Entrevista com Paco Regageles, co-fundador do Campus Party

Paco Regageles é um dos co-fundadores do Campus Party na Espanha. Nos conhecemos no final de novembro. Ele estava em São Paulo acompanhando a produção do evento aqui e eu tinha ido à sede brasileira da Futura, associação organizadora do CP, para uma reunião sobre atividades para blogueiros.

Desde 27 de novembro, trocamos quase vinte mensagens, cada resposta conduzindo a perguntas novas. Não foi uma entrevista padrão. Não fiz pesquisa prévia sobre o CP nem sobre ele. Também não mandei um formulário pronto. Fomos conversando.

Qual a relação do Campus Party com as LAN parties que se disseminaram pela Europa junto com a internet em meados dos anos 1990? Como uma fundação sem fim lucrativos promove um evento desta dimensão e de onde vem o dinheiro? Por que acontece em Portugal uma versão não-autorizada do CP? E por que é fundamental levar o computador para aproveitar o evento? Nossa conversa atravessou esses assuntos e outros.

Não deixe de comentar no final da leitura.

Paco Ragageles começou a trabalhar muito cedo com rádio. Ganhou um concurso de DJs e aos 16 anos foi contratado pela emissora 40 Principales, uma das mais importantes da Espanha. Em pouco tempo já tinha responsabilidades de diretor e achava que nada o tiraria do ar. Mas desde criança gostava de computadores e quando apareceu a internet, abandonou a carreira de radialista e se re-inventou profissionalmente. Co-fundador do Campus Party original na Espanha, um dos maiores encontros de entretenimento eletrônico do mundo, Ragageles atualmente dirige a E3 Futura, associação sem fins lucrativos que realiza esse evento na Espanha e agora no Brasil.

Quem teve a idéia de fazer o primeiro Campus Party?

Uma noite em 1996, assistindo à TVE-2 - a segunda cadeia de televisão pública da Espanha -, vi uma reportagem sobre a incipiente internet, Yahoo, etc... Nessa reportagem falavam sobre LAN parties [evento para juntar pessoas com os seus computadores interligados numa rede local (LAN), geralmente com o objetivo de se jogar] que estavam nascendo no norte da Europa. Pus uma fita no vídeo - VHS da época - e gravei aquele programa. Uma semana depois juntei um grupo de amigos, passei a reportagem e disse para eles: "Temos que fazer uma dessas aqui". Foi assim que nasceu o Campus Party.

E como foi o primeiro evento?

Mágico! Acabamos destruídos, um montão de dias sem dormir, mas ali nasceu algo que ainda perdura.

Que conexão vocês usaram?

Hahahaha! Quase não tínhamos. Não conseguimos que a Telefónica instalasse a rede [10 RDSI ] que nós tínhamos pedido, de maneira que encontramos uma solução caseira mas eficiente, um pouco selvagem, mas funcionou. Alugamos dez linhas de telefone normais, conectamos cada uma em um modem de 56K, agrupamos todas as conexões em uma usando Linux e essa foi a nossa rede. Foi épico... Reunimos 250 pessoas. Isso foi em 1997.

Você tem alguma memória particular desse primeiro evento?

Tínhamos previsto acabar às 3 da tarde do domingo, era pleno verão no sul da Espanha, o que quer dizer que estava muuuuuuito calor, tranquilamente uns 40 graus... Às 2 da tarde começou a chover granizo! Foi incrível, em poucos minutos caiu do céu uma quantidade incrível de granizo. Obviamente tivemos que parar tudo, desligamos a eletricidade para não ter nenhum problema e voltamos todos para as nossas casas ;-)

Quais são as diferenças do Campus Party em relação às Lan Parties?

Muitas. As LAN Parties da época duravam três dias, eram específicas sobre uma área da tecnologia. Eram meras reuniões, sem muitas opções educativas. Nós mudamos radicalmente o formato. Passamos a uma semana, introduzimos muitos conteúdos diferentes como robótica ou astronomia, e baseamos o evento no aprendizado. Realmente o Campus Party é bastante diferente a qualquer outra party do mundo.

O site do Campus Party diz que ele é "a maior festa tecnológica do mundo". A que você atribui esse crescimento?

Sem dúvida deve ter sido pela mudança do conceito adicionando conteúdos diferentes e abrindo o evento ao interesse potencial de um número maior de pessoas. As pessoas vão ao CP para aprender e se divertir.

A E3 Futura, organizadora do evento, é uma associação sem fins lucrativos diferente. Vocês não fazem trabalhos assistenciais convencionais como distribuir remédios ou alfabetizar populações carentes. Como funciona esse modelo de negócio? Quais as diferenças entre a Futura e uma empresa?

Nós acreditamos que ajudar um número maior de pessoas a usar a internet também melhora a qualidade de vida delas. Desde que o Campus Party surgiu, dele surgiram inúmeros movimentos de voluntários... O CP não foi concebido como negócio. O orçamento fecha sem lucros todos os anos, de maneira que tudo o que se consegue com os patrocínios se investe no evento. O modelo de negócio, como você fala, é fazer as pessoas felizes. Em paralelo à atividade da Associação, muitos de nós que trabalhamos nessa organização também trabalhamos em empresas diferentes no setor das telecomunicações. E obviamente o fato de sermos os realizadores do CP nos ajuda a ter mais contratos. É um benefício indireto do evento.

Vocês dizem que o Brasil é o primeiro país fora da Espanha a receber o CP, mas a primeira menção a "Campus Party" na Wikipedia em inglês fala da Minho Campus Party de Portugal - em português. A Futura não registrou o nome Campus Party? Qual é a relação entre vocês e esse CP português? Apenas a Futura pode promover CPs?

Há uns 5 anos, ajudamos um professor universitário da Universidade do Minho em Portugal a realizar a primeira CP lá. Depois de sua realização as pessoas com as quais fechamos o acordo para fazer o evento decidiram realizar-lo por conta própria e não respeitar os compromissos que tínhamos assinado. Desde então eles organizaram o evento alguns anos mas sem a nossa colaboração e usando ilegalmente o nosso nome. Lamentavelmente não tínhamos recursos econômicos para processá-los e pouco pudemos fazer. Acho que não deu muito certo, além do que, os organizadores não tinham o espírito da internet, fizeram o evento apenas para ter lucro, o que deu ao evento em Portugal uma imagem ruim. Sentimos muito que tenha acontecido assim, mas não pudemos fazer outra coisa. Realmente agora é o primeiro CP que nós vamos organizar fora da Espanha.

Por que vocês decidiram fazer o CP em outro país e por que vocês escolheram o Brasil?

Fazia tempo que tínhamos em mente expandir o CP para outros países. Na décima edição do CP recebemos uma delegação do nosso principal patrocinador, Telefonica, e aí começamos ver a possibilidade de expandir o evento para outros países. O Brasil foi o primeiro por várias razões: é um dos países mais ativos na internet apesar das dificuldades pelo ponto em que se encontra economicamente. O brasileiro é um comunicador nato. Sua idiosincrasia o está convertendo em uma potencia mundial na internet, especialmente nas redes sociais e no mundo do software livre. Se juntamos a isso a importância do país para a Telefonica, temos a resposta de porque estamos no Brasil.

Qual é o percentual de pessoas que levam seus computadores para o Campus Party na Espanha? Você acha que é fundamental levar um computador para que o participante aproveite o evento?

O percentual é 92%. Quase ninguém vai ao evento sem computador. É realmente muito frustrante estar dentro do Campus Party e não ter um...

Que medidas vocês tomarão para proteger as pessoas que levarem seus computadores para o evento?

Não posso te contar em detalhes já que existem coisas que são segredo. Basicamente ninguém poderá tirar um computador do recinto sem ser o proprietário dele. As medidas serão efetivas e suficientes.

Por que vocês escolheram a Colômbia para realizar o próximo Campus Party no meio do ano, e não o Chile ou a Argentina?

Por causa da paixão de um grupo de colombianos liderados pelo presidente da Telefónica de lá. Eles nos convenceram por puro entusiasmo com o projeto.

Para terminar, o que você recomenda para as pessoas que se preparam para participar do Campus Party Brasil? Você estará aqui com a gente?

Recomendo que leiam bem no site do evento [http://www.campus-party.com.br/] a área de informação, primeiros passos, etc. Lá eles tirarão praticamente qualquer dúvida que tenham, e se ficar alguma sem resposta, entrem em contato com a coordenação pela área de contato do site... Sobre estar aí, eu não perderia isso por nada! Passei 174 dias do ano passado no Brasil preparando o CP. Nos vemos lá!

E a conversa terminou por aqui. Mas ela pode se prosseguir colaborativamente. Se você ficou com alguma dúvida ou comentário, publique na área de comentário. E convidamos o Paco para continuar o papo online. Vamos?

Quem tiver perguntas ou comentários, pode publicar




Comments

Aproveito e pergunto: o que afinal se faz com o micro no Campus Party? Por que é tão frustrante estar lá em um?

Me ocorreu uma pergunta: em que momento o campus party se profissionalizou? como foi esse processo? em que momento foi necessário passar de uma atividade organizada informalmente para um evento programado com meses de antecedencia, envolvendo patrocinadores, convidados internacionais e contratos?

Oi Juliano! Eu, como jornalista, geralmente me interesso mais pelas perguntas que pelas respostas! Gostei das suas, mas tem uma coisa que eu acho que faltou: falar do potencial de transformação social da internet. Acho que isso tinha que chegar ao público, pois a maioria das coisas que tenho visto na imprensa fala do evento e da própria internet como uma ferramenta de entretenimento.

Eu tenho uma curiosidade: na programação, ou mesmo no projeto CP, qual é a relação com a Educação?

Wolney

tenho um amigo muito especial que sempre desde a época do escotismo demostra um grande facínio pela informática. seu nome é Paulo e ele talvez seja um dos entre milhares que desejariam participar deste evento mas naço possui uma maquina para levar consigo. Será que teria como haver neste evento algumas maquinas de cortesia de uma empresa e outros ? isso ajudaria na participação de muitas pessoas que podem tirar muitgo proveito desta feira ou festa tecnológica.
Imagine se as prefeituras emprestassem suas máquinas ou escolas de informática.

Post new comment

The content of this field is kept private and will not be shown publicly.
  • Web page addresses and e-mail addresses turn into links automatically.
  • Allowed HTML tags: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Lines and paragraphs break automatically.

More information about formatting options