Coleção de perguntas e respostas sobre o livro Conectado e a internet

Principalmente por conta do lançamento do Conectado, eu venho sendo procurado para falar sobre internet e colaboração online. Como às vezes o material não sai integralmente ou como algumas perguntas tendem a se repetir, vou tentar manter este espaço atualizado com um resumo das questões e também das respostas. Quem sabe acaba virando outro livro! ;-)

Você opta por não usar o termo Web 2.0 . Por quê?

Web 2.0 é um termo vago. Ele sugere ao usuário menos informado que essa nova internet é melhor, mas não explica como ou por quê. Nós, que trabalhamos na indústria desde antes do estouro da bolha, sabemos como o aquecimento do mercado favorece o aparecimento de modelos de negócio baseados em idéias mirabolantes de pessoas que querem tirar proveito da moda. Não acho que a O'Reilly Media, que lançou o termo, tenha sido mal intencionada. Eles são muito competentes. Mas como o conceito é vago, um site com um blog pode ser vendidoa como Web 2.0. Eu simpatizo mais com o termo "mídia social", que apesar de não ser perfeito, sugere uma forma de comunicação produzida socialmente. Gosto também de falar em internet colaborativa e esses dias li no blog do José Murilo Jr o termo web ao vivo, que se contrapõe às plataformas de comunicação on e offline onde conteúdo é predominante ou inteiramente estático.

Um dos aspectos interessantes de seu livro é que você trata os blogs como uma ferramenta colaborativa e de publicação de conteúdo tão importante quanto os wikis. Você não acha que existe muito fetiche em torno dos blogs? Ou melhor - atualmente, existe uma supervalorização do uso da ferramenta blog?

De jeito nenhum. Apesar de eu trabalhar desenvolvendo e dando manutenção a ambientes colaborativos há vários anos, só recentemente comecei a me envolver com blogs. É uma ferramenta incrivelmente simples e que propicia uma experiência libertadora: a de conversar com audiências. Se você se interessa verdadeiramente por um assunto, o blog é a melhor maneira para você encontrar interlocutores, e isso pode aumentar muito o capital social de uma pessoa.

Você comenta que o mercado de internet no Brasil tem caráter mais reativo. Espera algo fazer sucesso lá fora para depois implantar aqui - vide blogs, videocasts, wiki. Pesam para essa característica do mercado a falta da "figura do investidor de capital de risco" e o fato do bolo publicitário para a internet ser pequeno, ou esses dois aspectos não são causas, mas conseqüências do mercado de internet brasileiro ser mais reativo do que ativo?

Acho que muita gente está vendo a internet como um caminho para se ficar milionário. O YouTube foi comprado pelo Google por US$ 1,65 bilhão, a News Corp pagou US$ 680 milhões pelo MySpace. Mas ninguém sabe ao certo como reaver esses investimentos. O projeto que tem mais perspectiva de dar certo na Web é aquele que efetivamente transfere poder para as pessoas. O Craigslist é uma alternativa gratuita e eficiente aos classificados pagos. O Prosper.com (link em inglês) oferece empréstimos P2P com juros infinitamente mais competitivos que os dos cartões de crédito. A Amazon chegou onde está justamente por permitir que as pessoas falem umas com as outras o que pensam dos produtos. Quem estiver disposto a correr esse risco, sairá na frente.

Você comenta que saber ler e escrever são condições básicas para aproveitar a comunicação em rede. Neste sentido, como você vê o projeto do laptop de US$ 100?

Antes do boom da internet comercial, em meados dos anos 1990, os profissionais que mediam o interesse dos consumidores não botavam fé na web. Nada em suas pesquisas indicava que um número significativo de pessoas trocaria o controle remoto e o sofá na frente da TV pelo desconforto da cadeira, do teclado e do monitor como forma de entretenimento. Meu amigo André Passamani me contou que viu crianças de rua pedindo aos clientes que saiam de uma lanchonete do Mac Donalds, não esmolas, mas a nota fiscal da compra para elas poderem acessar a internet. Tenho um amigo que se referiu ao SoulSeek, um site de troca de arquivos de música, como uma ferramenta de conhecimento pela qual ele explora coisas - peças de arte, palestras, livros em audio - que de outra forma ele dificilmente teria acesso. Eu acredito que o projeto do laptop de US$ 100, se implantado, terá um impacto muito mais profundo que teremos condições de perceber no curto prazo.

Em todo o livro você escreve sobre mídia social a partir das limitações e necessidades do mercado e do usuário de internet no Brasil. Em relação às mídias sociais e colaborativas, de forma resumida, o que funciona lá fora e que não dá certo aqui? E por quê?

O brasileiro dá muito valor ao relacionamento. Coisas que sejam objetivas e impessoais talvez interessem menos do que ferramentas que estimulem os participantes a criar e cultivar vínculos. Por exemplo, o projeto Viva São Paulo está no ar desde 2004 e nesse período, internautas de todas as idades publicaram espontaneamente mais de seis mil relatos biográficos relacionados à vida na cidade de São Paulo. E eles fazem isso não para se sentirem importantes, mas para lembrar coletivamente. Um fragmento de memória repercute no grupo de participantes e elas vão recuperando partes de suas histórias que ficaram perdidas no tempo. Um dos elementos fundamentais desse site é o espaço de comentários. É lá que as pessoas se relacionam.

Após a publicação desse livro, o que você espera do uso da internet no Brasil?

Espero que o livro ajude a radicalizar a experimentação em torno das ferramentas sociais e colaborativas. Existe um grande mercado de trabalho a ser desenvolvido, que envolve a formação de profissionais para criar, implementar e dar manutenção a esses ambientes. Apesar da reserva de mercado nos anos 1980, que limitou bastante o nosso desenvolvimento tecnológico, temos índices muito altos de utilização da internet. O Brasil pode ser um espaço de encubação de projetos desse tipo.

Como surgiu a idéia do livro Conectado?

A proposta do livro é radicalizar a distribuição do acesso à mídia. Graças à internet, uma pessoa conversa com grandes audiências usando apenas um PC e uma conexão. Mas cada um vai aprendendo mais ou menos intuitivamente como esse novo veículo funciona. A idéia é oferecer um manual para ensinar como funciona a comunicação pela internet.

Quais suas principais preocupações ao redigir o livro?

Eu me preocupei em não escrever um livro panfletário, alardeando a idéia de que a internet seja a resposta para os problemas do mundo. Também tive o cuidado de não escrever um livro acadêmico com a pretensão de entender "o fênomeno da internet". O desafio foi manter o foco no leitor não-especializado, que pode ser o menino recém alfabetizado e também o doutor, passando por profissionais de todas as áreas e níveis de instrução.

Como o livro continua na web?
Criamos um blog que pode ser acessado pelo endereço www.naozero.com.br. Ele serve para demonstrar uma série de conceitos apresentados no livro. Lá tem uma nuvem de tags, por exemplo. O nome é meio assustador mas vendo funcionar, aquilo passa a fazer sentido. Outro propósito do blog é abrir espaço para as pessoas interessadas no assunto se encontrarem umas com as outras e também com o autor para trocar idéias.

Desde quando a internet começou a aproximar as pessoas umas das outras?

Desde que as primeiras experiências de comunicação grupal apareceram no começo dos anos 70. Foi nessa época que surgiu o termo "groupware", que junta as palavras "group" e "software", e que foi o primeiro nome dado à plataforma que propicia a comunicação de vários com vários ou muitos com muitos.

Qual a principal diferença que a web exerceu nas pessoas enquanto mídia? Queria que você a comparasse com as mídias tradicionais.

Antes da internet eu podia me comunicar com outras pessoas usando o telefone ou veículos de broadcasting. O telefone servia para a interação. Os participantes falam e escutam, mas a conversa fica restrita a poucas pessoas. Já o rádio, a TV e os jornais atingem grandes audiências, mas poucos falam e a maioria escuta. A internet justou esses dois modelos permitindo a comunicação de duas vias entre várias ou muitas pessoas. É o que acontece, por exemplo, no scrap do Orkut ou em uma lista de discussão: todos os participantes podem receber e transmitir mensagens entre si.

Como o comportamente em rede influencia a rotina das pessoas?

A rede funciona a base de informação digitalizada. O que eu disser pode ser reproduzido infinitas vezes. Isso afeta, por exemplo, a capacidade de coordenação das pessoas. Antes da Web, para fazer uma pesquisa de preços eu precisaria fazer muito mais esforço do que hoje. Além disso, eu não dependo dos veículos tradicionais de mídia. Antes, eu comprava um CD, achava uma porcaria, e essa informação chegaria apenas às pessoas do meu convívio direto. Hoje, eu posso publicar uma resenha no site de compra e isso influenciar na decisão de outros consumidores.

Quanto de humano há na web? Por mais virtual e hi-tech que a rede possa parecer para quem ainda não está familiarizado, ela é, por sua definição, uma mídia mais humanizadora, não?

A Web, em muitos aspectos, é tribal. Veja, por exemplo, que muitos profissionais oferecem informação de graça pela rede que eles cobram em outras situações. E eles oferecem esse conhecimento online para ganhar reputação e poder ser ajudado quando precisarem. Esse tipo de comportamento é tribal, é familiar. A Web é uma ferramenta que aproxima quem está longe, facilita a comunicação entre as pessoas. Quer mais humano que isso?

E o tempo de quem vive online quase full-time? Alvin Toffler diz desde os anos 70 que estamos mudando radicalmente o paradigma de tempo graças a esta conexão global que vivemos hoje. O quanto nós queremos mudar isso - e não apenas estamos nos adequando a um formato exigido pela tecnologia?

O meu livro se chama "conectado" por causa disso. Por um lado a internet liberta, mas ao mesmo tempo ela prende, cria dependência. Muitos amigos meus, especialmente os mais jovens, entram em transe quando estão conectados. Eles falam no telefone, conversam pelo MSN, leem e respondem emails e ainda ficam navegando pela rede lendo notícias. Kevin Kelly, fundador da revista Wired, a bíblia da tecnologia, diz que a Web é o primeiro experimento de inteligência artificial bem sucedido da história, e que o destino da nossa espécie é nos tornarmos parte desse novo organismo. Para ele, não importa se nós queremos ou não mudar. Logo seremos parte de um Matrix e as pessoas vão preferir usar o Google a usar suas memórias. Mas outras pessoas vêem a internet de maneiras diferentes.

Comunidades, fóruns, salas de bate papo e áreas de comentários propiciam o anonimato nestas mesmas festejadas redes. Como lidar com isso?

O anonimato é um componente importante. Ele não precisa existir. A pessoa pode sempre querer se identificar. Mas ele deve estar disponível. O site de tecnologia SlashDot tem uma solução interessante. Para postar, a pessoa deve estar logada, mas ele pode escolher que seu nome não apareça.

Muito se fala da internet como um veículo individualista e sectário, enquanto esse comportamento de rede parece provar justo o contrário, não?

Concordo. O blog é uma manifestação completamente individual, mas o blog perde o sentido sem a blogosfera, sem links para blogs que falam de assuntos semelhantes. O blog é uma ferramenta individual para reduzir o ruído. Em ambientes como fóruns e murais de mensagem, por exemplo, pode sempre aparecer alguém para provocar a comunidade e fazer bagunça. Esse ruído quase não afeta o blog, porque ele é descentralizado. Cada um tem o seu. Mas cada pessoa escreve estabelecendo diálogos com outros, comentando posts e notícias e exercitando o debate e a reflexão. Isso não tem nada de solitário.

Até quando haverá a distinção entre online e offline? Vale arriscar alguma previsão?

Para as pessoas que têm condições para acessar a rede, essa distinção deve acabar nos próximos 15 anos, quando a primeira geração de crianças que nasceu com a internet assumir seus postos no mercado de trabalho. Para eles online e offline são o complemento um do outro. Agora, tem muita gente no planeta que não sabe escrever. Nesse caso, não tenho previsão.

Quais seus próximos passos, uma vez que o livro foi lançado?

O Brasil é um caso interessante na internet porque o usuário brasileiro se adaptou muito bem ao uso de softwares sociais, mas ainda não geramos um grande case. O Orkut e o YouTube!, maiores sucessos da Web aqui, foram desenvolvidos fora. Eu gostaria muito de colaborar para mudar esse cenário, ajudando a desenvolver softwares sociais implementados aqui e que venham a ser aproveitados no resto do mundo.

Você é formado em história pela USP, quando é que resolveu trabalhar com a internet e por que?

Desde criança eu fui fascinado pelos computadores. Tanto insisti que compraram para mim um. O caso é que eu nunca tive concentração para aprender a programar. Anos depois, por volta de 1990, eu estava na faculdade e experimentei pela primeira vez a comunicação grupal: muitas pessoas, não necessariamente conhecidas entre si mas com interesses em comum, trocando idéias. Na sequencia veio a internet comercial e as salas de chat do UOL. Me fascinou conversar em tempo real com pessoas desconhecidas espalhadas pelo mundo. Ali eu decidi que deveria trabalhar com aquilo. Tanto fiz que acabei tendo uma oportunidade. Fui ser editor de notícias da StarMedia. Mas aquilo ainda não era o que eu estava procuranto. Até que um dia, vi um chat moderado com um artista sertanejo. Fiquei muito impressionado com a pertinência das perguntas enviadas e em como aquilo retro-alimentava o evento, ou seja, uma pergunta interessante estimulava o aparecimento de perguntas e respostas cada vez mais interessantes. Foi aí que a minha carreira começou.

Como foi seu primeiro contato com os blogs?

Eu estava na StarMedia. Acho que foi no final dos anos 1990. Criei um blog pelo Blogger, mas não deu muito certo. O blog não é complicado de ser operado, mas para funcionar, exige que o autor tenha claro o que quer fazer com ele. Esse é o truque. Eu sinto vontade de atualizar o www.naozero.com.br porque ele funciona simultaneamente como caderno de notas, espaço de promoção profissional, ambiente de troca de idéias e plataforma de expressão pessoal e independente. É uma delícia!

Você é um estudioso da mídia participativa e da cross-midia. Os blogs são a melhor forma de interação na internet? Ou orkut, wikipédia têm relativamente mais participação dos usuários?

Cada ferramenta tem sua utilizade. Estou apostando que estamos caminhando para o surgimento de uma ferramenta integrada, uma solução única para a pessoa se comunicar com comunidades (email) e audiências (blog) usando o network social como ligação entre conhecidos e o público.

Até que ponto essa participação é eficaz? Por exemplo, na wikipédia os verbetes são preenchidos pelos usuários da rede, sem qualquer edição ou filtro. Esse conteúdos gerados na rede têm credibilidade?

A Wikipedia tem edição e filtro, sim. Existem usuários com participação mais constante que supervisionam as modificações feitas em páginas com artigos mais visados. Se voce, por exemplo, tentar mudar o verbete sobre blogs na Wikipedia em inglês, a menos que sua mudança seja pertinente, ela não ficará no ar mais do que alguns minutos. A questão é que as pessoas que escrevem os verbetes nem sempre tem o "notório saber" para falar sobre determinado assunto. Esse é o tema polêmico. Mas não se trata de uma negação do conhecimento acadêmico. Os participantes compartilham o que sabem. A vantagem da Wikipedia não é ela ser absolutamente correta, mas estar ao alcance de qualquer pessoa que esteja conectada, e também o fato dela ser atualizada muito rapidamente. Se houvesse uma solução compatível e que fosse garantida e sem erros, sem dúvida a Wikipedia seria abandonada. Por enquanto, é o melhor que temos.

Os blogs crescem cada vez mais e já deixaram de ser apenas diários virtuais. Nos EUA, há blogs "furando" os jornais. Você acha que os profissionais da midia podem perder espaço com essa nova realidade?

Os profissionais da mídia tem uma grande vantagem em relação às outras pessoas no que diz respeito à internet: eles deveriam saber se expressar mais facilmente porque esse é um dos elementos da profissão. Mas isso vem junto com uma desvantagem: esses profissionais tendem a desenvolver na faculdade um sentimento de propriedade em relação à comunicação em esferas públicas. Eu acredito que essa função, cada vez mais, deve ser exercida por mais pessoas. O blog é mais que um diário pessoal, é a extensão da pessoa na rede, um espaço para ela se posicionar em relação a assuntos de seu interesse e também para fazer networking. Agora, isso não impede que existam comunicólogos que se dediquem integralmente a esse assunto. A questão é que ainda não está claro quais serão as atribuições desse novo profissional. O Conectado é uma tentativa de formatar um curso sobre comunicação grupal.

Você diz, em uma entrevista, que a partir do momento em que o blog se torna o principal meio de vida de alguém ele passa a viver submetido as mesmas necessidades dos profissionais. Isso implicaria em, por exemplo, procurar uma formação específica?

Como eu disse, eu vejo o blog como uma ferramenta de comunicação eminentemente amadora e de expressão pessoal. Tenho a sensação de que o blogueiro profissional não é diferente de um jornalista.

Seu livro, Conectado, é um manual para os usuários da rede, que descreve o funcionamento de sites e softwares participativos. Quanto tempo levou a pesquisa para o desenvolvimento do livro e o que de mais surpreendente você
descobriu nesse período?

Passei dois anos pesquisando e escrevendo até o Conectado vir ao mundo. Foi uma longa gravidez. Um dos momentos surpreendentes para mim foi quando uma revisora paga pela editora passou a se dedicar integralmente à correção do meu livro. Foi muito gostoso perceber que outra pessoa estava dando seu tempo e experiência profissional para melhorar uma coisa que eu tinha feito. Outro momento de surpresa, dessa vez não tão bom, foi quando vi o livro na livraria pela primeira vez. Parecia um filho que eu deixava pela primeira vez na porta da escola. Tinha chegado a hora dele se virar sozinho.

Você é um defensor do open source (mais completo em inglês). Mas, porque não disponibilizou gratuitamente seu livro na rede?

Em poucas palavras, porque o open não se opõe ao mercado, como aponta o professor Yochai Benkler, autor do livro mais importante sobre esse assunto, The Wealth of the Networks, na opinião de intelectuais importantes como o Lawrence Lessig. Entre outros motivos, optei por lançar o livro apenas em papel porque a participação da editora Jorge Zahar adicionou muito valor ao livro, desde o valor do endosso, passando pela contratação de revisores, ilustradores, capistas e muitos outros profissionais, até a distribuição feita para todo o país. Tenho certeza que se o livro tivesse sido lançado apenas online em PDF, voce nem teria ficado sabendo dele e se tivesse, dificilmente se daria ao trabalho de ler, justamente porque eu não sou conhecido e porque existe conteúdo demais na rede, um total overload de informação.

Com suas experiências no exterior, como você compara o ambiente digital brasileiro ao de outros países? Quais considera as características típicas dos usuários brasileiros? Em que aspectos (positivos e negativos) eles mais se diferenciam?

o brasileiro tem uma condição curiosa. é rato de web, adora se relacionar, mas suas mobilizações até agora tiveram pouca profundidade. acho que a comunidade online brasileira ainda não deu seu grito de guerra.

No campo de ações colaborativas, que bons exemplos temos no Brasil? Há potencial para crescimento? Quais suas perspectivas?

as melhores ações vieram de fora - wikipedia e youtube, por exemplo. o maior case da internet brasileira é resultado de uma invasão. invadimos o orkut e expulsamos inclusive os americanos.

acho - e não sou o único a pensar assim - que o brasil poderia testar e depois exportar ações colaborativas. mas isso ainda está amadurecendo no país. os grandes portais fazem mídia online tradicional, unidirecional - poucos falam, muitos escutam. falta um grande caso, um slashdot, um digg, um veículo que mostre a fragilidade do broadcast nos dias de hoje.

quando isso acontecer, os veículos de comunicação começarão a levar a sério a internet, não para terem o resultado financeiro - única motivação atualmente - mas para continuarem vivos.

Ao falar em comunidades online, é praticamente impossível não mencionar a predominância de brasileiros em sites de relacionamento como o orkut, por exemplo. Em sua opinião, a que se deve isso?

é difícil atribuir um motivo. a legislação brasileira é complicada e arcaica, a justiça é lenta. oficialmente não existe 'fair use', a possibilidade de fazer citação, remixar um conteúdo registrado. assim tudo vira pirataria. e a liberdade de expressão aqui é limitada. uma declaração racista, por exemplo, é crime. isso torna os sites brasileiros muito vulneráveis, o que acaba favorecendo empresas internacionais. por exemplo, se dependesse da justiça brasileira, orkut e youtube, os maiores sucessos da internet aqui, estariam fora do ar.

Quanto ao Campus Party, você já participou de alguma edição anterior? Se sim, como foi essa experiência?

Não, mas vi fotos que me deixaram com agua na boca.

O que você acha que representa para o Brasil sediar um evento desse porte? É possível dizer que o país já está consolidado como um importante pólo digital?

Potencialmente somos um polo importante. Apesar das desigualdades do país, temos muitos internautas, o que nos torna um mercado tentador. Encontros como esse podem acelerar o amadurecimento da sociedade online, tirando poder de instituições e passado-o para indivíduos e grupos descentralizados.

Quais suas expectativas? Como será sua participação no evento? Você estará presente todos os dias?

Acho que vai ser incrível! É um evento sem grandes nomes. Ninguém é audiência, todos são participantes. Ninguém vai ficar sentado muito tempo ouvindo. As pessoas vão para aprender e ensinar. Essa é a dinâmica.

O prédio da Bienal vai se tornar um grande formigueiro, gente com experiencias e vivências diferentes se encontrando, se conhecendo, trocando idéias. E nada de ir pra casa. Aliás, essas são as duas coisas que diferenciam o evento: diversidade e imersão. De 11 a 17 vamos criar muitas realidades alternativas, juntar projetos, amarrar conexões, sincronizar agendas.

As sementes plantadas nesse evento deverão frutificar durante muito tempo.

E o que você destacaria na programação do Campus Party?

Olha, eu pretendo participar da oficina para usar software livre para remixar música e também de outra para construir projetores de parede caseiros - esses que custam super caro e servem pra projetar o monitor do computador ou da TV na parede.

Qual sua definição de mídia social?

é a comunicação produzida e difundida socialmente pela internet ou por outras tecnologias como telefone celular. o artigo da wikipedia em ingles é bem completo e além de informar, ele é um bom exemplo de ferramenta de mídia social. pense que essa informação não foi escrita por uma pessoa, mas por muitas, por qualquer um que considere ter algo a acrescentar a respeito e que tenha disposição para fazer isso. se voce clicar no botão History, no topo do artigo, vai ver a relação completa de vezes que ele foi editado e quem fez as edições.

aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Social_media

Como especialista nesta área, que lições você acha que a Campus Party traz para os empresários?

o CParty foi um evento sem celebridades - a principal atração eram os próprios campuseros - cujo principal objetivo era fazer pessoas interessadas nos mesmos assuntos ou em assuntos parecidos se conhecerem presencialmente para fortalecer vínculos e abrir canais de interação. esses encontros não tinham objetivo específico de produzir lucro, mas existe um valor em se tornar anfitrião dessas conversas, como fez a telefónica. eles não tentaram vender nada aos campuseros e nem tentaram promover seus produtos, mas ficaram identificados como aqueles que possibilitaram esse grande encontro.

Com você acha que eles precisam se preparar para falar com essa sociedade, que agora ganhou voz ativa para comunicar de forma colaborativa (por meio de blogs, MSN, YouTube etc) e que agora pode opinar e até protestar sobre uma marca ou produto?

A principal idéia que as pessoas vão falar do seu produto ou serviço, independentemente da sua vontade. Se voce abrir espaços para que essa discussão aconteça, voce será o primeiro a receber as boas e as más notícias e ainda demonstrará interesse em ouvir e aprender com seus clientes. isso os torna mais fiéis e eles podem se tornar embaixadores da sua marca, defendendo suas ações publicamente.

Como as empresas podem tirar proveito da Web colaborativa?

As empresas não podem fazer isso porque elas não têm vida. São instituições. Agora, os proprietários, investidores, diretores, gerentes e funcionários em geral podem aproveitar a internet para conversar com a sociedade, discutir idéias, trocar informações, fazer consultas.

Existe muito medo no ambiente empresarial em relação à abertura de canais de comunicação e justamente por isso incluí no meu livro um capítulo especificamente relatando casos de modelos de negócios que justamente usam a rede a seu favor. Vale a pena dar uma olhada.