História do projeto Conectado

Há dez anos eu vivo de internet. Nesse período, toda vez que me perguntam o que eu faço, tenho que pensar se digo a verdade ou dou uma resposta genérica. Porque dizer "eu projeto e administro ambientes colaborativos" implica em escutar: - Mas... o que é isso?

Marco-zero

Eu mesmo não sabia direito o que era "isso" em 2005, quando comecei a fazer as anotações que lentamente foram se amarrando para formar este livro. Tinha claro apenas o momento da virada. Aconteceu em 99. Eu trabalhava já há algum tempo como editor de um site de notícias e presenciei a execução de um chat moderado com um artista popular.

Até aquele momento, meu trabalho se resumia a tentar prever os assuntos que o público do canal que eu atualizava queria ler. Acompanhando o chat, notei que eu não precisava mais fazer isso porque as pessoas podiam se manifestar elas mesmas, sem a minha intermediação. E mais, o fato de muitas pessoas com interesses convergentes se reunirem produzia uma espécie de explosão de conhecimento.

As pessoas que entraram naquele chat acompanhavam diariamente a vida do artista e por isso faziam intervenções muito pertinentes. Uma pergunta original lançada no auditório fortalecia o interesse dos outros participantes. Um dado recuperado estimulava a memória coletiva e isso multiplicava as participações relevantes no chat... Naquele momento eu comecei a direcionar meu foco para explorar esses novos canais de interlocução.

Quem somos nós?

Apesar de tudo ter dado certo até agora, ou seja, de não ter faltado trabalho, continuo preocupado esclarecer o que é a minha profissão. Para facilitar, meus colegas às vezes dizem que "mexem com internet". Mas isso conduz o leigo a pensar em duas funções: designer ou programador, e nós não somos nem um nem outro.

Quem é o profissional que está por trás dos ambientes colaborativos? O que ele deve saber? Como você anunciaria a vaga para projetos de mídia social em um classificado de empregos?

Apesar de estar imersa na tecnologia, essa função não é técnica, mas do campo das ciências humanas. Quais os elementos psicológicos e econômicos que favorecem o compartilhamento de informação? Esses são os aspectos levados em conta para para a criação de uma ferramenta incrivelmente popular como o Orkut. Qualquer bom programador saberia desenvolvê-la, mas seu segredo não está no código e sim na maneira como ela filtra o ruído ao colocar mais de 40 milhões de pessoas habitando o mesmo espaço. Quem se encontra com quem? Onde isso acontece? De que forma? E por que motivo?

O livro e o blog

Este livro é uma tentativa de responder essas perguntas e de dar forma a essa profissão registrando os aspectos elementares da rotina de projetar e administrar ambientes colaborativos. Mas ao mesmo tempo em que ele pode se encaixar na bibliografia de cursos superiores e técnicos relacionados a comunicação, também espero que ele seja útil ao leitor de outras áreas, interessado em explorar as vantagens da infraestrutura de comunicação oferecida pela internet.

Nesse sentido, ao mesmo tempo em que oferece alguns parâmetros para a formulação de uma nova carreira, o livro questiona a necessidade do profissional da comunicação continuar existindo. Existe espaço para um especialista em um mundo em que falar com audiências se torna parte da rotina? Em que medida essa será uma peça importante na engrenagem social em um contexto onde a sobrevivência dependerá do aprendizado da comunicação dentro da esfera pública?

É para isso existe este blog. Para dar continuidade à conversa iniciada no livro, fechando o circuito entre leitores interessados em pensar e discutir esse assunto.