Rádio colaborativa: quatro experiências em emissoras públicas

Desde que aparecemos com a proposta de fazer uma emissora de rádio com a participação da audiência, a equipe da Cultura AM tenta imaginar como isso funcionaria. Pesquisando sobre modelos para apresentar a eles, encontrei um artigo tão bacana que decidi investir algumas horas para traduzi-lo e distribuir para as pessoas envolvidas no Radar Cultura.

O artigo apresenta o caso do Open Source, um programa inicialmente transmitido pela NPR feito junto com a audiência com o intermédio de um blog. Quais os desafios de se lidar cotidianamente com uma audiência que quer participar, doar seu tempo e inteligência para melhorar um programa, mas não tem treinamento para isso? Como reage a equipe, que já tem uma rotina carregada de trabalho e resiste a dedicar seu tempo interagindo com usuários? E ainda, como estabelecer um modelo de negócio para viabilizar esse produto novo e quais os desdobramentos possíveis para esse conceito? É curioso ainda notar como a tecnologia pode, neste caso, apontar para um caminho de renovação das emissoras públicas, que estão na vanguarda desses experimentos.

Esses pontos aparecem no excelente artigo do Mark Glaser, um especialista em novas mídias responsável pelo MediaShift Idea Lab, um guia para a revolução digital mantido pelo Public Broadcasting Service - PBS dos Estados Unidos.

Aqui está o link para o artigo original. A tradução a seguir foi autorizada pela PBS.

Programas de rádio colaborativos convidam usuários para participar do processo criativo

Por Mark Glaser, 13 de junho de 2007

Muito antes do termo jornalismo cidadão entrar na moda, pessoas comuns compartilharam o microfone por décadas com jornalistas profissionais em programas de rádio. Eles colaboravam, se bajulavam, falavam alto e frequentemente adicionavam conhecimento e sabedoria a programas de rádio com participações por telefone. Mas com o advento da internet, programas de estações públicas estão descobrindo que sites - e blogs em particular - podem ser espaços poderosos para envolver a audiência mais profundamente no processo criativo do programa.

A National Public Radio (NPR) está usando blogs para o primeiro estágio de desenvolvimento de novos programas, bem como está fortalecendo a interatividade e a participação de leitores em programas maduros como o "Talk of the Nation". A Chicago Public Radio está lançando a nova estação/website Volcalo para atender várias comunidades étnicas pedindo os moradores para gravar depoimentos em audio. E Search Engine é um programa em fase de testes da Canadian Broadcasting Corporation (CBC) que pretende envolver ouvintes no desenvolvimento do programa, e também publicando online entrevistas completas para o público remixar.

Todos esses esforços seguem a trilha do programa pioneiro Open Source, apresentado por Christopher Lydon, mas verdadeiramente criado pela ação da comunidade em seu agitado blog. Os programas de uma hora são transmitidos online e pela antena quatro vezes por semana, e um ou dois desses programas toda semana é produzido a partir de uma idéia lançada na comunidade online. O blog tem uma seção para dicas de pauta para os usuários registrados, e quando uma idéia aparece em um post do blog, a audiência/participantes podem dar sugestões sobre convidados e abordagens para a discussão.

“Open Source é um programa de conversa inteligente que funciona com anabólicos', Lydon me disse. "É global, é igualitário, é 24/7. O que descobrimos depois de dois anos é que ele funciona. Nós podemos treinar participantes e eles podem nos treinar. É um trabalho lento e humilde, mas toda a idéia de conteúdo criado pela audiência, onde ouvintes se tornam escritores, é uma boa idéia e funciona como um encanto."

Inclusive, um dos ouvintes/contribuintes, Garrett Zevgetis, se tornou tão atuante online que foi contratado como estagiário no periodo de férias pelo Open Source. Nos últimos dois anos, Open Source vem sendo retransmitido por mais de trinta estações fora de Boston pela Public Radio international, mas a entidade responsável por oferecer o programa para outras emissoras está abrindo mão dele depois de ter perdido um de seus principais financiadores no início de 2007.

A University of Massachusetts-Lowell cancelou seu apoio por causa de limitações de orçamento, mas o Open Source recebeu uma doação muito bem-vinda da Fundação MacArthur no início de março. Recentemente o programa começou a pedir doações pelo blog e juntou mais de US$ 150 mil em uma semana para se manter funcionando no verão. Lydon não acredita que ele pode manter o programa inteiramente com doações diretas, mas ele também não está preocupado em ser o pioneiro que fez o trabalho sujo mas morreu tentando.

"Não existe um plano de negócios simples e com futuro garantido para trabalho sério no mundo dos blogs", Lydon disse. "[O programa] vai precisar de ajuda... Mas eu não me preocupo [que o dinheiro acabe]. Nós vamos ver o que acontece, entende? Estamos nos divertindo bastante, fazemos descobertas interessantes mês a mês, e eu acho que as possibilidades são infinitas."

Greta Pemberton, a Blogueira Chefe do Open Source, me contou que o programa tem em média 150 mil ouvintes no ar por semana e 150 mil podcasts baixados por mês. Ela explicou que uma das chaves para o sucesso com a participação da audiência é dar às pessoas direcionamento sobre como sugerir pautas para programas.

"O que nós aprendemos [com sugestões de pautas] é que você não pode apenas dizer sim ou não", ela falou. "Você precisa ensinar as pessoas como fazer propostas, e explicar que um programa transmitido para uma grande audiência precisa estar calçado em atualidades. Nós precisamos de pessoas que falam bem ou de um programa que seja amplo o suficiente mas não amplo demais. No começo nós não instruíamos as pessoas em relação às sugestões e era realmente trabalhoso ler esse material. Desde que estamos dando mais feedback nas respostas, temos tido melhores resultados."

É claro que a equipe equipe de uma emissora pública está constantemente correndo atrás do tempo, então eu me perguntei se todo esse feedback e sugestões da então chamada audiência significou que os produtores e o pessoal do site tinham ainda mais trabalho a fazer.

"Dá mais trabalho e é mais recompensador," disse Pemberton. "Nós falamos sobre isso em grandes conferências sobre rádio público e algumas pessoas pulam de entusiasmo, o que é fantástico. Mas também dizemos a eles que aumenta tremendamente a quantidade de trabalho. Todo produtor tem que tirar uma hora de seu dia para ler os comentários do site, e decidir se precisamos responder a ele ou não. Isso se torna uma grande parte da rotina e essa parte tende a ser negligenciada quando voce tem que fazer acontecer uma hora de programa de rádio toda noite. Mas isso também quer dizer que os ouvintes estão muito mais engajados no processo, o que significa que estão mais engajados no programa".

NPR desenvolve programas publicamente

O vovô da rádio pública, a NPR, está tentando uma aplicação da colaboração online em duas frentes, usando blogs para testar a receptividade de programas que ainda não foram lançados na seção Rough Cuts [de seu site] e criando blogs para programas estabelecidos. Um novo programa, Tell Me More já "se graduou" do Rough Cuts depois de ser lançado como um programa de rádio em abril, e outro programa, simplesmente apelidado de o Bryant Park Project está sendo produzido "na web, por podcasts, em vídeo e mesmo no rádio", segundo a descrição no blog. Seu blog também inclui pedaços de audio, comentários em texto e algumas tomadas cruas de vídeo para estimar o interesse da audiência e ajudar a moldar o programa antes de ser produzido.

Maria Thomas, vice presidente e gerente geral da NPR Digital Media me contou que o novo estilo de produção significa que os programas da NPR usarão múltiplas plataformas [de mídia] desde o começo.

"Nos velhos tempos do rádio, um programa era desenvolvido no vácuo", ela me contou. "Um grupo de pessoas fazia pilotos, e continuava tentando alternativas até que um expert dissesse que estava pronto... Nós queremos que as pessoas pensem do [Rough Cuts] como sendo o lugar para se fazer considerações e trocar idéias. É uma nova maneira de levar a cabo o esforço de criação de um programa. Ao invés de começar como um programa de rádio e então construir uma presença na internet, nós estamos fazendo a coisa online que tem [difusão boca-a-boca] e eventualmente conduz a um programa de rádio."

Enquanto o Bryant Park Project já tem um podcast (mesmo não tendo um nome de programa definitivo), o blog parece um pouco abandonado em participação, com apenas comentários escassos. Isso não é problema no Blog of the Nation, que funciona em conjunto com o popular programa "Talk of the Nation", feito com participação de ouvintes por telefone. Pelo blog, o âncora Neal Conan e três produtores puxam ainda mais participação dos leitores. Programas estabelecidos como o Daily Nightly com Brian Williams da rede de TV NBC estão começando a fazer do blog um componente importante para conversas de bastidores e interação com a audiência.

Na NPR, Conan me contou que estava relutante em blogar, com todo o trabalho que ele já tem para fazer o programa, mas disse "é uma coisa que precisamos e que queremos fazer - eu gostaria de poder me dedicar mais a isso - mas meu foco ainda está no programa". Conan espera que eventualmente comentários no blog e talvez mensagens de texto possam ajudar a reduzir o intervalo de tempo para um comentário ser filtrado e chegar ao ar sem ter caducado. Mas ele supõe que ter alguém que coordene e responda ao jorro de comentários lançados ao vivo no blog enquanto o programa está no ar pode tornar a produção ainda mais insana do que já é.

E até que ponto você pode tirar proveito da participação do usuário e do feedback, e para onde isso leva os produtores e âncoras? Conan ainda enxerga que os profissionais têm uma função importante na NPR.

"As pessoas vêm até nós porque eles confiam na gente e nós temos que merecer essa confiança", ele disse. "Se tem um convidado que é indicado [pela audiência], ainda assim tempos de avaliá-lo. Nós temos que adicionar nosso contexto editorial à conversa... Ouvintes querem ter mais participação, e isso não é o problema. Mas este é ainda o NPR News e nós temos que avalizá-lo".

Conan e Thomas ambos dizem que a tecnologia na NPR ainda não é suficiente para dar vazão às idéias deles de uma rádio colaborativa pela web. Por exemplo, "Talk of the Nation" ainda não pode receber comentários por mensagens de texto. Um lugar que eles podem usar como inspiração é a BBC, onde o pessoal que produz o programa World Have Your Say de conversa com participação por telefone permite que os ouvintes enviem comentários de texto e mesmo liguem para participar da reunião diária de pauta. Existe inclusive uma Carta do Participante que explica como a antes chamada audiência pode ajudar a decidir a pauta do programa, contribuir com as reuniões de pauta pela manhã, e pedir para participar do programa.

"Alguns de vocês apenas mandam email ou publicam um comentário [sobre o tópico do programa", escreveu o produtor Ros Atkins na Carta. "Outros que querem entrar no ar deixem seu telefone ou identidade VoIP [para chamada via computador]. Se você pediu para entrar no ar, nós tentaremos e entraremos em contato com você."

Levando o Open Source adiante

Então para onde o conceito de rádio colaborativa vai agora, após os estágios de experimentos e pioneirismo? A Chicago Public Radio decidiu tentar um novo caminho para chegar comunidades étnicas e sub-atendidas que não se identificam com a "cara NPR" da emissora. Eles decidiram criar uma nova estação, chamada Vocalo, que soaria como as comunidades ao ir até essas mesmas comunidades e ajudá-los a gravar seus próprios programas e participações.

Vocalo lançou uma versão prévia de seu site, pedindo para as pessoas se juntarem a eles e mandar matérias em audio, e agora põe no ar algumas horas de programação original todos os dias com um transmissor de 7 mil watts.

Wendy Turner, gerente geral da Vocalo, me explicou que eles contrataram âncoras vindos de comunidades diferentes e que programam segmentos de não mais que sete minutos e que abordam rapidamente vários tópicos.

"Nós contratamos uma equipe de sete âncoras/produtores, e apenas um deles vêm de emissora pública", ela disse. "Os outros vêm de outros lugares na comunidade e contribuem para a equipe com diversidade étnica e econômica. Nós temos um comediante afro-americano, e um cineasta árabe... eles todos trazem seus próprios elementos de cultura para o grupo. O que eles têm em comum é a paixão por explorar a comunidade. Eventualmente haverá 19 deles, e eles sairão e explorarão todos os tipos de organizações comunitárias, grupos artísticos, organizações jovens. Essas organizações estão famintas e sedentas para nos conduzir a pessoas em suas comunidades, cujas histórias nós poderíamos contar."

Vocalo planeja de fato montar estúdios de gravação em áreas diferentes de Chicago e treinar participantes da comunidade a contar suas histórias. Turner diz que ela está levando a idéia do [programa] Open Source para fora da web e para dentro do mundo real.

"Eu acho que o Open Source tem uma idéia parecida, que é cultivar vida e comunidade em torno de tópicos e expandir isso para além da difusão", disse Turner. "Eu acho que é um programa e um experimento incrível. O que estamos fazendo é tentar fazer disso um serviço que funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana para a nossa comunidade e fazer isso para a população que vive lá. E nós não estamos esperando as pessoas virem até o nosso site, mas saindo e cultivando essa participação."

Levar o conceito do Open Source para o próximo estágio é o projeto sendo testado pela CBC chamado "Search Engine", um programa de 30 minutos que observa eventos culturais e políticos pela perspectiva pelas lentes da internet. Os produtores colocaram no ar um website e blog rudimentares para o experimento, publicando o audio de entrevistas para o primeiro programa teste, e pediram para as pessoas comentarem as propostas e mesmo mandarem idéias de música para os intervalos.

Jesse Brown, o âncora e co-produtor do programa, me falou que eles estão considerando registrar todo material bruto de entrevistas com licenças Creative Commons para que a audiência possa reaproveitar e remixar elas mesmas os programas.

"Que tal designar tarefas jornalísticas - pedindo aos ouvintes para reunir respostas em suas comunidades sobre um tópico específico?", ele disse. "Idealmente, isso seria como ter um freelancer em todas as cidades, ou uma fonte de informação dentro de cada local de trabalho e instituição. Existem algumas possibilidades muito entusiasmantes aí, e nós queremos explorá-las com o Search Engine. Naturalmente, parte do modelo aberto envolveria a própria comunidade gerando novas formas dele ser utilizado."

Um dos desafios de fazer qualquer um desses programas colaborativos é financiamento. Enquanto Open Source luta para ter suporte institucional permanente, Vocalo também está a procura de patrocinadores corporativos, e o Search Engine ainda não foi aprovado como uma série regular pela CBC. A questão que fica é se as entidades financiadoras, fundações e corporações, valorizarão programas de rádio colaborativo e elementos online tanto quanto a audiência de programas tradicionais de rádio que eles sempre procuraram. Os apoiadores terão que considerar não apenas o número da audiência para ouvintes pela difusão tradicional mas também o tráfego da rede, downloads de podcasts e aumento da fidelidade de uma audiência que é mais engajada no processo criativo.

Espereramos que a rádio publica entenda que tem a chance de se re-energizar e servir mais ao público pela colaboração e alcance da internet. Torey Malatia, presidente e gerente geral da Chicago Public Radio, explicou em apenas um comentário o quão catalisadora a Net poderia ser para a mídia pública:

"Se a difusão pública perde sua vitalidade, o motivo não será que as novas tecnologias varreram a torre de rádio e a necessidade de uma mídia sem fio de grande alcance. A causa será nossa própria rigidez em negligenciar a combinação da difusão com novas mídias que pode alentar e intensificar o conteúdo que nós produzimos. Nós efetivamente nos desconectamos daqueles que recebemos a obrigação de servir. Até que batalhemos para libertar nosso conteúdo das dependências da tradição, nós não seremos capazer de ajudar nossas comunidades acender as idéias em favor de sua evolução. Rádio e internet oferecem cada um um tipo de acesso único à informação, e ambos são necessários para ouvintes unirem conversas cívicas e serem ouvidos."

Lista de sites apresentados no artigo:

Programa Open Source - http://www.radioopensource.org
O blog serve para a comunidade sugerir pautas, entrevistados e comentar o conteúdo que vai ao ar.

Rought Cuts da NPR - http://www.npr.org/roughcuts
Espaço colaborativo onde a emissora apresenta aos ouvintes idéias programas novos para receber feedback da comunidade e iniciar a divulgação boca-a-boca

Vocalo - http://www.vocalo.org/
Projeto de rádio produzida pela participação da comunidade.

Search Engine - http://www.cbc.ca/searchengine/index.html?copy-index
A audiência é convidada a repercutir assuntos em suas comunidades e enviar de volta ao programa.




Comments

Oi, Juliano. Valeu pelo comentário lá no Olhômetro e pelas elucidações quanto ao Radar. Achei o projeto muito legal.

Vou continuar sugerindo algumas mudanças, sempre que for possível.

Abraço =)

a rádio do overmundo (overmundo.org.br) também me parece ser um estudo de caso interessante...

Post new comment

The content of this field is kept private and will not be shown publicly.
  • Web page addresses and e-mail addresses turn into links automatically.
  • Allowed HTML tags: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Lines and paragraphs break automatically.

More information about formatting options