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Falar em comunidade virtual dá a entender (erradamente) que o altruísmo motiva a colaboração

Recentemente montei uma apresentação sobre comunidades virtuais. Não fui eu quem determinou o tema, mas isso abriu a oportunidade para eu colocar essa palavra - que foi a única adotada por muitos anos no Brasil para se referir às situações de comunicação grupal online - em perspectiva.

Foi por isso que estive pesquisando de novo sobre Arpanet e NLS.

Origem do termo

The Virtual Community é o título do livro clássico escrito em 1993 pelo guru da comunicação digital Howard Rheingold. Ele, como o Kevin Kelly, autor de Out of Control, um dos dois livros que inspiraram a criação do filme Matrix, viveram intensamente os primeiros anos do The Well, tida como a comunidade virtual (o nome ainda não existia) mais influente da história da internet.

A minha impressão é que no The Well se experimentou pela primeira vez o impacto que a comunicação grupal online tinha, servindo como filtro humano para fazer conteúdos chegarem às pessoas certas. Você assinava as discussões que te interessavam e isso te colocava em contato não com o conteúdo, mas com outros cérebros que podiam responder às suas inquietações em questão de poucas horas. E mais: cada postagem chegava a muitas pessoas, que eventualmente se engajavam na conversa.

Conversa de bar online

Não é a toa que a gente adora conversa de bar. Ela segue o ritmo da maré. Os temas chegam e passam. Um assunto vira outro, sem muita regra e sem controle - se não, não é conversa e sim aula de bar. O que o The Well parece ter mostrado pela primeira vez (de maneira exemplar e inquestionável) é o que acontece quando voce amplifica a conversa de bar.

É uma mesa muito mais extensa, as pessoas não precisam estar lá ao mesmo tempo, elas nem precisam se conhecer. (Este mesmo post é parte dessa conversa.) E aí aparece a tal da emergência, idéia popularizada no livro do Steven Johnson: um sistema de partes relativamente simples (no caso, pessoas) formando uma estrutura ou inteligência de nível superiro (a rede).

São Francisco, anos 60

Mas voltando ao The Well, é necessário levar em consideração que o servidor e consequentemente a maior parte dos usuários do The Well estavam na cidade de São Francisco, a capital americana da contra-cultura. A comunidade virtual nesse contexto deriva diretamente da idéia de comunidade alternativa - um espaço onde maldade e corrupção ainda não chegaram.

(O título do TCC do Rheingold foi: TCC: “Qual vida posso comparar a esta? Sentado sozinho na janela, eu assisto as flores desabrocharem, as folhas caírem, as estações chegarem e partirem”. Pegou?)

Estou contando isso tudo para chegar ao ponto deste post: ao chamar um ambiente para comunicação grupal de comunidade, é comum relacionar ao termo a idéia incorreta de que as pessoas que participam das comunidades oferecem bens informacionais porque elas são boas de coração. É um equivoco comum supor que o que mobiliza a colaboração online seja apenas o altruísmo.

Economia de Doação

Como o próprio Rheingold explicou no The Virtual Community, a doação de informação na Web se baseia num modelo econômico chamado Economia de Doação, onde as pessoas trocam presentes na expectativa de receberem retribuição quando precisam. Na internet, esses presentes não são oferecidos a uma pessoa especificamente mas a um grupo e o pricipal motivador para que isso aconteça é que a pessoa possa ser reconhecida e estabeleça uma reputação dentro do ambiente para pedir e receber ajuda quando precisar.

Ainda gostaria de ter tempo para estudar mais porque é curioso que o Rheingold tenha ao mesmo tempo escolhido o nome "comunidade virtual" e notado que as motivações para o funcionamento da comunidade fossem bastante mundanas, a ponto delas estarem descritas em um modelo econômico.

Talvez o José Murilo, que entende de internet como de comunidades, possa acrescentar idéias a essa questão.

No ano passado fiz meu

No ano passado fiz meu trabalho de conclusão abordando comunidades virtuais e pelo que vi (e pelo que ouvi da minha orientadora) Rheingold é o cara que começou a história e tal mas tem muita empolgação e pouco desenvolvimento.

Um artigo que me ajudou muito foi esse:

http://jcmc.indiana.edu/vol3/issue3/jones.html

Além de uma meia dúzia de trabalhos de pesquisadores brasileiros como Raquel Recuero (que tem o conceito de capital social), Alex Primo entre outros.

salvei muita coisa no meu del.icio.us também:

http://del.icio.us/guilhermeland/comunidadesvirtuais

Desenvolvi, aqui na Fiocruz,

Desenvolvi, aqui na Fiocruz, junto com outras duas pesquisadoras, um estudo sobre "comunidades virtuais de pesquisa", em que o objetivo era sugerir um ambiente para compartilhamento de informações e conhecimentos entre pesquisadores da Fiocruz. Percebemos a necessidade de tentar organizar grupos de pesquisa no ciberespaço, partindo da premissa de que a Internet vem promovendo facilidades para o mundo acadêmico, integrando cientistas de diferentes localidades e áreas do conhecimento. As comunidades virtuais de pesquisa estabelecem novos padrões, seletivos, de relações na academia, que substituem o contato territorialmente limitado, dando maior alcance e velocidade às pesquisas a partir da interação de seus autores, independente do tempo e do espaço. Em última análise, uma comunidade virtual é a extensão da vida como ela é, em todas as suas dimensões e sob todas as suas modalidades, mas que privilegia uma nova noção de espaço, em que físico e virtual se influenciam mutuamente. As comunidades virtuais lançam as bases para a emergência de novas formas de socialização, novos estilos de vida e novas formas de organização social.

O "Ensaio sobre a Dádiva"

O "Ensaio sobre a Dádiva" (Marcel Mauss) analisa as obrigacoes de dar, receber e retribuir (usa algumas tribos como exemplo), acredito ser possivel aplicar em modelos economicos, inclusive esta teoria economia de doação deve estar bebendo desta fonte...

Pois. Um monte de coisas pra

Pois. Um monte de coisas pra comentar aí no meio. Uma é que em muitos lugares, principalmente na imprensa brasileira, existe uma compreensão muito superficial do que é o "virtual". Segundo o francês metidão lá, o virtual _não_ é um estado de "não real", mas de "não atual". O real se opõe na prática ao "potencial", mas isso é outra conversa. Tudo isso pra dizer que por muito tempo eu refutei a expressão "comunidade virtual" como ela é geralmente usada, porque parece uma tentativa de transposição da idéia de "comunidade" (o entorno, a vizinhança, as pessoas mais próximas) para ambientes online, mas usa pra isso a idéia de "virtual" pra expressar o remoto. Isso pra mim é uma combinação que não funciona. A idéia de "virtual" para arranjos sociais passa a fazer sentido se a idéia é falar de formações dinâmicas: um grupo aberto de pessoas que, para determinados objetivos, cria formações menores e focadas que depois se dispersam. Essa é uma das coisas que a gente acabou desenvolvendo na época do projeto metá:fora, e é uma das inspirações por detrás do conceito de "conecTAZ" da metareciclagem. Virtual no sentido de que a qualquer momento pode acontecer, e depois desaparecer outra vez. Mas acho que "comunidade" é uma idéia bastante defasada pra tentar explicar isso...

Atendendo à simpática

Atendendo à simpática provocação do Juliano, e inspirado pelas referências meta:fóricas do ff, aqui vai uma reflexão aleatória sobre 'comunidade' e 'Internet'. Ao pensar nestas duas tags, e ainda com as palavras do ff em mente -- "comunidade" (o entorno, a vizinhança, as pessoas mais próximas) -- me ocorre que a comunidade primeva neste contexto é formada por aqueles que se unem para conseguir realizar o acesso à rede. Isto me lembra de uma palestra do Nelson Simões, da RNP, onde ele dizia que "a rede não pode ser vista como um serviço, e sim como patrimônio" a ser gerido pela comunidade usuária.

O mais legal de citar esta apresentação da RNP em 2003 é poder hoje constatar que o conceito está sendo implementado, e mostrando bons resultados. O projeto RedeComep está formando nas capitais brasileiras verdadeiros condomínios de instituições educacionais, centros de pesquisa, e centros culturais, que se conectam à rede em até 10 Gbit de banda (eu disse 10 Gbit!), e cuidam diretamente da gestão desta infra-estrutura de forma compartilhada. Ou seja, são as instituições públicas brasileiras de educação, pesquisa e inovação, e cultura, integrando esferas federal, estadual e municipal, contando com apoio de alto nível para coletivamente implementar e manter a sua própria estrutura de acesso à rede, com qualidade de serviço infinitamente superior ao que se encontra no mercado. Isto é comunidade, real.

Uma boa mostra deste mix de pesquisa, inovação e cultura explorando as fronteiras do possível é a apresentação de dança telemática da Profa. Ivani Santana, da UFBA, com elenco atuando sincronizadamente em 4 cidades diferentes inter-ligadas via Internet: Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Natal. Rolou no último workshop da RNP.

Devo dizer que lá na minha comunidade, no 'Céu do Planalto', a rede wireless comunitária aberta funciona desde 2003. Quem chega por lá pode desfrutar do acesso à vontade.

De acordo com a (minha) ecologia digital, não posso deixar de enxergar na rede a mesma categoria de bem público que imputo a ruas e avenidas, e o acesso a estes recursos não pode estar restringido de nenhuma forma. A experiência comunitária real, o contato humano irrestrito, demonstra que juntos podemos fazer melhor. Trata-se de um aprendizado.

Neste contexto, a rede simplesmente tem a capacidade de multiplicar exponencialmente este pontencial do contato humano. Façamos bom uso dela.

Só para não dizer que eu fugi completamente do tema: a motivação básica para a relação comunitária é a valorização da unidade pelo todo - a apreciação de cada membro pelo grupo, em nome do interesse comum. Isto pode ser explicado de várias formas, inclusive como modelo econômico.

Abraços.

juliano, o joshua schachter,

juliano, o joshua schachter, criador do delicious, tem uma posicao muito interessante a respeito: ninguem adota algo colaborativo se nao houver um beneficio pessoal logo de cara.

aqui está a entrevista: http://www.technologyreview.com/Infotech/17474/?a=f

alias, o joshua acaba de deixar o yahoo...

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