O Culto do Amador, uma provocação e uma oportunidade

Capa da edição inglesa
Andrew Keen escreveu um livro polêmico, um livro para chocar e fazer barulho. Para produzir esse efeito, ele utilizou alguns recursos: não se preocupou em ser imparcial e explorou ao máximo os medos e inseguranças provocados pela Web. E de empreendedor Web - como existem muitos no Vale do Silício - O Culto do Amador elevou Keen à condição de guru - ou "anti-guru" -, ele passou a ser um nome reconhecido.

(A popularidade dele levou um amigo a me procurar ontem à noite para dizer que está com receio porque tem promovido intensamente o TalkShow com o Keen e queria saber se o volume de tráfego não comprometeria a transmissão. Fiquei impressionado com a quantidade de vezes que o post do Wagner anunciando a entrevista foi clicado.)

O que faz o projeto de Keen digno dessa atenção, no entanto, não é o talento dele para a polêmica, mas o fato de ter conseguido ir salpicando aqui e ali, ao longo de seu livro, questões incômodas para quem está surfando a onda da Web, seja em busca de prestígio e reconhecimento, seja pelo menos nobre mas igualmente respeitável retorno financeiro. Selecionei duas passagens do livro em que, acredito, o autor toca na ferida. Segue depois desse apanhado dos debates públicos que ele participou. (Continue lendo.)

Seu blog se chama The Great Seduction e lá tem a relação completa das entrevistas que ele vem dando a veículos conhecidos como CNN, Independent, Guardian, New York Times, Wall Street Journal, Business Week, entre vários outros. Uma coisa, pelo menos, é respeitável na personalidade do Keen, ele não foge da briga. Abriu fogo contra vários dos principais profetas da revolução provocada pela internet e o fato de seu ataque ter produzido eco dentro da sociedade, fez com que vários dos nomes sagrados da Web 2.0 respondessem às suas provocações, ampliando ainda a atenção que o livro recebeu.

Aqui, por exemplo, Keen e Chris Anderson - autor de A Cauda Longa e editor executivo da Wired, debateram sobre efeitos positivos e nocivos da suposta democrativação trazida pela Web. Keen e fundador da Wired, o ultra-respeitado Kevin Kelly, conversaram publicamente em uma série de mensagens de email. Lawrence Lessig publicou um texto irônico classificando o livro de Keen de "brilhante", literalmente descascando O Culto do Amador.

Brecha para a manipulação corporativa

[...] Al Gore's Army of Penguins não é apenas mais um exemplo grosseiro da frivolidade do YouTube. Embora muitas das 120 mil pessoas que viram esse vídeo tenham, sem dúvida, imaginado que ele era a obra de algum amador que dirige um SUV e tem aversão à reciclagem, na realidade o Wall Street Journal descobriu que o verdadeiro autor dessa sátira neoconservadora é o DCI Group, uma firma de relações públicas e lobby de Washington D.C. cujos clientes incluem a Exxon Mobil. O vídeo nada mais é que uma interpretação tendenciosa de objetivo político, permitida e perpetuada pelo anonimato da web 2.0, disfarçada de arte independente. Em suma, uma grande mentira.

Lendo essa passagem, me lembrei de um debate recente que aconteceu neste blog sobre a Wikipedia. Uma das conclusões tristes que eu tirei pela troca de experiências e perspectivas é que uma empresa de relações públicas tem muito mais condição de interferir na edição de artigos do que uma pessoa desinteressada e que queira apenas compartilhar seu conhecimento. Isso porque a Wikipedia demanda um grau de participação até a pessoa ser "promovida" a administrador que pessoas comuns não têm, mas que pessoas remuneradas por empresas podem ter.

De onde vem o dinheiro?

Outra passagem de Keen que eu gostaria de ver debatida às claras: mostre onde está o dinheiro, quem garante que não estamos cultivando outro momento de euforia e especulação como o que a indústria da internet viveu no final dos anos de 1990? Sites são avaliados em milhares ou mesmo bilhões de dólares. O Google comprou o YouTube por US$ 1,65 bi, a NewsCorp também comprou o MySpace por uma sifra respeitável, mas ainda não está claro como esses sites vão se pagar. Às vezes, a corrida lembra esses golpes de corrente, chega uma hora que o dinheiro desaparece e todos menos os primeiros quebram. Keen escreveu: Como trevor Butterworth noticiou no Finantial Times, ninguém está ficando rico com blogs, nem mesmo Markos Moulitsas Zuniga, o fundador do Daily Kos, o mais popular de todos os blogs políticos.

E ele continua: Tomemos o caso de GoFugYourself.com, um site de paródias a celebridades que atrai o imenso público de 100 mil visitantes por dia. Segundo Butterworth, o site gera apenas "o dinheiro para a cerveja" de seus fundadores. Sites acima da média como JazzHouston.com, que atrai 12 mil visitantes por dia, geram uma ninharia - cerca de mil dólares por ano em receita de anúncios paga pelo Google. Há ainda Guy Kawasaki, autor de um dos 50 blogs mais populares da internet, cujas páginas foram vistas quase 2,5 milhões de vezes em 2006. E quando Kawasaki ganhou em receita de anúncios em 2006 com essa propriedade de mídia de tanto sucesso? Apenas 3.350 dólares. Se essa é a cauda longa de Anderson, é uma cauda que não dá emprego a ninguém. No máximo fornece cerveja e amendoim aos macados.

Uma oportunidade de reflexão

Estou escrevendo isso para convidar as pessoas que quiserem interagir com o Keen no TalkShow de 29 de maio, a lerem o livro dele e se darem à oportunidade de separar os fogos de artifício - usados, na minha humilde opinião, apenas para chamar a atenção - do que desafia a nossa compreensão sobre essa indústria, sobre as consequências abertas pela popularização da comunicação em rede. O mesmo autor de O Culto do Amador é blogueiro ativo, tuita intensamente, empreendeu no Vale do Silício durante vários anos, enfim, é um cara de dentro da indústria e que sabe dar valor às oportunidades abertas pela internet... mesmo que seja para fazer a crítica da própria internet.