Três razões porque projetos grandes naufragam
Cada dia que passa tenho confirmado mais a percepção de que as coisas que fazem projetos darem errado raramente são levadas em consideração. Tecnologia e orçamento não são sinônimos de sucesso na Web. Ontem mesmo eu estava conversando sobre dois grandes projetos que naufragaram a despeito de contarem com as "melhores condições" de desenvolvimento. Veja se você concorda comigo.
Segue uma lista de assuntos que fazem com que bons projetos não sejam desenvolvidos ou sejam desenvolvidos mas não consigam decolar.
1) Cultura institucional: A matemática é simples - há dez anos a informação (me refiro ao broadcast) era um produto escasso. Tanto para se promover um produto como para se contornar uma crise, o caminho era fazer alguns telefonemas aos cinco ou seis guardiões da torneirinha da comunicação, que podiam ser editores de jornais ou publicitários, priordialmente. Hoje, pela infraestrutura da internet, a informação se tornou um bem abundante. É melhor participar da conversa do que controlá-la. O problema é que as pessoas nos cargos de decisão foram criadas pensando da outra forma e dá muito trabalho convencê-las do contrário.
2) Identificar uma demanda reprimida: OK, você não deve satisfações a ninguém, tem o dinheiro para investir e quer desenvolver um projeto legal para promover um produto ou marca. Não adianta você especificar o assunto e as condições para que essa conversa aconteça. Veja sobre o que o seu público está falando e ofereça um espaço bacana, mais confortável e simples de operar, para que elas venham naturalmente.
Parêntese: Talvez a "técnica" que mais tenha sido útil para trabalhar com comunicação online seja a de observar um produto pela perspectiva do usuário, ser capaz de se perguntar honestamente se você se interessaria em usar aquele site quando não estivesse trabalhando. Isso vale tanto para o exame de usabilidade como para o conteúdo. Mas é claro que é muito mais fácil (e talvez barato) tirar proveito do fato de que muitas vezes o cliente saiba menos do que você sobre o assunto e caprichar no design e nas animações Flash.
3) Conseguir formar uma equipe de conteúdo que tenha uma identificação verdadeira com o produto. Por motivos que não vou me debruçar agora, tenho notado um distanciamento entre o que é o ganha-pão da pessoa e aquilo que ela realmente gosta de fazer. Exemplo: no trabalho, escrevo sobre jardinagem, mas à noite meu barato é dançar funk. Talvez isso funcione no contexto dos jornais, que se esforça para ser imparcial, mas conta pontos negativos na internet. Você está se comunicando ou tentando se comunicar com pessoas que escolheram ir ao seu site porque gostam muito do que você está oferecendo. Essas pessoas reconhecem quando a pessoa do outro lado se identifica com o assunto ou quando ela só está lá por causa do dinheiro.
Segue três passagens que vão mais ou menos no sentido do que eu falei neste post:
Não sei quantas pessoas que leram o Conectado prestaram atenção nas epígrafes. A do Rob Malda diz o seguinte:
Faça o que você conhece. Não tente apenas realizar a idéia de outra pessoa, e também não tente fazer o que você não acredita. O Slashdot ficou famoso primordialmente porque eu representava a minha audiência. Eu não estava tentando fazer um site para outras pessoas, eu estava tentando fazer um site que eu gostaria de ler. Eu acho que ninguém pode falsificar isso, e mesmo que você consiga, as pessoas acabam percebendo.
Encontrei a seguinte passagem no Não Me Faça Pensar:
É natural julgarmos que todos usam a Web da mesma forma que nós, e - como todo o mundo - tendemos a pensar que o nosso comportamento é muito mais organizado e sensato do que realmente é.
O prefácio desse mesmo livro começa assim:
Steve Krug foi abençoado com uma espécie de perda da memória que lhe permite ver cada site como se estivesse olhando para ele pela primeira vez.



Comments
sim,juliano,"é melhor participar da conversa do que controlá-la", "é melhor colaborar do que competir". Propostas como a do Slashdot e do Digg! modificam a intermediação cultural tradicional, que sempre filtra demais, sem conhecer no detalhe as situações e necessidades de cada um.
outras leituras...
lembrei desse artigo, na época gostei muito (devo ter em papel, e pra achar?)
Por que um bom projeto também naufraga?
Nadim F. Matta e Ronald N. Ashkenas
Harvard Business Review Setembro de 2003
Ele está citado num ppt de uma aula que dei sobre "Comunidades & Projetos", no Educar na Sociedade da Informação.
O ppt está na rede, o áudio da aula em tese também (não chequei)
http://www.cidade.usp.br/educar/?2003/mod1/aula2b
abços
Muito bom o artigo. Estou desenvolvendo um projeto já faz uns 2 anos, e tenho a dizer que quanto maior o projeto muito mais chance de dar errado e de você ser "penalizado" caso ocorram demais problemas. E realmente o principal como foi dito: Você precisa gostar do que está "projetando" pois assim as coisas fluem muito melhor do que o normal.
Um abraço a todos.
Depois de ver dois projetos grandes em que eu estive envolvido naufragarem, resolvi que já não vou mais ficar mirando tão alto no começo.
No fim das contas, a dica do cara do Copyblogger, nesse artigo é o que te salva das dívidas e frustrações:
If you want to make a million dollars online, start with a project to make $10. Figure that out, then scale it. It sounds simplistic and even silly, but it works.
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