Marcelo Camelo fala sobre internet e cultura; eu fui a 1999 e voltei para a Virada Cultural

Esse último sábado, eu estava no centro de São Paulo, eu e a Tati, já era madrugada, milhares de pessoas, tribos misturadas, carecas e cabeludos, um festa popular, assistindo o show do Marcelo Camelo na Virada Cultural. Fiquei admirando o improvável, aquele cara meio desengonçado, finão, acompanhado de uma banda sofisticada, que passava na mesma canção da melodia de caixinha de música para solos abstratos, um trompetista muito do abusado, a voz dele Camelo às vezes encharcando tudo, uns timbres raros, desafinado, gritado, folk, sendo assistido por uma molecada, garotada de faculdade, que literalmente entrava em extase durante algumas canções. Um cara atrás de mim gritava, como se estivesse possuído: "CARALEO!", dava saltos e repetia "CARALEO!", várias vezes, falando sozinho. (Continue lendo.)

É estranho, me lembro de quando ouvi pela primeira vez da existência de uma banda chamada Los Hermanos. Devia ser 1999, eu tinha chegado há pouco a Nova York e estava empolgadíssimo com a perspectiva de tocar o canal de chat com convidados em espanhol da StarMedia. E estava também servindo de "correspondente" para a equipe brasileira.

Tenho quase certeza que estava, nesse dia, falando com o grande Cláudio Melqui, líder da turma do chat no Brasil, que foi um pouco meu guru na época. Ele me contava sobre uma modelo que tinha acabado de aparecer na capa da Veja, se não me engano, apontada como a nova top model do mundo. Tinha pouco mais de um ano que eu tinha saído do Brasil e já estava ficando por fora das coisas. Não fazia idéia de quem era Gisele, ela se tornou celebridade do dia para a noite, fiquei sabendo pelo Melqui, e nós sonhávamos em, tirando proveito do posto avançado em Manhattan, trazer a moça para um chat.

Nunca rolou. Mas estou contando tudo isso porque teria sido nessa conversa que o Melqui mencionou uma banda que tinha acabado de estourar, e me lembro de ter achado o nome da banda esquisito, sei lá, meio besta, Los Hermanos. Acho que por um tempo pensei que eles fossem mexicanos, também imaginei adolescentes de bermudas tocando surf-rock. Não sei o porque.

Eu voltei ao Brasil em 2003 e ainda levou um tempo para eu escutar uma música deles. Não sei qual foi o disco, Ventura ou 4, que tomou posse do meu tocador de MP3 como eventualmente acontece, e ficou ali, repetindo, repetindo cada faixa como uma hipnose, uma fascinação, a busca por alguma coisa que eu percebia mas não conseguia enquadrar, me desarmou, talvez as imagens cantadas meio como balões de gás flutuando sem dar muita explicação, ou a melodia de carrossel ou de caixinha de música, ou as composições de palavras que se encaixavam de maneiras inesperadas, fugindo das rimas fáceis e de temas gastos do repertório pop adolescente. Eu me identifiquei com a "estética" deles, com a melancolia doce, doída, sincera, outsider.

Fiz essa introdução um pouco longa para dar a idéia da atenção que eu dediquei a esta entrevista feita por uma emissora de rádio portuguesa com o Marcelo Camelo, e achei curiosíssimo ele, em vários momentos, falar da internet.

Em um deles - não vou escutar de novo para transcrever literalmente a passagem, é um pouco longa - ele fala com raiva mesmo do filtro das gravadoras, que durante anos evitaram que ele conhecesse uma série de artistas que só agora ele tinha encontrado. E explica, usando termos sofisticados, uma construção sofisticada, que não existe cultura que não seja subversiva, que não é natural você pasteorizar a cultura dessa maneira, acho que ele falou isso respondendo a uma pergunta sobre a origem alternativa do Los Hermanos. Inclusive a entrevistadora nota isso, que o som do Los Hermanos não parece ter relação clara com as principais tradições da nossa música, não é MPB, nem samba, nem rock, nem bossa nova.

Fiquei especulando, nessa hora, se a emergência de uma banda tão deslocada não estaria relacionada à idéia de que a internet fortalece os nichos, de que os Hermanos possivelmente nunca teriam ganhando espaço se dependessem de seus fãs no Rio de Janeiro, por exemplo, mas que isso mudou no contexto da primeira onda P2P provocada pelo Napster - justamente nessa época, 1999. Não tenho como afirmar isso, mas pareceu ser uma explicação pertinente para o sucesso de uma banda que não é exatamente o modelo daquilo que "funciona comercialmente".

Enfim, todas essas histórias pequenas se juntaram ontem ao escutar a entrevista e neste final de semana e achei que valeria a pena compartilhar isso.