A universidade começa a se abrir aos novos profissionais da comunicação digital

Na terça aconteceu uma coisa tão extraordinária que eu quase não me dei conta dela. O representante do departamento de comunicação de uma universidade reconhecida me chamou para propor uma aproximação. Ele está abrindo as portas de sua instituição para estimular o convívio de seus professores e alunos com profissionais sem título acadêmico mas que, a partir da prática, do estudo auto-didata e do convívio com seus pares estão reinventando o jeito de fazer comunicação.

Pensando na importância desse gesto, me lembrei da visita que eu fiz ano passado a outra universidade importante daqui de São Paulo, convidado para dar uma palestra. Na sala de recepção aos convidados do evento, dois professores da casa me contaram de sua frustração por estar formando comunicadores para trabalhar no contexto tecnológico dos anos 60, quando quem mandava no jogo eram TV, mídia impressa e rádio.

Hoje o estudante que quer entrar pelos meios convencionais para uma carreira ligada à comunicação precisa fazer dois esforços: um para receber o título acadêmico e outro para aprender a trabalhar. Um para ter o aval institucional que certifica que ele está treinado para desempenhar uma profissão e outro para adquirir o know-how e conseguir o emprego.

Da perspectiva das universidades, parece que as mudanças no cenário profissional dos anos 70 para cá se resume a uma evolução dos equipamentos, como aconteceu com a passagem do rádio AM para o FM, ou da TV com imagens PB para a em cores. Mas a Web não é uma evolução da TV. Concordo (mais uma vez) com o que diz Yochai Benkler: a tecnologia relacionada à comunicação digital provocou na sociedade um impacto comparado ao de um grande desastre natural ou a uma crise econômica mundial, levando à desarticulação temporária da maneira como a sociedade funciona e abrindo a possibilidade para a renegociação de valores.

Um de seus efeitos foi o de muito rapidamente tirar dos experts o domínio da técnica e abrir oportunidades para amadores inventarem novas profissões. E por isso a reunião de terça foi especial. Ela revelou o interesse da universidade em aprender e aprender com quem está fora dela e deseja compartilhar suas descobertas.

Conheço vários profissionais - eu entre eles - nessa posição. Até sentimos falta de ter um título acadêmico para abrir novas oportunidades de trabalho como, por exemplo, ensinar nas universidades. Mas depois de medir prós e contras, constatamos que o investimento não vale a pena agora, que para nos mantermos atualizados precisamos estar no mercado, estudar por conta própria e ter convívio com nossos pares.

Falo de gente que está descobrindo no dia a dia as novas regras do mercado e das áreas a que escolheram se dedicar. Pessoas que observam que o direito autoral convencional funciona contra seus interesses, querem usar tecnologias P2P como o BitTorrent e por isso querem entender mais sobre assuntos como Creative Commons. Empreendedores que não se encaixam no esquema de trabalho corporativo e procuram alternativas a ele. Gente explorando dinâmicas de troca de conhecimento e networking como acontece nos BarCamps. Estagiários ou recém formados aprendendo na raça como explorar os celulares como plataforma de comunicação, ou o Twitter, ou ainda o Dodgeball. Empresários e ativistas encontrando brechas para se inserir no mercado, como em casos como a Gawker Media ou o Craigslist, o Huffington Post ou a Kyte TV. Jornalistas que abandonaram o esquema tradicional das redações para lançar carreiras solo como blogueiros ou que estão descobrindo as oportunidades e desafios dos podcasts, da promoção boca-a-boca online, tudo isso que está acontecendo hoje e que a universidade ainda não está preparada para suprir.

Que esses encontros se multipliquem, porque eles serão positivos para todo mundo.

Comments

Como disse meu orientador no dia em que me apresentou para meus alunos de Tecnologia e Comunicação, o programa dos cursos foi feito na "época de Gutenberg".

O processo é mais lento do que deveria, mas as universidades estão sabendo que precisam se adequar sim. Claro, é burocrático e moroso, como tudo por aqui. Só que a "academia" é importante. O título, como você mesmo diz, para o mercado talvez nem seja tanto. Mas precisamos comunicadores que, mais do que atualizados, sejam também críticos e éticos.

Claro, eu sou suspeita para falar porque adoro estudar, mas também estou aí no mercado e é por isso que eu afirmo com propriedade: faz diferença!

Excelente notícia, Juliano - tão boa que quase não dá para acreditar que algo criativo e dinâmico está por acontecer em um ambiente geralmente burocrático e avesso à mudança do status quo. Estava down por causa do artigo que li no Economist da semana passada.
Obrigada por compartilhar e queremos ouvir mais sobre iniciativas como essa. Prá frente é que se anda :-)

Cara, ao menos uma boa notícia. Podia abrir o nome da universidade. Circulei por uma grande particular para dar palestra sobre comunicação e meios digitais e saí de lá arrasado com as caras de espanto dos estudantes, sinal de que os professores não estão dando conta do recado.
Abraço e boa sorte com essa aproximação.

ótimas palavras Juliano, de fato as Universidades, no tocante à area de comunicação estão formando recem-obsoletos, a revolução que esta acontecendo, a cibercultura, a cultura do ubiquamente conectado ainda não foi totalmente sistematizada, e de fato não existem muitos cursos ou ate mesmo muitas cadeiras que passem este conhecimento aos formandos. Esta aproximação das Universidades com os estudiosos independentes é uma grande oportunidade.

pior é que largou a academia antes mesmo de se graduar ;) já fui convidado umas vezes pra conversar sobre mestrado, mas é complicado. fora do Brasil até tem alguns lugares onde rola alegar notório saber, falar de experiência em projetos e coisas, tentar conversar. Mas no Brasil, já me disseram que justificar notório saber, só depois de ter cabelo branco. "entra numa caça-níqueis qualquer aí pra descolar o diploma e depois a gente conversa".

enquanto isso, vamos pastando.

Interessante relato, Juliano. Como professor universitário que procura conciliar a atualização 2.0, de velocidade frenética, e a formação acadêmica (doutorado em curso...), vivo o dilema que vc apontou no final do texto. Precisamos urgentemente discutir integrações entre esses mundos hoje não separados.

Engraçado como a academia, no sentido clássico do termo, deveria ser o espaço de inovação e criação. Hoje as universidades perderam isso e se limitam, na maior parte dos casos, a repetir conhecimento. Recorta-se e cola-se "novidades". Isso é percebido nos trabalhos de boa parte dos alunos de mestrado, doutorado. Há pouquíssima produção de conhecimento. Isso precisa ser revisto imediatamente por educadores (muito responsáveis por esse repeteco todo) e pela própria instituição.

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