Blogs de aluguel: Opinião do Alexandre Inagaki

1) qual é a sua percepção sobre conteúdo publieditorial em blogs?

Antes de mais nada creio que todos (anunciantes, agências de publicidade, veículos de comunicação) estão subestimando a capacidade analítica do leitor. Vivemos tempos em que o consumidor não se pauta unicamente na opinião da Gisele Bundchen, da Marília Gabriela ou do Kibe Loco para comprar ou deixar de comprar um produto. Você faz pesquisas de preços, pede a opinião de amigos, lê o que opinaram sobre determinado produto nos comentários da Amazon ou em fóruns de discussão, busca informar-se ao máximo antes de fazer uma aquisição.

Os blogs surgiram como um contraponto aos vícios da mídia tradicional. Deram voz a pessoas que não tinham coluna em jornal ou TV para expressar suas idéias, e permitiram que qualquer internauta pudesse dar a sua opinião. Por conta disso, ganharam paulatinamente audiência e relevância. Logicamente o mercado publicitário, com o paulatino desgaste de fórmulas dos comerciais de 30 segundos prontamente zappeados pelos telespectadores, mostrou interesse em inserir anúncios nestes "novos formadores de opiniões", e daí surgiram os malfadados posts patrocinados, versões 2.0 dos clássicos "informes publicitários" tão comuns em revistas e jornais.

Não concordo com a prática de alguns blogueiros que disfarçam a natureza publicitária de certos posts. Mas, ao mesmo tempo, penso que não há melhor julgamento do que aquele que é feito pelo leitor. Este, ao contrário do que muitos regulamentadores crêem piamente, não é um estúpido passivo que engole tudo que oferecem. O "prosumer", do mesmo modo que ao consumir uma mercadoria que não lhe agrada publica um post ou cria um tópico no Orkut criticando os serviços que lhe foram fornecidos, também deixa de ler um blog ou de assinar o seu feed, do mesmo modo que cancelaria a assinatura de um jornal, caso se sinta ludibriado de alguma maneira.

2) como voce percebeu a ação da coca cola de enviar o produto para blogueiros?

Foi uma campanha muito bem articulada. Primeiro, porque preocupou-se com a questão de criar um envolvimento dos blogueiros com o produto em si, a bebida i9, propiciando uma experiência efetiva dos publishers com a marca. Segundo, porque pensaram em como fazer com que essa campanha ganhasse visibilidade na internet, criando expectativas, curiosidade e polêmica em torno do hotsite da Coca. E terceiro, porque fizeram tudo isso sem obrigar os blogueiros contemplados a escreverem sobre o produto. Eu, por exemplo, fui pego totalmente de surpresa com o envolvimento do meu nome nessa ação, e não posso negar que me senti valorizado por terem lembrado de mim. Admirei a sagacidade de quem planejou essa campanha visivelmente pensada para a internet; no entanto, não escrevi até agora uma linha sequer sobre a bebida em meu blog. Respeitaram, pois, um pressuposto básico para o sucesso de toda campanha publicitária que visa repercussão na blogosfera: um blogueiro só posta sobre o que lhe interessa, do seu jeito peculiar e sem aceitar intervenções alheias. Conheço pessoalmente todos os outros oito blogueiros que receberam as geladeiras, e creio que aqueles que quisessem falar mal da bebida fariam isso sem o menor problema, uma vez que não houve qualquer exigência de recíproca nessa ação da Coca-Cola. Vide o meu caso: não publiquei nada no Pensar Enlouquece sobre o i9. E, se eu decidir fazer isso, será um post repercutindo toda essa queremela causada pela nota do ônibus azul desacentuado.

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