A internet tornou o jornalismo obsoleto
Quantas pessoas que estão lendo esse post têm brevê para pilotar aviões? E quantas tem carteira de motorista?
Em condições normais, a imensa maioria das respostas será negativa para a primeira pergunta e positiva para a segunda.
E porque a gente não aprende a dirigir aviões? Não é porque ser complicado. Inteligência acima da média ou destreza não são condições para alguém se tornar piloto.
A gente não sabe pilotar porque não temos - a maior parte das pessoas - perspectiva de comprar um avião. Ainda assim, voar é importante.
Avião é um produto escasso e por isso existe a demanda pela existência de uma categoria profissional, a de piloto de avião.
Escriba era o sujeito que passava a vida nos mosteiros copiando livros. Hoje a gente talvez não perceba o valor desse profissional. Sem livros, os especialistas - em medicina, em técnicas de construção, em estratégias militares - teriam que memorizar o conhecimento e transmití-lo oralmente.
Registro impresso era, como o avião, um produto escasso e necessário, daí a necessidade de se ter uma classe profissional para desempenhar a função. Até Gutenberg criar um meio infinitamente mais barato para executar a mesma função. Resultado: o escriba se tornou obsoleto.
(Interessante o texto Em Louvor aos Escribas, defendendo o valor do escriba, mas que ironicamente foi impresso e não copiado manualmente, justamente para se difundir.)
Transmitir informação em massa custava caro. O jornal, por exemplo, não podia ter infinitas páginas para atender a todos os interesses de seus potenciais leitores. É preciso, nesse contexto, existir um profissional para selecionar o que tem mais valor do que tem menos, minerar a notícia entre os assuntos irrelevantes.
Mas e agora que publicar para uma audiência global tem custo praticamente nulo? Qualquer um com acesso à Web pode criar um blog. O preço para transmissão de informação despencou com a internet.
Se não é mais necessário filtrar antes, se a informação é abundante, o profissional que exercia essa função - o jornalista, por exemplo - se torna obsoleto.
O filtro continua sendo necessário. Apenas uma fração do conteúdo publicado na Web serve para ser apreciado por grandes audiências. Mas esse processo de seleção acontece socialmente, dentro de redes de interessses comuns.
Isso é o que motiva, por exemplo, os nossos amigos a retransmitirem para a gente os emails que eles recebem sobre determinados assuntos. Se é interessante para ele, é possível que te interesse também, porque a amizade indica a existência de vínculos de afinidade, interesses em comum, etc.
É isso também o que leva pessoas a se inscreverem em listas de discussão para conversar sobre assuntos específicos. É o que motiva a participação em comunidades no Orkut e em outras redes sociais.
Resumi acima os argumentos do Clay Shirky em seu Here Comes Everybody para explicar o motivo do comunicador social - jornalista, radialista, etc - estar se tornando obsoleto para a sociedade pós-Internet.
Acho que o assunto jornalistas vs. blogueiros deixou de estimular a discussão aberta e transformou o tema em motivo de disputa por quem está certo e errado. Acima está a maneira como o Shirky vê a questão.
Eu fiz só um recorte do que aparece de maneira muito mais aprofundada no livro dele, que não é exclusivamente sobre esse assunto. (Aliás, o que ele diz é que essa pergunta - se jornalismo vai continuar existindo - perdeu o sentido nesse novo contexto.)



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