Quem inventou a internet? Ninguém.

Não sei se voces acompanharam - houve um debate recentemente nos Estados Unidos, que surgiu a partir da declaração do Obama de que o governo dos Estados Unidos teria criado a internet. A intenção da frase era mostrar a importância do incentivo governamental para o desenvolvimento econômico (*). Aqui tem um resumão desse debate em inglês com todos os links para os textos originais, que eu não terei condição de publicar agora.

Cada um nomeou um inventor diferente:

O mercado - Um analista do Wall Street Journal contestou a versão do presidente dizendo que a internet teria sido criada, na verdade, por empresas, precisamente pela Xerox PARC, que contratou um dos engenheiros do governo depois do projeto original e que este, sim, teria sido o ponto de partida, via a Ethernet, uma solução criada para interconectar computadores.

O governo - Na sequencia, o analista da revista Times entrou na conversa defendendo o presidente ao apontar que sim, o elemento criador daquilo que permite a comunicaçao em rede é a comutaçao de pacotes (package switching). É graças a isso que pedaços de dados podem ser transmitidos em blocos pequenos dentro de redes de computadores e remontados no destino final. Essa foi a grande contribuição do projeto Arpanet, financiado pelo Departamento de Defesa dos EUA.

Indivíduos - Outro analista da Times se envolveu no debate para dizer que a internet era o produto de indivíduos, mentes brilhantes como a do Vannevar Bush, que conceitualizou algo parecido com uma parte da internet em 1945, ou de Engelbart (mouse e hipertexto), Vince Serf (TCP/IP), Tim Berners-Lee (hiperlink), Andressen (Mosaic, primeiro navegador), etc.

Nós mesmos - Finalmente, para encerrar a discussão, entrou Steven Johnson, publicando sua posiçao via New York Times, defendendo que todos estavam errados e que o inventor da internet "somos nós". Aqui ele se refere ao movimento open source, Linux e as possibilidades abertas pelo trabalho colaborativo feito de forma descentralizada.

Ninguém - Não estou aqui querendo dizer que nós tropeçamos na internet como Aladim tropeçou na lampada mágica do gênio. Minha ideia é um pouco mais sutil e em parte pode-se dizer que deriva da argumentação do Steven Johnson, mas se diferencia da dele no sentido em que ele enxerga que houve "agência" (no sentido de uma ação com propósito) enquanto, para mim, o processo ocorreu em outro nível, meio que como da mesma maneira com que se criam cidades: há alguns estímulos e as pessoas vão construindo suas casas umas próximas das outras.

A essência da internet - O meu argumento não é filosófico; é que eu localizo o surgimento da internet a partir da transformação que eu entendo que ela trouxe pra sociedade: a possibilidade de comunicação grupal interativa à distância. Antes da internet havia dois modelos predominantes de tecnologia de comunicação: ou você fala e escutava (telefone) ou voce só falava ou só escutava, mas atingia grupos (televisao, rádio, etc). A novidade da internet é permitir que algo parecido com a conversa em torno da mesa, em que várias pessoas escutam todos e falam com todos, aconteça independente do tempo e da distância. É isso que vemos desde os murais de mensagem, das listas de discussão, até hoje nas conversas que acontecem pelo Facebook: sao conversas "semi-públicas".

Foi sem querer - O momento que eu considero iniciador dessa experiência; o momento em que se descubriu essa possibilidade, não foi planejado, ao contrário. A Arpanet, como muitos sabem, não tinha o propósito de fazer pessoas conversarem; era para computadores compartilharem seus dados. Em resumo, a história que me interessa é a do engenheiro Ray Tomlisson, um engenheiro contratado para trabalhar no projeto Arpanet e que, extra-oficialmente, instalou no sistema o programa de troca de mensagens eletrônicas desenvolvido no MIT.

Acontece que, no MIT, esse programa servia para outra finalidade; não havia redes de computadores porque eles eram caros, apenas instituições tinham computadores. O acesso a eles era compartilhado e o programinha servia para pessoas trabalhando no mesmo projeto deixarem recados entre si. Foi no Arpanet, portanto, que se experimentou a possibilidade de conversa grupal à distância, na medida em que existiam vários computadores interligados e as pessoas podiam mandar a mesma mensagem para várias pessoas e elas responderem para os mesmos múltiplos destinatários.

Conclusão - Como você vê, não houve propósito porque não existiu antecipação de resultado. Apesar de ter sido feito de forma extra-oficial, Tomlisson não estava conduzindo um experimento de comunicação grupal; o entendimento que ele tinha do programa derivava da experiencia prévia com ele como mural eletrônico para pessoas co-utilizando um computador. Para esses estudantes no MIT, não fazia sentido ficar mandando mensagens grupais porque eles podiam se encontrar fisicamente e era mais rápido e prático conversar ao vivo.

A vantagem da comunicação eletrônica grupal se estabelece na medida em que os meios que existiam até o momento (rádio amador ou conferência telefonica) não comportam muitas pessoas e dependem da participação simultânea dos envolvidos. O email dispensa isso: você fala coletivamente e escuta coletivamente sem que as mensagens se confundam umas com as outras (como acontece com pessoas falando ao mesmo tempo via conferencia telefonica) e na hora mais conveniente para voce.

Ninguém inventou a internet da mesma forma como ninguém inventou a fala, a cidade ou a cultura. A internet é o resultado de um processo contínuo de experimentação social: na medida em que as pessoas foram usando-o umas com as outras, foram fazendo modificações, que não são necessariamente tecnológicas, mas em relação a maneira de entender e usar um determinado elemento: por exemplo, ter a possibilidade de mandar mensagens com cópia oculta ou reproduzir a mensagem anterior no fim da mensagem atual. Mais interessante do que ver quem é ver a velocidade como nós recriamos e inventamos coletivamente espaços de socialização, como adaptamos aquilo que não serviria originalmente para se conversar e transformamos isso em uma plataforma para conversa. E isso não pertence a ninguem especificamente, nem a governos, nem a universidades, nem a individuos. E da gente, de forma plural; a internet é só uma nova expressão dessa vontade de nos comunicarmos.

(*) Essa declaração repercutiu pelos meios de comunicação porque se remete ao que está no cerne da diferença entre republicanos e democratas: estes (como Obama) acham que o governo tem um papel mais importante na sociedade, enquanto aqueles acham que os mercados se auto-regulam (assim como as redes) e que o estado deve ter uma função bem reduzida e fazer o máximo para não atrapalhar a economia com impostos para ajudar os mais pobres, por exemplo.

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Leitor de e-book: vale a pena comprar e qual?

Faz tempo que eu estava com a ideia de fazer esse videozinho para ajudar quem estivesse indeciso em relação a comprar um leitor de ebook. Aproveitei que a semana passada teve uma série de notícias sobre o assunto - chegada da Amazon, etc - para tirar a ideia da cabeça.

Neste vídeo eu falo sobre: 1) vantagens do livro digital; 2) diferença entre leitores de ebook e tablets para consumo de livros; 3) diferença de leitores genéricos e "proprietários" como Kindle e Kobo; 4) por que prefiro o Kindle; 5) vantagens do Kindle para quem estuda e pesquisa.

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Uma camera na cabeça e uma ideia na mão - é o espírito do concurso da @inter_gen

Adoro coisas com "a cara da internet". Coisas que aparecem feitas sob medida para acomodar como a gente tem inventado jeitos de ser e se expressar pela internet.

Esse concurso, por exemplo http://www.if.org.uk/filmcompetition, realizado pela Intergenerational Foundation (IF) e promovido pelo respeitado jornal inglês The Guardian.

Feito para pessoas entre 16 e 30 anos. O participante é convidado a gravar uma história. Qualquer história com até 3 minutos.

O que é tão brilhante em relação a isso:

1) Não distingue entre "video makers" e "nao video makers"; é para qualquer pessoa, considerando que a realizaçao pode ser simples, mas o conteúdo ser especial - e muitos serão.

2) tem um elemento de registro pessoal como o I Thought My Father Was God, que inspirou a criaçao do Viva São Paulo. A ideia de mostrar a beleza muitas vezes singela (outras nem um pouco) da vida comum.

3) o fato de que o resultado estará em um meio do caminho interessante entre exploraçao artistica (roteiro, realizaçao) e documento social; quantas possibilidades de a sociedade se reconhecer e conversar a partir das vozes que circularam via o concurso.

4) o fato de demandar apenas a mais simples infraestrutura de produçao que é uma camera de video (até de um celular) e um editor de imagens (tem grátis no YouTube).

5) esse projeto expressar esse potencial de retorno à oralidade que deu origem ao meu Naum Eh Tv. Neste caso a gente quase cai na tentaçao de dizer que "mais simples que isso seria fazer um concurso de redaçao" e de algum modo este é isso, mas tenho a sensaçao que aprender a escrever é mais difícil que aprender a fazer um vídeo nessas condiçoes.

Adoraria ver coisas assim acontecendo no Brasil, lugar tao receptivo ao video (6o maior mercado do YouTube) e que atravessa um momento de tantas mudanças. Será que alguma organizaçao forte no Brasil teria as manhas de dar um empurraozinho?

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Por que o SoundCloud é mais interessante que Spotify, Google Play e YouTube para áudio

Interessante como o YouTube se tornou um meio importante de compartilhamento de música entre adolescentes.

O que eu e meus pares fizemos via Napster ou Torrent, eles fazem via YouTube, com programas para encontrar e baixar o MP3.

É interessante que, enquanto nós baixávamos a música dos outros, eles se redistribuem. É a música do cara do bairro, do colega da escola, do DJ tal.

Do ponto de vista da criaçao, é parecido também. É uma música tão mixada que suponho que seja difícil alguém encrencar com direitos autorais.

Mas não é sobre isso que eu queria falar. Tem a ver com isso.

Esses dias um amigo me apontou pro Google Play, a resposta do Google à solução de armazenamento "na nuvem" oferecido pelo iTunes, por exemplo.

Voce sobe tudo o que tem no Play - tem espaço para até 20 mil faixas - e pode escutar em qualquer aparelho e em qualquer plataforma (inclusive na OS). E é grátis :-)

Existe ainda soluçoes tipo Spotify, LastFM, GrooveShark e semelhantes para voce escutar música via streamming.

E por incrível que pareça, apesar de tantas opçoes interessantes, ainda sinto que falta algo a ser feito em termos de oferta de serviço ao usuário de internet.

Eu sinto falta de ter um lugar para ir para, sem muito esforço, garimpar coisas novas. Um lugar para, ao mesmo tempo, colocar como "fundo musical" do meu dia, mas que sirva também para eu ter a experiencia parecida com a da garotada usando YouTube - de achar gente nova.

E é essa que aparentemente seja a missão do CloudSound, é por aí que eles parecem estar construindo seu caminho. E se for, é um projeto admirável por ter a visão de "facilitar" esse jeito novo de se compartilhar e fazer música em rede, como DJs, funkeiros e rappers estão fazendo pelo YouTube, mas via um serviço pensado (e nao improvisado) para se fazer isso.

(E que ainda facilita e renova o conceito do Podcast. Nunca foi tao fácil compartilhar registros em áudio via Smartphone e publicado direto, via app, nos canais escolhidos pelo usuário, inclusive Facebook e Twitter.)

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A narrativa a partir da qual os "apóstolos" da internet pregam sobre as novas mídias

Clay Shirky é um orador notável, mas quero chamar atenção para outro aspecto desta palestra, registrada recentemente no TED Edimburgo - veja no fim desta página.

Vamos esquecer sobre o que ele está falando e vamos pensar na história que ele está contando. Vamos pensar na narrativa.

Vou tentar resumir: A Ciência confiou aos homens uma revelação. Uma vanguarda de heróis (programadores) e também pessoas de outros círculos estão levando essa "boa nova", por palavras e atos, pelo mundo a fora. Só que essa boa nova não interessa os ricos & poderosos (governos, empresários e reacionários em geral). Mas isso não importa porque a força de convencimento da boa nova, a verdade que ela contém, indica que é uma questão de tempo até essa verdade se espalhar pelo mundo, a despeito dos R&P, e a paz e a luz prevaleçam sobre a discórdia e as trevas.

Eu tenho a impressão de que toda a idéia sobre essa tecnologia - sobre a internet - é contada por esses gurus dessa forma ou de uma forma semelhante a essa. É uma narrativa ultra convincente - é a história principal da Bíblia cristã - que vende uma promossa de redenção. E que tem uma ligação com o pensamento liberal político representado pelo estado da Califórnia: o estado é inimigo das pessoas, impostos servem apenas para alimentar corruptos no poder, algo nessa linha.

Ou não.

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Fluxos migratórios na internet e a polêmica sobre a relevância do Twitter

O meu penúltimo post sobre a queda da relevância do Twitter circulou mais do que o normal em relação ao conteúdo que eu compartilho aqui. Em parte, por esse texto ter ecoado um sentimento de apreensão de quem trabalha com monitoramento; e ainda por ter mexido com a sensibilidade de quem elegeu o Twitter como sua plataforma.

Duas coisas aconteceram depois da publicação desse texto: uma foi ele ter mobilizado a Raquel Recuero a adicionar suas ponderações sobre o assunto. Junto com isso, chegou a mim - por aquelas coincidências boas - um texto recente publicado no Huffinton Post sobre o crescente desinteresse dos adolescentes pelo Facebook.

A reportagem do HP fala de um movimento migratório: adolescentes que foram "early adopters" do Facebook estão trocando a ferramenta por outros espaços, especialmente por Twitter e Tumblr. Eles estariam se cansando do ambiente público demais - em que amigos, colegas e familiares se misturam - e da pressão pela popularidade que ficou associada ao dia-a-dia do Facebook para esse público.

Traduzindo: o Facebook teria se tornado a lanchonete da escola, um lugar onde todo mundo precisa estar e onde acontecem os concursos involuntários de popularidade; Tumblr e Twitter vêm surgindo como alternativas para se ter um canal de convívio com um grupo seleto, onde o "ruído" da comunicação é menor, onde as turmas de pessoas com interesses comuns se encontram.

Para a Raquel, faltou ao meu texto esclarecer para quem o Twitter estava ficando menos relevante e em relação a que isso estava acontecendo. Ela mesma explicou: a ferramenta está ganhando um novo significado a partir da entrada desses contingentes novos de habitantes. Por isso, o Twitter do meu tempo servia para dinamizar a circulação de conteúdo relevante; agora, ele serve para o relacionamento desses adolescentes com seus ídolos e também para a mobilização em torno de causas sociais.

À luz do texto do HP e do comentário da Raquel, as motivação para os fluxos migratórios de site de rede social parece ser a mesma para mim e para os adolescentes americanos: estamos procurando possibilidades para falar para algumas pessoas mas não para todas. Esses movimentos, então, têm a ver com construir canais de relacionamento "no varejo"; canais que a gente possa acessar conforme a vontade.

O problema é que essa reflexão cria a deixa para a gente aprofundar a conversa sobre adoção de tecnologia. A conclusão acima é que a sociedade e a cultura são tão ou mais responsáveis pela adoção e abandono de uma ferramenta do que os engenheiros que a construíram ou os visionários que as idelizaram. A sociedade e a cultura "programam" os hábitos, os entendimentos e os significados que um determinado ambiente tem. E isso nos mostra um caminho incômodo por oferecer menos certezas.

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Cinese - ensine o que você sabe (e ganhe dinheiro com isso)

No começo deste ano eu recebi um convite para montar um curso de dois meses sobre etnografia para ambientes online para uma universidade aqui de São Paulo, mas depois que a proposta estava elaborada percebemos - eu e eles - que não ia dar tempo para o curso passar pelas etapas de aprovação no curto prazo. Resultado: o projeto foi para a gaveta.

Nessa época eu cheguei a considerar a possibilidade de realizar o curso de forma independente. Mas no final das contas achei que isso exigiria muito esforço ao mesmo tempo em que eu não tinha clareza do interesse que o curso geraria. Me lembrei dessa história conversando recentemente sobre o projeto Cinese. É bem possível que, se esse serviço existisse antes, o curso teria tido uma oportunidade maior de sair do papel.

Vamos imaginar quantas coisas existem por ai que atraem o nosso interesse e que a gente tem que aprender por conta própria porque não existem escolas para isso. Demora um tempo até uma determinada prática ser difundida a ponto de motivar instituições de ensino a abrirem espaço para aquele conteúdo. É que, por enquanto, a ideia de ensinar alguma coisa formalmente está muito amarrada à existência de escolas.

O Cinese oferece uma alternativa para juntar quem quer ensinar e o público interessado em aprender. Digamos que o Babe Terror resolva complementar a renda dele oferecendo um curso sobre criação musical usando a técnica que ele vem desenvolvendo. Ele pode formatar a proposta, publicar no Cinese e distribuir isso dentro da rede em que ele atua e que é constituída por pessoas interessadas no que ele faz. Se a proposta for conveniente para o público, o site intermedia o pagamento e a experiência rolará independentemente do envolvimento de uma instituição de ensino.

Acho essa perspectiva incrível por algumas razões. Primeiro, porque o serviço do Cinese responde a um problema prático. Uma determinada prática pode ser estimulada ao oferecer meios para o dono desse conhecimento comercializar seu know-how. Em outras palavras: o Cinese facilita que o hobby de algumas pessoas, aquilo que elas fazem por amor, se torne uma forma dessa pessoa se manter e, assim, se dedicar mais a esse assunto. E isso vale especialmente para práticas menos populares - tipo ensino de hieroglifo - ou novas, que venham sendo praticadas há relativamente pouco tempo, como aquilo que o Babe Terror faz.

Também me fascinou o contraponto que o Cinese faz à ideia predominante de como a internet pode contribuir com a educação e com a distribuição do conhecimento. A gente normalmente ouve falar de Ensino à Distância (EaD) ou da oferta de recursos em vídeo de disciplinas acadêmicas. Nesse caso, a rede digital favorece as oportunidades de ensino presencial fundado na prática, na experiência direta com um determinado tema e com as pessoas envolvidas com esse tema.

Falo disso e fico pensando, por exemplo, no meu cunhado que é astronomo e que é "forçado" a sobreviver, enquanto faz seu doutoramento, com bolsas que pagam pouco ou dando aulas de matemática e física em universidades privadas. Quantas pessoas em São Paulo não gostariam de ter uma "iniciação à astronomia", por exemplo, e pagariam por isso na medida em que - eu suponho - existem poucas escolas que oferecem cursos de astronomia para leigos? Para mim, todos serão mais felizes com essa possibilidade: ele, capaz de organizar melhor seu tempo e ganhar dinheiro fazendo o que gosta, e o público, tendo a oportunidade de aprender sobre astronomia sem precisar fazer vestibular e entrar na USP.

Você pode apontar que a USP ou outra instituição de ensino tem o "notório saber" e que pelo Cinese qualquer um pode dar uma de sabido e começar a ensinar astronomia. Essa é uma discussão longa e que tem ecos, por exemplo, no debate sobre a relevância do conteúdo da Wikipédia, conteúdo este que também é produzido em parte por "amadores". Mas há uma diferença, me parece, no caso do Cinese: é que a pessoa que se oferece para ensinar precisa ser convincente para atrair aprendizes e uma das maneiras de fazer isso é mostrando suas credenciais, inclusive as acadêmicas.

Enfim, esse texto já está muito maior do que eu gostaria. Existem mais coisas que eu poderia dizer sobre a experiência, mas fico por aqui. Podemos seguir a conversa na área de comentários. Só faltou completar a informação dizendo que o serviço, por enquanto, está aberto apenas para oferta de cursos gratuitos e isso faz parte da estratégia de lançamento, que visa tornar a proposta conhecida e trazer massa crítica para o site. Mas logo - não sei bem quando, vou perguntar - a possibilidade de pagamento estará disponível e funcionará via Pay Pall. Por que apenas Pay Pall? É que assim quem paga tem a garantia de receber o dinheiro de volta se aquilo que for oferecido não for entregue. Ou seja, é mais uma maneira de garantir o retorno para quem quiser participar.

PS - Depois de terminar esse post, "viajei" um pouco mais longe nas possibilidades de trabalho para mestres e doutores que hoje dão aula em escolas comuns ou universidades e que podem expandir seu cardápio de entregas com cursos tipo: "mitologia clássica e o universo de Tolken". Coisas que existem hoje em ambientes restritos como a Casa do Saber, mas que pelo Cinese podem alcançar outros públicos.

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A perda de relevância do #Twitter no #Brasil e a #oportunidade que isso abre

Há três anos eu escrevi e publiquei em formato digital, com o apoio luxuoso do Marcelo Tas, um dos primeiros manuais em português sobre como pessoas e negócios poderiam usar e tirar proveito do Twitter. Mas desde praticamente aquela época a minha dedicação a essa ferramenta vem caindo a ponto de ela ter hoje uma função específica e limitada na minha vida. Esse post é uma tentativa de entender e racionalizar o motivo dessa mudança.

Na mesma época do lançamento do manual do Twitter, Mark Zuckerberg esteve no Brasil e a assessoria de imprensa do Facebook convidou alguns blogueiros para papear com ele. Estive no evento - aqui a "prova" - e a única coisa que eu me lembro de ter perguntado a ele - e com jeitinho - era se o Facebook pretendia adotar um funcionamento parecido com o do Twitter. Porque para mim era claro que o Twitter era o supra-sumo da comunicação digital e portanto o adversário do Facebook no Brasil era o decadente Orkut, nunca o Twitter - aqui o meu post. Zuckerberg respondeu que não e hoje eu vejo que a escolha foi acertada.

No manual, eu comparava o Twitter a uma praça pública (onde todo mundo está junto) enquanto o Facebook era uma espécie de condomínio (porque há um limite físico imposto para as pessoas se encontrarem). O problema principal do Twitter é que, no final das contas, a gente precisa mais de um teto do que de uma praça. Mas como isso é mais uma frase de efeito do que uma resposta, vou apresentar os meus argumentos pessoais para estar usando o Facebook cada vez mais e de forma mais intensa.

Estar onde as pessoas estão - No Twitter estão a maior parte das pessoas ativas no meu campo de atuação. Mas elas também estão no Facebook, junto com todo o resto de pessoas conhecidas minhas que não se sentiram motivadas para abrir uma conta no Twitter. Eu tenho hoje 41 anos e a maior parte dos meus colegas de escola ou de faculdade usam o Facebook regularmente. E junto com eles, várias pessoas bem mais velhas, inclusive octogenárias, que abraçaram essa ferramenta com o mesmo (ou maior) fervor que dedicamos ao Twitter quando ele apareceu.

Quem lê tanta notícia? - O Twitter é um ótimo filtro de conteúdo, principalmente (para mim) para notícias relacionadas às novidades tecnológicas provenientes do Vale do Silício, a Meca da nossa indústria. O problema em relaçao a isso é que eu já tenho coisas demais para ler e prestar atençao e o Twitter amplifica a minha frustração em relaçao à minha incapacidade de estar por dentro de tudo. É interessante que não me sinto menos informado se eu escolho ignorar essa catarata de conteúdo. (Mas, por via das dúvidas, estou usando dois serviços - tipo este do próprio Twitter - que me mandam por email o conteúdo que mais circulou entre as pessoas que eu sigo.)

Ter menos auto-censura - Uma parte importante para mim, pelo menos, em relaçao ao Twitter, era falar com uma parcela relativamente pequena de pessoas que eu conheço pessoalmente e com as quais eu me identifico. O problema é que, na medida em que a gente cultiva uma audiência, passa a se preocupar com o que "as outras pessoas vão pensar" se eu disser isso ou aquilo. A minha voz sempre alcançou relativamente pouca gente, mas, ao mesmo tempo, eu me vi "corporatificando" esse canal. Se eu quisesse falar qualquer coisa mais pessoal ou tola, acabava me censurando. O Facebook tem uma solução melhor acabada para resolver essa questão. Falo com públicos diferentes definindo blocos de contatos diferentes tipo "melhores amigos", "família", etc. (Está longe de ser ideal, mas, até onde eu entendo, é sensivelmente melhor do que o Twitter nesse quesito.)

Independente do motivo, tenho ouvido cada vez mais recorrentemente, em conversas com outros profissionais desse mercado, sobre a perda da relevância do Twitter. Dizem que as pessoas estão seguindo mais gente e prestando cada vez menos atençao na conversa. E isso representa um problema sério porque, até onde eu sei, o "feijão-com-arroz" do monitoramento de internet hoje se limita a ver o que as pessoas estão falando no Twitter. Isso é feito com maior ou menor sofisticação, mas é feito fundamentalmente porque a conversa via Twitter é pública, o que não é verdade para o Facebook.

Só o Facebook tem acesso real a tudo o que está acontecendo lá dentro e o tema dos direitos de uso (quem pode fazer o que com as informações compartilhadas) é um assunto delicado para a empresa. Me lembro de duas situações em que a empresa levou a cabo modificações nesse documento e, por causa disso, teve que gerenciar crises por conta da revolta de usuários preocupados com sua privacidade. Traduzindo: o "tesouro" das conversas que a sociedade tem consigo mesma está de mudança de uma savana onde tudo é mais ou menos visível para um pântano com vegetação densa. Já não vai dar para vender qualquer coisa que preste por qualquer dinheiro nesse campo do monitoramento. O jogo mudou de fase e a dificuldade aumentou.

E mesmo o que era a outra grande vantagem do Twitter - a possibilidade de se falar com públicos vastos - já está satisfatoriamente resolvida com o serviço de páginas do Facebook.

Para onde estamos indo - Pessoalmente acho que o Facebook seja uma plataforma de comunicação mais completa do que o Twitter, que ficou em segundo plano. Não estou sugerindo com isso que o Twitter vá desaparecer ou que já não tem utilidade para o mercado. Ele continua sendo importante para pessoas importantes, grandes formadores de opinião que estabeleceram uma relação de sinergia com suas audiências. Eles não deverão abandonar essa plataforma tendo conquistado ali o status de serviço de informação. Essas personalidades inverteram o jogo da mídia: em vez de dependerem dos veículos para falar publicamente, agora são os veículos que disputam suas declarações pelo Twitter. Fora que, diferente da página do Facebook, o perfil no Twitter dá a impressão (que pode ser mais ou menos verdadeira) de se estar próximo ou mais próximo aos nossos ídolos. A página do Facebook ainda tem aquele cheirinho de plástico e produto de limpeza das corporações. Lá continuamos com a sensação de sermos mais um na multidão.

A minha principal conclusão sobre esse assunto é meio óbvia, mas talvez importante de ser dita publicamente: há uma oportunidade de negócios esperando quem encontrar modelos de monitoramento para extrair valor da informação que circula no Facebook. E o interessante é que a solução para isso provavelmente será menos tecnológica e mais metodológica. Terá a ver com estar de fato presente na ferramenta e atuando na vida das pessoas - ao contrário de antes, quando esse monitoramento consistia em se ter acesso a certos serviços e ficar como um voyeour observando a vida à distância.

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Aprendizado; como as pessoas aprendem sem professores e escolas; o que a internet tem a ver com isso

Aprendizagem é um assunto que me interessa, especialmente relacionado à participação em redes. Como nós aprendemos em ambientes não-estruturados, ou seja, sem professores e sem escolas. Por uma certa coincidência, acumulei neste último mês um certo volume de conteúdo sobre assuntos relacionados a esse e fez sentido montar um postzinho juntando isso tudo. Infelizmente o conteúdo está todo em inglês.

Este vídeo animado dá o sentido do argumento: o que há de errado com a educação como ela existe hoje.

Mike Wesch é um dos meus idolos hoje. Pra começar, ele é antropólogo e conseguiu "hackear" criticamente a cabeça de muitas pessoas a partir de suas reflexões sobre novas mídias. Neste vídeo ele argumenta sobre a importância de o aprendizado estar associado à prática do conhecimento.

Jean Lave é a antropóloga que aparentemente mais contribuiu para o entendimento da prática do aprendizado. Estas duas palestras recentes ajudam a gente a pensar e a entender como tantas pessoas aprendem usando a internet apesar da ausência de ambientes estruturados de ensino. Isso vale para inúmeras circunstâncias, inclusive, por exemplo, o aprendizado sobre a participação no universo dos vlogueiros, que é um dos temas deste meu estudo.

Este projeto ilustra a reflexão da professora Lave indicando como crianças de uma favela na Índia aprenderam a usar um computador sem saber inglês e sem ter nunca mexido nesse tipo de máquina antes.

A mesma ideia aparece neste projeto piloto do Reino Unido, que é inspirado nas oficinas medievais. O problema que pôs em movimento esta ideia foi o fato de uma parte significante dos estudantes britânicos não enxergarem valor na educação oferecida nas escolas ao mesmo tempo em que o mercado reclamava da falta de qualificaçao da mão de obra que estava saindo das escolas. A solução está mostrando a possibilidade de transformar os alunos mais problemáticos em empreendedores em busca do conhecimento que eles precisam para realizar seus projetos.

Depois desta série mais teórica sobre aprendizado, reuni a seguir outras referências de experimentos no âmbito da educação relacionado à internet. Aqui, o experimento de aproveitar estudantes de uma escola para ensinar sobre tecnologia para professores.

Este vídeo de 20 minutos apresenta o case do projeto Coursera, uma solução de e-learning que oferece uma plataforma para solução de problemas e avaliação junto com aulas dos melhores cursos universitários do mundo. "De grátis".

Este slideshow publicado na Mashable traz sete alternativas para quem quer ser um autodidata e apresenter o que for de seu interesse usando a internet. Entre as alternativas apresentadas estão Codacademy, Khan Academy e o MIT Open CourseWare.

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Rede de recomendação de bons profissionais liberais

Hoje eu estava na cadeira da minha dentista e me perguntei se não faria sentido existir um modo de a gente recomendar para os amigos esse tipo de profissional.

Eu recomendaria com prazer o trabalho da minha dentista dentro do meu círculo de relacionamentos. Eu confio no trabalho dela, o que torna essa divulgação boa para todos.

Meus amigos que estiverem precisando de uma indicaçao terão o contato de um profissional competente e ela poderá expandir sua base de clientes.

Fico pensando como isso poderia ser uma alternativa a depender de consultar o guia médico do plano de saúde.

Alias, essa poderia ser outra informaçao importante: ao se cadastrar, a pessoa pode indicar seu plano de saúde para os contatos saberem se o profissional indicado está disponível pra eles.

Não acho que isso seja algo particularmente difícil de ser desenvolvido. E hoje a "casa" natural desse serviço é o Facebook.

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