conversação

Algarra sobre conversação e busca do bem-estar

Ontem publiquei um post registrando algumas percepções sobre a minha participação no NokiaCamp. O Algarra, que conduziu a conversação, fez um comentário aprofundando a questão que aproveito para compartilhar a seguir:

Interessante essa questão de que todo ser humano busca o bem-estar. Quando vemos um viciado em heroína, um terrorista-bomba ou um suicida convicto nossa primeira reação é pensar que talvez eles não estejam mantendo seu bem-estar, que são um ponto fora da curva.

Ocorre que o bem-estar de que falo tem a ver com a congruência de cada ser humano com o meio em que vive no exato momento de seu viver. Então o terrorista mantém uma explicação de si mesmo a partir de um domínio de conhecimento, de um conjunto de crenças e valores que confirma para ele que morrer explodindo pessoas é viver no bem-estar. O suicida busca alívio ou redenção ou "seja-lá-o que-for" no momento de sua decisão fatal, mantendo sua congruência com o meio no presente em que vive.

Então o bem-estar humano é algo contigencial ao momento presente em que vivemos porque só vivemos no momento presente, certo? Nosso passado e nosso futuro são apenas explicações que formulamos sobre nós mesmos, no momento presente.

Entretanto quando nos encontramos para uma conversação em um ambiente livre, sem exigências, sem pressões nem competições, onde a liberdade plena de expressão é favorecida pelas condições do meio, temos a oportunidade de perceber outras visões, diferentes da nossa, e então nossa visão pode se alterar um pouco, que seja um pouco, para que possamos nos manter em congruência com o meio em que naquele momento estamos.

Não é mágica, ver as pessoas conversarem livremente até construirem por si mesmas opiniões incrementalmente diferentes, mas parece mágica! Isto porque em nosso cotidiano vivemos conversações em espaços controlados quase o tempo todo.

Dizemos o que dizemos a partir do que é esperado que digamos, muitas e muitas vêzes durante o dia. E ouvimos geralmente apenas o que consideramos válido e possível, fora disso apenas escutamos, descartando o que não se harmoniza com nossas idéias!

Essa pobreza de diálogo se repete também nas escolas, nas igrejas e na mídia, e segue preservando costumes, instituições e grupos sociais, conservando a sociedade e sufocando os indivíduos. Isto aqui já estava desde que nasci, estabelecido pela continuidade das sociedades patriarcais/matriarcais que se mantém pela exigência e pela não-validação dos indivíduos.

O que podemos fazer quanto a isso? Bem, que tal apenas sentarmos diante de um café para conversar livremente sobre tudo isso, ou sobre o que mais quisermos a cada momento na conservação de nosso bem-estar?

As sutilezas das metodologias de conversação presencial - cada vez aprendo mais

Minha primeira vivência com o world café aconteceu no começo deste ano, na inauguração do Hub. A equipe Papagallis conduziu o encontro e fiquei impressionado por descobrir que existem metodologias para conversação e que uma empresa se formou para oferecer esse serviço.

Depois de experimentar o world café, fiquei com a impressão de que aquilo seria razoavelmente fácil de ser replicado. O próprio Algarra diz isso, que dentro do preço dele está incluído esse treinamento. Mas existem sutilezas nesse trabalho que não ficaram evidentes para mim logo de cara.

Há coisa de dois meses, como parte da campanha online do Kassab, convidamos a Papagallis para dinamizar o relacionamento entre os participantes da K25, a rede social do candidato. Nessa ocasião eu aprendi uma sutileza: na conversação, a pergunta proposta deve ser ampla para permitir que se construa conhecimento.

No caso citado, a pergunta que abriu a conversação foi: "o que você espera do próximo prefeito?" Não houve menção ao candidato e nem a nada que de alguma maneira conduzisse o pensamento dos participantes na direção de soluções prontas.

Recentemente eu relatei aqui que a Papagallis participou do 1o Nokia Social Media Connections, promovendo a conversação entre aproximadamente 30 blogueiros sendo que muitos nunca tinham se encontrado frente a frente.

Como a proposta de fazer o world café aconteceu dois dias antes do evento, houve a possibilidade de que eu conduziria a conversação por haver pouco tempo para contratar a Papagallis - inclusive porque o trabalho deles envolve um período de planejamento, especialmente para chegar às perguntas para ensejar a conversação.

Troquei idéia com o Algarra na quinta para falar do evento e para pedir sugestões sobre como promover a conversa. Nesse ponto, eu tinha registrado a experiência do evento com o Kassab de que as perguntas deveriam ser abertas o suficiente para permitir que a conversa se desenrole.

No evento da Nokia, a primeira questão, formulada junto com a empresa, era algo como: O que esperar da Web móvel? E, na sequência, partir para: O que falta ao celular hoje?

Acabou que o Algarra pôde ser contratado e fizemos uma sessão de brainstorming com os organizadores na véspera do evento. E tive a oportunidade de captar um pouco mais da sutileza da formulação das perguntas.

Apresentamos as perguntas para ele e escutamos que não eram as melhores opções. Pelo que eu registrei, o assunto Web móvel já conduzia a discussão para terrenos conhecidos, já existe discussão elaborada, é um tema que vem sendo pensado e que traz registros prontos.

Segundo eu me lembro - o Algarra pode me corrigir - essa pergunta conduziria a polaridades, a discussões requentadas e que dão margem a disputas de quem sabe mais. A pergunta, na conversação, deve se remeter a um território futuro, inexplorado, para dar condição aos participantes de construirem respostas desarmados, a partir de suas inteligências.

E mais do que isso: a pergunta deve incluir uma meta comum de todo ser humano - de todo ser vivo, até - que é a busca pelo bem-estar. Todos queremos viver melhor e a perspectiva de trazer melhoras à vida motiva a busca coletiva por alternativas.

Talvez isso pareça apenas um detalhe para você, mas o fato é que na condução da conversação, eu vivenciei trocas relevantes.

A minha postura é, naturalmente, de achar que o celular, assim como a tecnologia em geral, não melhora a vida, apenas acelera e torna mais interessante. E recebi de volta perspectivas que me fizeram pensar.

Uma idéia é a de que o telefone substitui - com vantagens - o cigarro como objeto de manuseio quando se está só em um bar, por exemplo. A pessoa se entretém mandando SMS.

Também se falou em como o celular ajuda a manter vínculos entre pessoas que se conheciam e se separaram, vivem em lugares diferentes. É uma maneira do mundo antigo, dos relacionamentos presenciais, seguir vivo graças à tecnologia.

E como essas, escutei várias outras.

Enfim, foi mais um aprendizado para o dia em que eu precisar conduzir uma conversação.

E pensando agora, acho que poderíamos, com mais tempo, ter chegado a perguntas ainda mais motivadoras de trocas. Por exemplo, observamos, durante o evento, que muitas pessoas ali se conheciam online, ou se acompanhavam pela Web. E a oportunidade de estar ali, colocando corpos no lugar de nomes e impressões vagas, fez os olhos de muitos dos presentes brilharem. Indo por aí, teríamos um caminho fértil de conversações para explorar - estimulando as trocas sobre o assunto online x presencial.

A idéia fica registrada para as próximas oportunidades.

Nokia promove reunião nacional de blogueiros e moderadores de comunidades (e participa da conversa!)

Participei no último sábado do primeiro encontro nacional de blogueiros.

Ninguém ouviu falar desse evento porque ele tinha outro nome, mas, na prática, suspeito que esta tenha sido a primeira ocasião em que blogueiros de todo o país estiveram juntos.

Não apenas blogueiros, como participantes de fóruns e de comunidades no Orkut.

O evento se chamou Nokia Social Media Connections. Também escutei a forma curta: NokiaCamp. (Veja o que ele está gerando de conversas pela rede.)

Ao invés de surfar o modismo 2.0 enviando releases de produtos para blogueiros, a Nokia quis ser anfitriã de uma conversa entre essas pessoas.

Os convidados foram recepcionados na recém inaugurada Nokia Store, na Oscar Freire. Mas o ponto alto do evento aconteceu no nosso conhecido Espaço Gafanhoto, ponto de encontro mais tradicional de quem pensa e faz ações em rede em Sampa.

Os amigos da Papagallis aplicaram a metodologia de world cafe para promover conversas entre os participantes. Durante uma hora, trocamos idéias sobre como a internet móvel pode melhorar a vida das pessoas.

No final, a metodologia do aquário (foto abaixo) fez com que os principais temas debatidos fossem compartilhados com todos os participantes.

evento nokia

O mais interessante para mim dessa atividade foi ter percebido que as noções sobre comunicação em rede estão sendo absorvidas pelas empresas.

Até agora, o comum era a empresa querer "adicionar um pouco de mídias sociais" em uma ação promocional, tratando a internet como mais um canal de disseminação.

No NokiaCamp, em nenhum momento a equipe da Nokia promoveu a marca ou seus produtos para os convidados. Ao contrário, eles participaram do evento ouvindo e falando, conhecendo e se relacionando.

E que presente esses blogueiros levaram para casa? "Apenas" a oportunidade de se conhecerem pessoalmente - muitos só se acompanhavam à distância - e de falarem sobre os assuntos que eles mais gostam, no caso, tecnologia.

As conversas que começaram ali, vão continuar se desdobrando espontaneamente pela rede e seguramente as ações da Nokia serão notadas com mais carinho por essa turma daqui para a frente.

Como estimular redes online usando dinâmicas presenciais de conversação - um caso recente

Esqueci de contar. Já faz mais de um mês que já não sou responsável pelo blog da campanha. Meu trabalho, neste momento, tem sido fazer monitoramento da internet e também apoiar as ações para dinamizar a rede K25.

Neste último final de semana realizamos, com a ajuda da inspirada equipe da Papagallis, uma ação com o objetivo de intensificar os relacionamentos dentro da K25.

Foi especial ver os repórteres intrigados com o evento. Como todas aquelas pessoas tinham deixado suas casas num sábado à tarde para se encontrarem com desconhecidos e falar do que elas esperam dos gestores da cidade?!

Do lado dos coordenadores da campanha também havia surpresa. Um deles ia de um ambiente a outro olhando para as mesas e comentava com quem estivesse por perto que ele não conhecia 10% dos presentes. Ou seja: sangue novo.

Mas para mim, a principal medida do sucesso foi observar o comportamento das pessoas quando o prefeito chegou. Ele passou cumprimentando cada mesa mas, ao invés de alvoroço, assim que ele passava, os participantes voltavam às suas discussões, concentradíssios.

Esse foi o gol.

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