por acaso acabei ficando até mais tarde ontem na campus party. estava esperando carona e cansadíssimo.
estava trabalhando numa tradução quando olho para trás - eu estava virado para a parede - e vejo uma ola feita com cadeiras ao ar.
pena mesmo eu ter estado cansado, queria ter investigado melhor. perguntei ao @renatotarga, que estava observando aquilo sem expressão de surpresa - acho que poucas coisas merecem o olhar surpreendido do renato - e ele disse:
- é algum tipo de flashmob...

suspeitei que pudesse se tratar de um efeito colateral do consumo massivo de red bull, que aqui, é como água. e isso parece que foi ao menos um dos motivos da manifestação. digo isso porque em um momento, ouvi um grupo, durante a performance, entoar o refrão:
- mais red-bull, mais red-bull...
no sentido mais perverso, vi na ação uma especie de manifestação grupal do personagem Beavis, quando comia açucar demais incorporava um ser ao mesmo tempo visionário e esdruxulo chamado Great Cornholio, mistura de Allen Guinsberg e xamã, possuído e alucinado.
no sentido otimista, vi pessoas experimentando com as possibilidades da coordenação descentralizada. E mobilizadas, de certa forma, pela peraltice da criança que sabe que está sendo vista.
Ser visto era parte do motivo da mobilização. Aqui na Campus Party, provavelmente a maior concentração percapta de equipamentos de registro do Brasil neste momento, é só fazer alguma coisa inusual que as câmeras, como periscópios manuais, aparecem por todos os lados, supostamente motivadas pelo desejo de registrar o que ninguém tem. (O que, em si, é contraditório na medida em que praticamente não existe privacidade e quase todos têm câmeras.)
tinha uma coisa divertida nesse acontecimento. parecia uma dança ritual e também uma performance. ritual no sentido de que era movimento e canto, ritmo e som. performance porque ia acontecendo, aparentemente sem coordenação.
de repente, era correr com cadeiras ao ar. em seguida, percutir batendo as cadeiras no chão. um determinado canto-chamado logo dava lugar a outro. e tudo isso, eu especulo, acontecia por algum motivo meritocrático, eventualmente por o sujeito que faz a proposta ser visto como líder, eventualmente por a variação proposta ser original e interessante.
a questão é que esse "flash-bull" tinha ou pareceu ter um senso de organização emergente, onde o indivíduo abre mão de sua individualidade (e talvez de seu senso crítico, no bom e no mau sentido), e se torna parte do coletivo, reagindo aos estímulos do grupo ao mesmo tempo em que suas presenças também influenciavam ou podiam influenciar o curso da ação.
enfim, estou curioso para saber mais detalhes sobre o que aconteceu. se alguém tiver inside-information ou tiver participado, por favor, registre a sua percepção/vivência na área de comentários. queria saber como isso começou, se o Twitter teve influencia nisso, etc.
o que eu sinto é que existe um desejo latente e coletivo de estabelecimento dessa ordem grupal. parece que estamos flertando com a idéia de corpo coletivo emergente dessa possibilidade de comunicação instantânea, tanto pela Web como ao vivo por estarmos no mesmo espaço, e também por outros estímulos sociais e químicos.
todo mundo quer tocar o nervo que fará o corpo social tremer, quer levar o viral para outro nível, físico e imediato, corpóreo. e pensando nisso, hoje de manhã, me ocorreu a imagem dos arrastões nas praias, o indivíduo organizado mas sem organização central, o mob, o flock.
enfim, fiquei me perguntando como aquilo acabaria, porque eventualmente iria acabar, haja Red Bull. Deve ter acabado com a rotina, com a repetição e com o cansaço.
ps. desculpem a talvez falta de objetividade do relato, é pela pressa, principalmente.