Pirataria off-line segue modelo de organização descentralizada

Esses dias estive na Santa Efigência - para quem não conhece, é a rua de São Paulo onde se concentram os vendedores de equipamentos eletrônicos - mapa aqui. Um verdadeiro bazar caótico, local das barganhas e também dos produtos contrabandeados ou roubados. (Muitos dos comerciantes têm presença na Web.)

Em um dia típico, no horário comercial, muitos ambulantes ocupam as calçadas. É difícil passar. Muitos estímulos, luzes que piscam, chamados, quer programa? quer jogos? A rua estreita geralmente ocupada de carros e pessoas cruzando, o trânsito flui devagar.

Esses dias passei por lá e tive a oportunidade de conversar com um dos jovens que vende programas piratas na rua. Antes, alguns anos atrás, os produtos ficavam disponíveis com eles, mas a repressão policial foi exigindo adaptações ao esquema de distribuição. Hoje seu mostruário é uma caixa de papelão desmontada, com a superfície plastificada coberta de imagens das capas dos principais programas. O formato se parece com o de uma pasta-portifólio dos arquitetos.

O vendedor fica encostado na parede segurando a ponta de cima do mostruário com a mão. Fica nervosamente olhando para o começo da rua e para ocultar a prova do crime, apenas solta o papelão que com o próprio peso se dobra, esconde a parte ilustrada e fica abaixo da linha da cintura.

Eu imaginava que esses rapazes, como no caso do tráfico, tinham alguma ligação com organizações criminosas, máfias que controlavam a produção e distribuição do material pirateado. Na minha fantasia, quem quisesse entrar, tinha que escalar a hierarquia do grupo, começando como vendedor para talvez um dia chegar a chefe. E ai de quem tentasse entrar no mercado sem autorização dos líderes. Mas não é nada disso.

O negócio é descentralizado. Para se tornar vendedor, você deve ser apresentado a um dos três fornecedores que operam nas redondezas e tem sua produção explorando um determinado segmento de softwares.

Os vendedores que atendem diretamente o público não tem vínculo com esses fornecedores. Cada um faz sua parte e por isso a saída de circulação de um componente não compromete a sobrevivência do ecossistema. O preço no "atacado" pago pelo revendedor é fixo: R$ 7 um CD e R$ 15 um DVD - que comporta até três programas. O custo no "varejo" é R$ 10 e R$ 20, respectivamente.

No caso dos programas mais procurados, como Windows ou Office, os vendedores sabem a quem procurar. Se um não têm, vão a outro. E se nenhum fornecedor tiver, desencane de procurar porque todos que trabalham ali dependem da mesma estrutura de suprimento.

Um dado curioso: na mesma semana que o Link do Estadão deu quatro páginas de matérias sobre como o Windows Vista não funciona ou funciona mal, os vendedores de programas pirateados da Santa Efigênia, inimigos públicos da Microsoft, defendem o programa dizendo que as versões oferecidas ali já vêm com as últimas atualizações. Eu não duvido.

Outra curiosidade: os vendedores de rua concorrem uns com os outros mas todos eles são perseguidos pela polícia, de modo que estabelecem laços para cooperar entre si. Como não têm o produto na hora, eles se comunicam e se apoiam entanto deixam seus postos para retirar o pedido de cada cliente com o fornecedor.

O rapaz que me contou isso disse que há três anos está no ramo e nunca foi preso. Ele conhece pessoas que foram detidas, algumas são liberadas na delegacia, mas acontece do sujeito ser encaminhado ao Cadeião de Pinheiros. Se não pagar fiança, ele explicou, a sentença é de dois a três anos. Não perguntei em qual ala ficam confinados e sobre a vida de quem sai da prisão.

Comments

Juca,

na Espanha, vi a adoção de uma 'ferramenta' muito interessante que - imagino - logo vá chegar aqui.

A disposição é parecida, mas o mostruário é feito de pano, com os softwares presos por grampos. O vendedor fica sempre segurando as quatro pontas das cordas amarradas nas quatro pontas do pano, que fica deitado horizontalmente no chão. A qualquer sinal de perigo o vendedor simplesmente sai andando e a própria física trata de armar o mostruário como um conveniente saco para viagens.

Genial, não?

[]'s
Pedro Markun

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