Receita para fazer livro - making off do Para Entender a Internet
O meu outro livro, Conectado, consumiu em torno de 18 meses de trabalho até ele chegar às livrarias. Quase dois anos depois do lançamento, a tiragem de 3 mil exemplares - alta para esse tipo de livro no Brasil - ainda não se esgotou.
Para entender a Internet ficou pronto em 45 dias - um mês para reunir os textos e mais 15 dias para corrigir, diagramar e fazer a capa. 24 horas depois do lançamento, é razoável estimar que mais de 3 mil pessoas já tivessem cópias do livro.
Marquei a data de lançamento do Para Entender com três dias de antecendência e publiquei a notícia no meu blog. O boca-a-boca rendeu uma entrevista para a rádio CBN e outra para a MTV. A notícia também chegou a sites especializados como BlueBus, Info e iG Tecnologia.
O objetivo deste post é mostrar como você também pode fazer livros como esse.
Resultado
Não dá para saber precisamente quantas pessoas estão com o livro agora porque além de poder ser baixado da Web, o arquivo, que tem menos de 1MB, também pode circular por email. Mas é fácil ter uma idéia da repercussão do lançamento.
No momento em que estou escrevendo este post, uma busca literal no Google por "Para Entender a Internet" traz milhares de referências. Pelo menos nas 15 primeiras páginas de resultado a grande maioria dos links se referia ao livro - pode conferir.
Pelo Twitter, depois de cinco dias, encontrei 525 citações ao título e mais 300 citações à tag "paraentender", usada para identificar o assunto nas conversas entre usuários. Isso representa algumas centenas de recomendações individuais de pessoas diretamente para suas redes de conhecidos.
O que mudou?
A gente não considera muito a idéia de produzir livros porque até as últimas décadas do século 20 isso implicava em grandes custos e riscos. Um autor gasta muito tempo escrevendo sozinho, vários autores precisam de coordenação para produzir. E no final a editora poderia rejeitar o projeto. Mas isso mudou por dois motivos:
1) COMUNICAÇÃO: A internet fez despencar o custo de comunicação (ler Skirky), o que simplificou radicalmente o trabalho de coordenação, divulgação e publicação.
Coordenação - A articulação com os autores do Para Entender aconteceu por email, não precisamos nos encontrar e nem ter a mesma disponibilidade de horário.
Divulgação - Fazer informação circular custava caro. Mandar a mesma mensagem para 200 pessoas antes implicava em fazer 200 telefonemas ou mandar 200 cartas. Isso você resolve hoje com uma conta de email em menos de dez minutos e praticamente de graça.
Publicação - E tínhamos ainda um último gargalo, a publicação. Não valia a pena imprimir e distribuir um livro sobre um tema que interessasse poucas pessoas. Hoje você troca o papel e a tinta por um arquivo PDF e substitui os distribuidores por redes de pessoas que compartilham os mesmos interesses.
2) PRODUÇÃO: Um computador doméstico hoje tem, no mínimo, um programa de edição de texto que não exige destreza especial para produzir documentos com acabamento profissional. Antes a gente dependia de máquina de escrever e mimeógrafo. Lembra?
Receita
Existem muitas alternativas para se tirar proveito das condições favoráveis para a publicação de livros. Eu gostei especialmente da acontece dentro de comunidades de prática. É uma rede, as pessoas se conhecem, cada pessoa se interessa particularmente por um assunto. Um empurrãozinho e o livro sai.
Me perguntaram no lançamento qual tinha sido o critério para escolher os autores. Eles são pessoas que eu conheço a ponto de saber os assuntos que elas dominam e de me sentir à vontade para encomendar um texto para um projeto sem retorno financeiro - mas bom potencial para retorno em Whuffie.
Alguns fatores contaram para os convidados aceitarem o convite:
1) Minha primeira moeda de troca foi a minha reputação como profissional e ativista responsável por projetos que deram certo. Essa era a garantia de que o esforço não seria a toa.
2) Pedi que eles escrevessem textos curtos - aproximadamente 500 palavras - sobre assuntos que eles dominam, ou seja, o esforço de elaboração e execução foram quase nulos.
3) Convidei pessoas reconhecidas por sua atividade ou militância. Cada uma delas que aceita torna mais fácil o convencimento das próximas, justamente porque o projeto recebe endossos. Cada nome abre portas para os outros serem conhecidos fora de seus círculos de relacionamento.
4) Cada autor escreveu sobre o tema de um verbete da Wikipédia em inglês. Isso tirou do autor a angústia de ter que pensar sobre o que escrever e ajudou a tornar o livro mais consistente na medida em que havia um critério comum unindo os textos.
Quem pode fazer
A receita apresentada acima vale particularmente para grupos / redes de pessoas que compartilham interesses, se conhecem e reconhecem a oportunidade aberta pela Web para a troca de conhecimento.
Estudantes de pós-graduação em astronomia, por exemplo, podem usar a mesma fórmula para produzir um livro introdutório sobre o assunto. Mas isso funciona também para comunidades de prática fora da academia. Um grupo de mães pode cada uma escrever uma página sobre um assunto relacionado à maternidade para fazer um manualzinho simples mas útil para outras mulheres.
Sobre qualidade
Talvez você esteja pensando que todas essas facilidades proporcionadas pela tecnologia não substituem o talento e a inspiração, e que, salvo um ou outro caso, essa receita vai "poluir" a Web com conteúdo de baixa qualidade. Em relação a isso, aqui estão algumas considerações:
1) Não existe um medidor universal de qualidade. Se você é heavy-user da Web, o Para Entender não acrescenta muita coisa, mas para quem sabe pouco, sim.
2) O fato de um livro existir não significa que ele vai chegar a você. O motor da distribuição desses livros é social e o filtro são as pessoas. Se o livro for bom para os seus amigos, possivelmente ele chegará a você. Se não, não.
3) Talvez o livro não seja o melhor, mas a praticidade compensa parcialmente pela falta de originalidade e/ou de aprofundamento. Tudo o que está no Para Entender é facilmente encontrado na Web, mas você vai gastar tempo procurando. Facilita o conteúdo vir junto, não ter restrição (técnica ou jurídica) para reprodução. Ainda mais quando não existe um produto correspondente disponibilizado pelo mercado.
4) Ele não precisa ser um best-seller. A facilidade de produção e distribuição justifica que ele atenda grupos relativamente pequenos.
5) Ele não precisa ser um produto acabado, inclusive porque abrir o conteúdo para outras audiências pode conduzir a um processo rico de debates entre autores e outros interessados. Junto com o PDF, eu publiquei os textos do Para Entender em um blog (também gratuito) para que a área de comentários funcione como esse espaço de aprendizado e troca.
Talvez incorporar um nome diferente como, por exemplo, "beta-livro", ajude a reduzir a expectativa de quem for convidado a participar da produção indicando que se trata de um produto diferente do livro, mais efêmero e mutante, o contrário do livro nesse aspecto. O livro precisa estar perfeito porque corrigir sai muito caro. Isso não se aplica ao contexto da comunicação online.
Finalmentes
Antes de concluir este post, quero registrar mais algumas informações que não couberam acima.
- Estou achando cada vez mais acertada a decisão de colocar o nome de usuário do autor no Twitter junto com o texto dele. Já presenciei conversas brotando em função disso, com um leitor pedindo para o autor comentar ou explicar alguma coisa do texto. Isso cria uma dinâmica interessante entre o conteúdo estático do livro e o fluxo contínuo de conversas melhor representado até agora pelo Twitter.
- Uma das minhas fantasias era que o Conectado fosse traduzido. É tão simples, o conteúdo já está lá e pode ser útil para tantas outras pessoas, não precisa alguém escrever de novo. Mas isso nunca aconteceu. Curiosamente, no dia do lançamento do Para Entender, o Ramon Bartolomeus da ONG Iwith.org de Barcelona ofereceu a infraestrutura institucional de sua organização para traduzir o Para Entender para o espanhol - leia sobre isso aqui. (Sem palavras.)
- O fato do livro existir na internet primeiro não significa que ele não poderá vir a existir em papel. O sucesso dele online pode ser um indicativo de que existe demanda para o produto. Várias pessoas já me perguntaram pelo Twitter onde comprar o livro impresso. E mais, o fato dela estar primeiro na rede pode servir para aprimorar o produto antes dele ser impresso. É o que eu gostaria que acontecesse com o Para Entender, que daqui a alguns meses os autores reescrevam seus textos a partir das trocas que tiveram via Twitter, comentários e outras formas de interação - inclusive presenciais - e, aí, sim, submetemos o livro a apreciação de editoras.
- Quero agradecer especialmente ao Pedro A. Borges e à Josiane Camacho, respectivamente o capista e a diagramadora deste experimento. A participação deles tornou esse projeto convidativo aos olhos o que foi importante para ele ser acolhido apesar da falta de referências para comparação.
- Igualmente à ética hacker ou de maneira semelhante a ela, o meu mestre José Carlos Sebe demonstrou muitas vezes na prática a importância de se devolver o conhecimento à sociedade, inclusive essa reflexão sobre o que funcionou e como. Por isso, este projeto não estaria completo sem o compartilhamento do making off e o convite para que essas idéias - mais do que o conteúdo em si - sejam remixadas e gerem outros livros.
É isso!
PS. O post ficou enorme, mas é o resultado de 45 dias de vivências - pelo menos ;-)




