Letrista do Greatful Dead pode ter disseminado o Orkut no BR

Muita gente se pergunta por que o Orkut fez tanto sucesso no Brasil. Até o NYTimes investigou o assunto sem chegar a uma conclusão. Existem muitos motivos para essa rede de relacionamentos ter explodido aqui, mas existe uma grande possibilidade de que a sementinha tenha vindo de John Barlow, ativista digital e letrista da banda Greatful Dead. (Neste vídeo ele revela sua história.)

Barlow foi um das primeiras cem pessoas a receber cem convites para o Orkut e, a título de experimento e por acreditar na força das redes no Brasil, resolveu enviar todos os cem para conhecidos dele aqui.

Justo quando o Orkut ainda estava engatinhando, o espaço ainda nao tinha dono, Barlow atraiu um número substancial de geeks brasileiros falantes de português.

As outras 99 pessoas que distribuíram convites provavelmente enviaram apenas uma parte e para falantes de inglês que tinham outras alternativas de serviço, como o Friendster ou o MySpace. Já os convidados de Barlow perceberam a oportunidade de colonizar um espaço onde o inglês ainda não tinha se estabelecido como padrão.

Havia coesão entre os early adopters brasileiros em relação à vantagem de ter uma rede social onde a primeira língua fosse o português. E os convites chegaram em grande quantidade, no tempo certo e para as pessoas certas - heavy users da web.

Eu não fui um dos que recebeu o convite dele, mas me chamou a atenção que vários ubergeeks estivessem rapidamente disseminando a novidade. Tanto que em fevereiro de 2004, um mês depois do lançamento do site, eu publiquei um artigo apresentando a ferramenta e oferecendo um convite para quem explicasse o significado da palavra Orkut. (Acho que esse foi o primeiro artigo sobre o Orkut publicado no Brasil.)

No artigo citado no primeiro parágrafo, o criador do site, o sr. Orkut Büyükkökten, disse ao repórter do NYTimes que suspeitava que alguns de seus amigos tinham muitos conhecidos no Brasil. Isso é parcialmente verdade. Barlow de fato conhece muitos brasileiros, mas a ação foi premeditada e se tornou um caso a ser estudado de epidemia social, parecido com os descritos no livro O Ponto de Desequilíbrio do autor americano Malcolm Gladwell.




Comments

E alguns brasileros fazem o imenso desfavor de estragar essa ferramenta incrível.

Não sei se conheces a profa. Dra. Raquel Recuero, mas ela é referência no Brasil em pesquisas de redes sociais e desenvolveu pesquisas para o Orkut no Brasil e na Índia, justamente para entender o sucesso desta ferramenta nestes países. Só não sei se os resultado foram divulgados (acho que não).

Essa história do cara do Grateful Dead é antiga, mas não tinha lido sobre ela como proposital. De qualquer forma a teoria de Gladwell explica.

Não. Acho que o John Perry Barlow está exagerando no próprio papel que ele pode ter tido nesse caso (no caso da EFF é impossível exagerar o papel dele). Eu sei porque eu estava no Orkut nessa época. Eu mesmo entrei convidado por um americano do Vale do Silício que eu não creio ser ligado ao JP Barlow e por um tempo todos os brasileiros que eu conhecia que estavam no Orkut tinham sido convidados por mim. Se eu não soubesse de outros ia achar que fui eu que comecei tudo, mas eu sei que para todos na época, por causa do crescimento exponencial, devia parecer a mesma coisa.

Eu convidei diversos amigos e o número dos que aceitavam era bem pequeno a princípio, mas quando os que aceitavam começavam a convidar os amigos em comum, estes acabavam por aceitar o convite e grupos diferentes começavam a se conectar. Era muito interessante de ver a dinâmica. Na época eu gostava de fazer buscas constantes pelos últimos usuários cadastrados para ver se algum conhecido tinha entrado. Imagina fazer isso agora.

Se houve um grande divulgador no país eu diria que foi o ACME, Arnaldo Carvalho de Melo, da Conectiva, e a comunidade Linux e de Free Software. Eu acho que eles foram o backbone, exatamente como nos EUA, onde o Orkut era uma rede de alpha-geeks, onde estavam todos os principais desenvolvedores do Linux, perl, python, e toda a comunidade de software livre e VCs.

Naquela época o Orkut era completamente em inglês e a atração do Orkut era que era a rede social das pessoas importantes na Internet americana (e era difícil conseguir um convite). Acho que as pessoas que o JP Barlow alcançou não foram os connectors do Gladwell, mas não tem problema, porque eles seriam alcançados de qualquer forma, já que era uma rede muito interessante para pessoas bem conectadas.

Para mim é claro que o que aconteceu foi que o Orkut fez tanto sucesso por aqui porque ninguém usava o Friendster ou outras redes, então ele não teve competição. Se outra rede social tivesse chegado a tempo, seria dominante, como o Livejournal é dominante na Rússia e o Hi5 dominante América Central.

Heh. Comentei isso na mesa sobre 'web 3' no último transmediale. Foi quase improviso... escrevi a respeito, em inglês, aqui:
http://efeefe.no-ip.org/blog/web-3-conspirando-pra-manter-rede-p%C3%BAblica

Sim, ele pode ter influenciado. Barlow percebeu, antes que muita gente, que o relacionamento superará a propriedade. Bom saber que ele percebeu no Brasil um ambiente em potencial para o desenvolvimento de uma economia baseada em reputações.

Spyer-san,

fato ou lenda, não acredito mesmo que este possa ser considerado o 'ponto de desequilíbrio' do Orkut... do dia que eu (tardiamente) entrei no Orkut, para o dia onde você podia gritar 'Orkut' em um transporte público e receber outras respostas que não 'saúde', correu muita água para creditarmos isso aos 100 invites de um closed-beta que ainda trabalhava com regras super rígidas de replicação e multiplicação da rede.

Mas é uma ótima anedota para os netos e um sempre bem-vindo toque de romantismo na formação de uma rede social ;)

É.. O Orkut é um sucesso de fato, mas acredito que ainda tem muito que melhorar para, por exemplo, chegar a ser incrível como o FaceBook. Se eles não tomarem uma decisão, o Facebook vai desbancá-lo rapidinho. Segundo essa notícia.

oi gisele. nao conheço essa pesquisadora, mas acho fundamental que se pesquise esse caso. e principalmente que essa pesquisa possa ser ao mesmo tempo aproveitada pelo meio acadêmio e esteja acessível para não-especialistas entenderem e debaterem seus resultados. abraços o obrigado pelo feedback.

caro andré, primeiro de tudo, obrigado por ter registrado as suas experiências e reflexões sobre o assunto. o que voce escreveu é praticamente um outro artigo dialogando com o primeiro.

Não sei se é possível encontrar o caminho de entrada do Orkut no Brasil e se dá para dizer que existe apenas um caminho ou se são vários. Mas acho relevante: 1) que ele tenha sido um dos 100 primeiros; e 2) que tenha tomado a atitude consciente de mandar todos eles para brasileiros.

Como voce apontou, as pessoas começaram a aceitar o convite em função do número de conhecidos que se inscreviam. E levando em consideração que ele esteja falando a verdade, faz sentido que as pessoas que receberam os convites dele também se conhecessem entre si ou tivessem mais chance de conhecerem uns aos outros, provocando a rápida disseminação de convites.

Enfim, esses dados e suposições apenas indicam que existe possivelmente uma boa história para ser contada, com elementos de mistério, para quem tiver tempo e estímulo para apurá-la.

Abraços!

markun, realmente é difícil, sem pesquisa, tirar conclusões seguras, e realmente aconteceram muitas outras coisas que colaboraram com a disseminação do orkut entre brasileiros, mas não descarto este episódio como parte dessa história. valeria a pena alguém apurá-la. acho que dá um bom livro. não quer encarar? abraços!

Acho que o John Perry Barlow está equivocado.

Em meados de 2004 eu recebi um convite do Buyu (é como eu costumo chamar o Orkut) e convidei algumas dezenas de pessoas do Brasil, assim como algums conhecidos da Índia e da Eslovênia, lugares onde outras redes sociais como o Friendster e o mySpace ainda não tinham uma grande penetração.

A resposta a princípio foi muito boa, algumas pessoas até pensaram que era um grupo exclusivo para meus amigos, mas depois quando enchergavam o alcance do negócio ficaram fascinados.

Infelizmente a a ferramenta começou a virar essa "zona" quando foi traduzida ao português.

Acho que o John Perry Barlow está equivocado.

Em meados de 2004 eu recebi um convite do Buyu (é como eu costumo chamar o Orkut) e convidei algumas dezenas de pessoas do Brasil, assim como algums conhecidos da Índia e da Eslovênia, lugares onde outras redes sociais como o Friendster e o mySpace ainda não tinham uma grande penetração.

A resposta a princípio foi muito boa, algumas pessoas até pensaram que era um grupo exclusivo para meus amigos, mas depois quando enchergavam o alcance do negócio ficaram fascinados.

Infelizmente a a ferramenta começou a virar essa "zona" quando foi traduzida ao português.

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