Tem uma parte do meu cérebro que não me pertence

O assunto é complicado e não pretendo resolvê-lo nessas poucas linhas que vou escrever. Aliás, eu não ia escreve hoje, mas seguindo minha proposta de ler diariamente os feeds dos blogs, acabei trombando com a seguinte notícia: conteúdo aberto cria mais valor econômico que o direito autoral.

Eu já tinha feito comentários sobre esse assunto enquanto lia o Free Culture do Lawrence Lessig, e justamente ontem estava pensando no seguinte: se eu quiser inventar uma história que, ao invés de personagens "originais", faça interagir personagens da minha infância como a turma da Mônica, Disney, Speedy Racer, Ultraman e Snoopy, das duas, uma, ou eu gasto uma fortuna e perco meses negociando com os donos dos direitos autorais, ou me exponho a ser processado - caso minha obra se torne pública.

A questão é que esses personagens fazem parte de mim, da minha memória, de quem eu sou. Se eu existo no mundo, é também sustentado nas experiências trazidas pelos meios de comunicação de massa. Isso tudo estava OK até aparecer a internet, que expande as possibilidades da pessoa de distribuir informação. A indústria atingida, até de maneira compreensiva, reage tendo em vista a possibilidade perder seu sustento.

Lessig conta nesse livro como, mais em função da tradição que das leis, os japoneses podem reaproveitar personagens que já existem. Ninguém é dono do personagem, da mesma forma como ninguém é dono do mito grego. Ele é livre para ser remixado. É isso, também, que de maneira muito sofisticada vem sendo proposto pelos modernistas-tropicalistas, e me encheu de orgulho ver um site "gringo" reconhecendo essa contribuição, e fazendo isso re-antropofagicamente, ou seja, "engulindo" o conceito para recriá-lo em outro contexto, o da cultura aberta, do código aberto.

No mundo dos direitos autorais, isso não é possível. A música que eu escuto - que para ser usada publicamente precisa da autorização de vários autores, de compositores a intérpretes, a executivos das gravadoras - não me autorizam a usar ativamente uma informação que passou a fazer parte do meu patrimônio pessoal. Quer dizer, eu posso assobiá-la na rua, até cantar em rodinhas de amigos, mas não posso de forma alguma por esse material na rede.

Não quero chegar a lugar nenhum. Apenas compartilhar esse insight, de que existem simbolos e informações dentro de mim que apesar de fazerem parte de quem eu sou, eu não tenho autorização para aproveitar integralmente.

Se você se interessar pelo assunto, assista o Good Copy Bad Copy. É bastante elucidativo.




Comments

Caro,
minha primeira experiência com o Torrent, algum segredo para acionar o download? não teve jeito de baixar o filme.
abços,
Lilian

oi lilian, o único segredo é baixar e instalar o programa de compressão e descompressão de artigos. a wikipedia deve ter um bom tutorial. voce já foi lá? boa sorte!

Obrigada, Juliano.
Vou checar na Wikipedia.
Vc sabe que essa coluna de Recent Comments à esquerda do blog ajuda muito?
é uma maneira de se saber se a conversa continuou sem ter que abrir os demais comentários.
já assinei, em algum outro blog, um tipo de RSS que te avisa de novos comentários ao post que vc estava seguindo. tb vale à pena.
abços,
Lilian
PS. Dia 27 tem lançamento do "Tecnologia Educacinal e aprendizagem", às 19h00. Escrevi um dos capítulos, "O caminho das pedras:colaboração em redes digitais". Os demais textos são bem interessantes, a lista completa está num post do meu blog. Apareça se puder!

Oi Lilian, vou ver se consigo colocar um botao pra assinar o rss desse coluna. Isso realmente é util.

Quero ir no lançamento, sim. Como estou no Rio no computador do meu primo, vai ficar complicado procurar essa informação no seu blog agora, mas se voce puder, me manda um releasezinho do evento pra eu anunciar aqui.

abraços!

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