - mas traz isso para um ambiente físico, onde objetos são manuseados. (Outros textos sobre o assunto aqui.)

Assistir a performance com o Reactable foi a experiência tecnológica mais impactante que eu vivi em muitos anos. Este vídeo completa o anterior - linkado acima, gravado com a Reactable sendo operada. Agora, os dois representantes do projeto explicam de onde surgiu a idéia, falam sobre a aparente simplicidade de operá-lo, sobre o uso de software livre e o por quê deles não liberarem o programa simulador, que facilitaria demais a utilização e a experimentação com o conceito da Reactable.



Por dentro da Reactable from juliano spyer on Vimeo.

Tiago Dória compartilha suas experiências como jornalista e blogueiro

Blogueiros e jornalistas vêm se estranhando aqui e pelo mundo. O assunto me interessa. De que maneira ser jornalista facilita ou dificulta que a pessoa se aproprie das novas oportunidades de comunicação em rede? Tiago Dória, jornalista e blogueiro, tem experiência para compartilhar nesse campo.

Blocos temáticos

Junto com o jornalismo, o Tiago fez dois anos do curso de Sistemas de Informação na Fatec. Qual é a relação entre essas duas profissões e em que medida o jornalista pode ampliar sua área de atuação ao se posicionar como um especialista em informação? Esses são os assuntos da primeira parte da entrevista.

Qual a primeira vez que o Tiago ouviu falr em blog e quanto tempo depois ele começou a blogar? Em que medida seu blog evoluiu e o que permance do início da experiência como blogueiro? Em que medida manter um blog é diferente de escrever para um jornal? Tratamos disso na segunda parte da conversa.

Como ele se relaciona com as pessoas que acompanham o blog, quais as fontes de informação, como ele lida com o overload informativo - ou seja, como ele regula e processa a quantidade de informação que chega? Na terceira parte falamos da rotina e da prática de blogar.

E fechamos a entrevista fazendo um balanço sobre a evolução do blog dele. Como a informação estatística não é medida de sucesso para ele, sobre a "mania" recente de se ganhar dinheiro blogando, e sobre os blogueiros que ele admira no Brasil.

Entrevista Tiago Dória - parte 4

Blocos temáticos: apresentação, parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4.

A que voce atribui do seu blog ter se tornado uma referência no Brasil?

Acredito que tenha sido graças a minha dedição de atualizá-lo todos os dias com informações revelantes. O fato de gostar muito do que faço também pesa bastante. E, de certa forma, a gente transmite isso para o leitor e o trabalho final fica bem feito e atraente.

Como você mede o sucesso do seu blog? Você acompanha resultados estatísticos?

O meu blog tem uma audiência maior que algumas seções de tecnologia de alguns sites de notícias. A priori não me preocupo tanto com os números. Acredito que essa questão do blog ser uma ponte para conhecer pessoas interessantes, receber outros convites portais, ter comentários que acrescentam informações ao post, ser citado em veículos de mídia importantes e outros blogs é mais revelante. Eu mensuro por aí o sucesso do blog.

Como aconteceu o processo de crescimento que o seu blog teve nos últimos anos?

O blog sempre está em um crescimento saudável. Começou em 2003, quase como um agregador dos links que achava interessantes na web. Rapidamente começou a ser citado nos principais jornais do país, como Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo.

Em 2005, enquanto os blogs ainda estavam se profissionalizando no Brasil, recebi um convite para fazer parte do portal iG. Passei a receber para editar o conteúdo do blog. Nos anos seguintes, o blog recebeu diversos convites para ir a outros lugares, mas continuou no iG.

Atualmente, o blog é citado em importantes veículos de comunicação, inclusive fora do país.

No ano passado, o blog ganhou projeção internacional ao ser convidado para ser "bridge-blog" oficial da da Pop!Tech, uma das principais conferências sobre ciência e tecnologia do mundo. Fora isso, os convites que recebo para dar palestras devido ao conteúdo do blog.

Você é uma referencia entre blogueiros porque conseguiu se tornar um profissional que vive de blogar e disfruta das vantagens de estabelecer as suas pautas e trabalhar de casa. Mas você tem criticado a "mania" atual de se querer ganhar dinheiro blogando. Queria que você explicasse a sua perspectiva.

Acho ruim uma pessoa começar qualquer coisa apenas pelo dinheiro. No início de carreira você deve pensar mais em aprender e fazer o que gosta.

Antes e acima de tudo, acho que você deve fazer algo para se divertir. Fazer os dois andarem juntos é melhor ainda - ganhar dinheiro e fazer o que gosta.

Até por que, profissionalmente, pensar dessa forma é uma postura saudável, pois se o seu trabalho é uma diversão, uma coisa prazeirosa, em que você se sente bem, fica mais fácil passar por diversas adversidades da vida profissional.

Se o seu trabalho é cansativo e você não vê a hora de terminar, é sinal de que escolheu a profissão errada ou está no emprego ou na área errada.

Eu mesmo blogo e não sinto que estou trabalhando, no sentido de ser uma coisa chata e que você não vê a hora de acabar. Em resumo - não que a pessoa não deva pensar em ganhar dinheiro, pelo contrário, mas o pontapé inicial deve ser procurar fazer o que mais gosta e se profissionalizar com isso.

Para terminar, uma pergunta para você responder de maneira pessoal e subjetiva: quem são os principais blogeiros em atividade no Brasil hoje?

Acredito que existem três blogueiros que estão se destacando em seus nichos.

Um é o Gustavo Mini, que traz algumas análises muito boas sobre comunicação em seu blog Conector. O Fabio Bracht, que vem mandando muito bem em seu blog de games, o Continue. E, claro, o Wagner Fontoura, do blog Boombust, que vem promovendo atividades bem interessantes entre blogs no Brasil, como o "esquenta para o BlogCamp 2007", que reuniu online diversos blogueiros para discutir assuntos importantes, como credibilidade e publicidade em blogs.

Entrevista Tiago Dória - parte 3

Blocos temáticos: apresentação, parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4.

Você conhece o público do seu blog? Qual é o perfil dele?

Como o meu blog está em um portal, o público deste acaba sendo o meu também - 65% do sexo masculino, faixa etária entre 17 e 34 anos. Em sua maioria, estudantes e profissionais da área de TI e mídia - jornalistas e publicitários.

Como você se relaciona com essas pessoas e de que forma elas contribuem para o seu trabalho?

Os leitores participam sempre, comentando e enviando sugestões de assuntos por email. Alguns com mais assiduidade, quase todo dia, outros somente de vez em quando.

Com o tempo, alguns leitores acabaram se tornando amigos e outros acabei trabalhando junto em projetos paralelos.

Quais são as suas principais fontes de informação?

A minha navegação é muito incerta. Busco não visitar sempre os mesmos sites. Mas uso muito o Technorati para buscar assuntos. E sempre faço uma ronda diária em 5 jornais básicos - Financial Times, ElPais, The Guardian, NYT, WSJ - e na página da Reuters em inglês. Na parte de blogs, estou sempre de olho no LostRemote e no agregador IWantMedia.

Como voce lida com o overload informativo? Você acha que a informação pode criar dependência?

Passo, mais ou menos, 8 horas conectado. Nos finais de semana, fico menos tempo online e acesso a web pelo celular.

Acredito que RSS e afins se mostram falhos para lidar com o overload informativo. Para você administrar o excesso de informação, a melhor coisa é dominar certos conceitos.

Acho que essa dependência de informação surge da falta de visão histórica sobre algumas notícias e muito da insegurança de estar mal informado.

Mas a partir do momento que você busca dominar conceitos a respeito de uma área, esse "overload informativo" não tem mais necessidade. Você começa a ver que muitas notícias são mais do mesmo. São uma "repetição" de fatos antigos. Não existe a necessidade de você acompanhá-las tão de perto. Basta pegar a idéia geral do que está acontecendo.

Por exemplo, em relação a tantas notícias sobre a suposta compra da Yahoo! pela Microsoft, você vai ver que muita coisa ali era mais do mesmo.

Entrevista Tiago Dória - parte 2

Blocos temáticos: apresentação, parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4.

Qual foi a primeira vez que você se lembra de ter ouvido a palavra blog? Quanto tempo demorou para você passar de leitor para blogueiro?

Ouvi a palavra ainda enquanto cursava a faculdade. Não lembro se em algum artigo na rede. Comecei a ler blogs em 2001, mais ou menos. Eram blogs sobre tecnologia e cultura pop em sua maioria. Dave Winer, Lost Remote e o Nemo Nox

Virei blogueiro em 2003. Montei o blog para desafogar a caixa de emails dos meus amigos, pois sempre mandava várias mensagens ao dia com coisas legais que havia encontrado na web. Para mim, o blog surgiu como uma ferramenta para registrar minha navegação na web. De certa forma, até hoje ele continua nessa dinâmica.

Por que voce escolheu fazer um blog com o seu nome e não criar um nome próprio para ele?

Eu criei o blog em 2003 e na época era comum existirem blogs com o nome próprio do fundador. Além disso, no início a idéia do blog era ser um apanhado das coisas interessantes que encontrava na web, portanto não fazia muito sentido ter um nome próprio. Se fosse começar do zero, talvez eu o batizasse com um outro nome, mas hoje em dia isso não faz sentido.

Em termos de temática e abordagem, o que mudou e o que continua o mesmo no seu blog desde que ele foi lançado?

No começo o blog era um apanhado de links interessantes que encontrava em minha navegação diária na rede. Era quase um del.icio.us. Com o tempo, comecei a rechear esses posts com opinião e mais informações.

Desde 2003, a temática do blog continua a mesma - cultura web e mídia. A partir de 2006, comecei até a fazer entrevistas via blog.

Hoje percebo que ele tem uma dinâmica mais próxima de uma coluna diária. O que acho bem interessante. Como não existe um controle editorial, o blog acaba adquirindo vários 'moldes' ao longo do tempo. É algo orgânico, não estanque.

Acredito que essa mudança ocorreu por que alguns leitores começaram a pedir que eu opinasse sobre alguns assuntos, além disso, passei a receber para editar o blog, o que garantiu que eu tivesse mais tempo para atualizá-lo.

Conte algumas descobertas bem pessoais em relação ao ofício do blogueiro, especialmente em relação ao ofício do comunicador de massas tradicional.

Acredito que a principal coisa que aprendi com o blog é que agregar é tão importante quanto criar conteúdo original. É relevante você não somente produzir conteúdo, mas ser uma espécie de hub de coisas interessantes que estão acontecendo por aí. Uma espécie de DJ de conteúdo. Isso de feedback, interatividade, participação dos usuários não me impactou tanto, pois quando trabalhei com outras mídias já havia convivido com estes aspectos, mesmo que em menor escala.

Mas a característica mais interessante do blog é a sua capacidade de ser uma ótima ferramenta de networking, de aproximar pessoas que tenham, mais ou menos, as mesmas afinidades. Por meio do blog, conheci muitas pessoas interessantes.

Qual é a diferença entre o material que voce faz e publica no blog e o que um jornalista de tecnologia publica em um veículo tradicional?

Acredito que o principal diferencial seja a participação do leitor, que é mais direta. O blog é constantemente pautado pelo que as sugestões que as pessoas enviam por email. Outro aspecto, mais aí é mais da web em si do que do blog, é o uso dos hyperlinks e a questão de trabalhar com a atemporalidade da informação, da notícia que nunca fica velha.

Por exemplo - às vezes, se um post antigo começa a ter acessos no arquivo, eu retomo o assunto tratado nele, mesmo que seja uma "notícia antiga" para um veículo tradicional.

Apesar disso, acredito que atualmente o diferencial entre os blogs e os veículos tradicionais não seja tanto o conteúdo, mas a formatação do mesmo.

Entrevista com Tiago Dória - parte 1

Blocos temáticos: apresentação, parte 1, parte 2, parte 3 e parte 4.

Como começou o seu envolvimento com a tecnologia?

Durante a infância e adolescência, eu tive mais aquela cultura do vídeo-game. Tive Atari, Master System, Mega Drive e por aí vai. Então foi um passo para começar a gostar de computadores desktop.

Conte um pouco da sua trajetória profissional. Por que você escolheu estudar jornalismo?

Sempre gostei de estar em contato com pessoas de diversas àreas e nunca me vi trabalhando em um emprego com horas fixas. Sempre gostei de ler - até mais do que escrever. Na verdade, fiquei na dúvida entre Sistemas de Informação na Fatec e Jornalismo. Por já ter alguns conhecidos na área, deixei a Fatec de lado e optei pelo Jornalismo. Isso foi em 1998.

O que você aproveitou do curso de jornalismo?

Fiz jornalismo na Católica de Santos. Não me decepcionei tanto com a faculdade porque eu tinha uma noção do que encontraria pela frente... A realidade do mercado de trabalho no Brasil ainda exige a formação em jornalismo. É bem diferente dos EUA ou da Coréia do Sul. O curso abriu portas para eu trabalhar na área e fiz isso desde o primeiro ano, deixando com que a faculdade funcionasse mais como um complemento.

No final das contas, depois de formado em Comunicação Social, acabei fazendo a Fatec, mas tive que trancar o curso no ano passado.

Fale um pouco mais sobre o curso na Fatec?

O curso na FATEC é de Sistemas de Informação, mas na época foi batizado de Gestão de Negócios em Informática. Basicamente ele mistura administração com programação de dados. É formado por muitas matérias interessantes que ajudaram na minha formação - História da tecnologia, Administração de banco de dados, Análise e Projetos de Sistemas e Comunicação empresarial [na visão do empresário e não do jornalista].

Qual a relação entre esse curso e o jornalismo?

Ambos trabalham com administração de informações. A forma de um jornalista e um administrator de banco de dados pensar é muito parecida. Ambos trabalham com hierarquização, classificação e otimização de informações.

Acredito até que a tendência é o jornalista se ver cada vez mais como um especialista em informação. Ele não faz jornal, programa de rádio, nem edita e atualiza site. Ele trabalha com informação e dados. Não importa o formato - blog, jornal, televisão ou podcast.

Ou seja, a pessoa tem que se colocar como um profissional capacitado para trabalhar com informação, desde um conteúdo noticioso até a administração do banco de dados de uma empresa.

Qual dos dois te ajudou mais profissionalmente?

Apesar dos dois cursos tratarem, em essência, sobre "adminstração de informação", a impressão que fiquei é que aprendi mais em 2 anos de Fatec do que em 4 anos de Jornalismo. Além da parte de administração de projetos [que gosto bastante], no caso, questões, como gerenciamento e hierarquização de informações e dados, são tratadas com mais profundidade na Fatec.

Além de gerir fluxos de dados, o comunicador também está filtrando e selecionando esse conteúdo. Você não acha que para fazer isso de maneira criteriosa ele precisa conhecer sociologia, economia, história?

Na Fatec, o 1º ano conta com aulas de Economia, Filosofia e Psicologia. Acabei pulando algumas, pois já tinha feito na época da de jornalismo.

A entrevista dada não se olham as respostas: dois casos

Acho que entrevista é que nem namoro, tem que ter conversa antes do beijo. Mas por conta da pressa em gerar conteúdo, os questionários chegam com perguntas mais ou menos parecidas e que independem uma da outra. (Escrevi sobre isso aqui, por exemplo.) O entrevistador não é gente, não tem curiosidade, não quer saber, ele precisa produzir, ocupar o espaço.

Enfim, não quero parecer mal-agradecido ou chato. É o mercado quem dita as regras e certamente se a demanda fosse diferente, haveria mais cuidado na produção de conteúdo. Mas apesar da entrevista a seguir ter vindo dessa forma, apressada, sem conversa, aproveitei para apimentar um pouco as respostas. Curtas e provocativas.

Na sequencia, pus outra entrevista relacionada ao Campus Party. Essa começou com conversa, mas eu estava há dois dias sem dormir direito, tão sem paciência e mal-humorado que a entrevistadora não me deu muita corda. Depois escrevi para me desculpar e ela aproveitou para refazer as perguntas por email. O foco é negócios, especificamente a aplicação da comunicação grupal online para empresas.

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