O que muda nos espaços públicos online - uma palestra para avestruzes

Tive o privilégio de assistir hoje uma palestra com danah boyd. Graças à internet - aqui. Quem não quiser gastar uns 45 minutos, pode ler o resumo que eu fiz em português, da apresentação dessa especialista em sites de network social em uma universidade australiana.

Devo esclarecer aos leitores que este texto, na verdade, é um remix elaborado de acordo com as minhas limitações de tempo e de memória, e também a partir da minha filtragem determinada pelos assuntos que me chamam mais a atenção. Se alguém quiser ajudar apontando erros de digitação ou redação, é só usar a área de comentários.

Breve histórico da internet enquanto espaço público

A presentação começa contando a história resumida da internet enquanto espaço para o relacionamento público. Ela fala da Usenet do começo dos anos 80, onde pessoas com interesses específicos se encontravam para conversar - donos de gatos, por exemplo. Mas não havia como controlar os limites; a regulamentação dependia de forças sociais, o que deu margem simultaneamente à entrade de spammers e ao aparecimento de pessoas interessadas em fazer bagunça, ofender e se divertir às custas dos participantes seriamente envolvidos na discussão.

O segundo da internet enquanto espaço público se deu com o aparecimento de ambientes com maior infraestrutura de controle como listas de discussão e murais, onde os donos de cada comunidade tenham mecanismos para calar ou expulsar usuários indesejados. Isso foi seguido por um desvio de atenção provocado pelo boom da internet comercial, que levou o foco para o comércio eletronico e para as oportunidades relacionadas ao marketing.

Depos da bolha estourar as pessoas passaram a se perguntar o que no fundo eram as coisas legais da internet e chegaram a dois itens:

- difusão da informação: capacidade de transmitir massivamente informação a baixo custo, o que levou ao questionamento de quem tem direito de acessar essa informação.

- comunicação: a possibilidade das pessoas se organizaram em torno de comunidades e de trabalhar colaborativamente.

Se na época da usenet e dos primeiros anos da internet pessoas se organizavam ao redor de tópicos, no contexto pós-bolha essa organização passou a ser mais egocentrada, ou seja, cada pessoa estabelecendo um espaço para escrever suas opiniões, estabelecer quem eram seus amigos. É quando os sites de network social começam a se popularizar.

Sobre sites de network social

O Friendster, surgido entre 2002 e 2003, não foi o primeiro deles, mas foi o primeiro case importante porque 300 mil pessoas se inscreveram no serviço antes que a grande mídia tomasse conhecimento dele. Foi uma febre inicialmente deflagrada pela participação de tres grupos distintos: geeks, freaks e queers, ou seja, nerds, alternativos e homossexuais.

O elemento curioso sobre o Friendster foi que originalmente ele foi criado como um site para competir com o match.com, um site de namoro, oferecendo um diferencial em relação a ele: ao invés de voce conhecer pessoas desconhecidas, voce teria acesso aos amigos dos seus amigos, o que aumentava o grau de segurança do usuário. Mas a ferramenta passou a ser usada para outras finalidades pelos usuários, e ao invés de se adaptar a eles, os administradores passaram a combate-los e expulsá-los.

Nesse momento, em 2004, apareceu o MySpace, que é o maior sns em funcionamento nos estaods unidos hoje.

Os sns tem tres caracteristicas comuns:

- Perfil: um espaço para voce expressar a sua identidade apresentando referencias que juntas compõe a sua personalidade.

- lista de contatos: o nome mais comum usado para se referir a contato é "amigo", mas as pessoas de uma lista de contato não são necessariamente amigos. O espaço para os contatos representa a um esforço de se construir uma audiência, de se pensar com quem imaginamos estar conversando.

- comentários: recurso que no Orkut se chama "scrap" não serve exatamente para a comunicação, mas enquanto espaço para voce ver e ser visto, para cada pessoa mostrar com quem ela está se relacionando de maneira a definir seu status social.

As diferenças desse novo espaço público

Em muitos aspectos esses sites de network social lembram os nossos espaços públicos: são ambientes para vermos e sermos vistos e para expandirmos os nossos relacionamentos. Mas existem diferenças importantes entre um e outro que geralmente não levamos em consideração:

- Persistencia: A informação que voce joga dentro desse espaço público não se perde, ela se mantem.

- Buscabilidade: qualquer pessoa poderá recuperar essa informação usando ferramentas de busca.

- Gravabilidade: esse ambiente é dificil determinar o que é criado e o que é copiado.

- Audiência invisível: é uma coisa que os jornalistas aprendem a lidar, que é falar com um público que não se vê. Essa geração vive essa situação como default para seus relacionamentos públicos. Geralmente, quando falamos, tentamos entender o contexto para decidr se vamos obedecer suas regras ou burla-las. Parte do desenvolvimento se refere à educação para se perceber os contextos. Nem todos os contextos têm as mesmas regras - o que é permitido fazer em uma praia não é bem visto em um auditório durante uma palestra, por exemplo. E dentro desses ambientes, não existe um contexto definido.

boyd apresentou dois exemplos. O primeiro é de um lider político que sempre que se dirigia a audiencias de raça branca e educada do norte do país falava em ingles correto, e quando falava com negros do sul, falava usando girias. Ele não soube o que fazer quando nos anos 60 se viu diante da necessidade de falar pela TV. Com qual de suas caras ele faria o pronunciamento?

O outro exemplo foi de um adolescente negro de um bairro de gangues de Los angeles, que enviou uma redação para ser aceito em uma universidade, falando que queria sair de seu bairro para se distanciar das gangues e da violência, que ele não compactuava com aquilo. A pessoa encarregada de fazer a seleção entrou na perfil do MySpace desse garoto e ele estava cheio de simbolos de gangues. Ele estaria mentindo? Aí é importante perceber o contexto. Para quem não conhece o bairro, sim, mas para sobreviver ali dentro, inclusive por segurança, ele precisava demonstrar que se identificava com a cultura local.

Dentro dessas comunidades, estamos sempre pensando que apenas os nossos amigos estão nos vendo e não temos idéia da escala, de que o pai ou o empregador poderão eventualmente consultar a internet para saber quais são as nossas "verdadeiras" motivações. Será que uma pessoa que vive na balada quer que seu chefe saiba disso? E mais, como avestruzes, tendemos a ignorar, por exemplo, que as ferramentas de marketing estão cada vez mais eficazes na função de detectar padrões para entender a audiência independente dela dizer ou não seu nome verdadeiro, sua idade. Afinal, o que é público e o que é pessoal com a internet? Não estamos aprendendo a tratar dessas questões.

Oportunidades abertas para a educação e o desenvolvimento da cidadania

Sites de network social oferecem uma oportunidade particular para expor jovens ao debate e à conquista de assuntos de interesse público. boyd usou como exemplo uma situação recente, motivada pela crise relacionada ao tema da imigração nos Estados Unidos. Adolescentes de origem latina, nao se sentido devidamente ouvidos no contexto das grandes manifestações recentes, mobilizaram, usando a internet, 50 mil estudantes, que no dia e hora marcados saíram das escolas e foram para a frente da prefeitura protestar. Desde o Vietnam que tantas pessoas não se reuniam publicamente, mas isso foi tratado pela polícia e pela justiça como uma ação ilegal; a grande mídia nao noticiou.

As questões envolvendo contexto devem se complicar na medida em que existem cursos para ensinar sobre literatura mas não para ensinar a entender e interpretar e documentos em vídeo. O que é real e o que não é quando se tem na internet acesso a tanta informação que muitas vezes aparece descontextualizada o que pode levar a interpretações preconceituosas.

Ainda referindo-se à utilização da internet para a educação, boyd disse que não é possível usar SNS exclusivamente para finalidades educativas porque os SNS são espaços públicos e são apropriados para funções diversas.

Finalmente ela falou sobre a oportunidade educativa de se usar a wikipedia em sala de aula. O debate em relação a essa enciclopédia vem se resumindo a definir se a informação está certa ou errada. boyd sugere que a wikipedia seja usada para se aprender como o conhecimento é construído, por exemplo, comparando o texto do livro didático ao verbete para se explorar as diferenças e as semelhanças, também para se observar as fontes usadas em cada um desses documentos e no verbete, se observar o histório para ver como o texto foi sendo moldado.

Comments

Ju, quero conversar contigo sobre cases de Educação... URGENTE!

enquanto isso, aproveita e dá uma olhada aqui (blog do gringo que vi falar na Abril, vai virar livro tb):

http://blogs.forrester.com/charleneli/2007/05/groundswell_the.html

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