Aqui o resultado do experimento de fazer uma tradução coletiva; novidades à vista

Clay Shirky aprontou outra. Ele já tinha explorado a questão do fim dos jornais no Here Comes Everybody, mas isso ficou diluído no meio de outros assuntos que o livro trata. No começo deste mês ele retomou o tema em um texto demolidor de mitos, construído - como é a marca do autor - a partir de um mix de idéias originais, História e embasamento conceitual. Elegância e precisão de argumentos contrastam com a quase-crueldade com que ele põe às claras a postura mimimi de quem ainda defende a sobrevivência da imprensa escrita.

Li esse texto sentindo ao mesmo tempo euforia e frustração. É libertador encontrar em três páginas tudo o que você vem querendo dizer recentemente, mas o fato do texto estar em inglês implica que ele será lido pelas mesmas pessoas que já estão convencidas do assunto ao invés de entrar nas veias da sociedade e ser devorado e discutido por quem faz parte do dilema. O estudante, o professor e o profissional de comunicação têm interesse vital em entender se a tese de fim dos jornais é especulação dos marqueteiros para fazer dinheiro com o buzz da internet ou se existe um perigo para o qual é necessário estar precavido. Como levar essa discussão para a sociedade? (Continua.)

A questão é: como fazer essa tradução. São apenas 31 um parágrafos, mas eu já tinha me proposto a realizar algo parecido recentemente e não estava no pique de fazer o sacrifício de novo. Daí surgiu o estalo - muito em função do resultado positivo do lançamento pelo Twitter do Para Entender a Internet: por que não propor uma tradução colaborativa?

A execução foi fácil. Coloquei o texto no Google Docs (que permite edição simultânea do mesmo documento), enumerei os parágrafos, defini as regras de funcionamento, incluí links para ferramentas de apoio e anunciei o projeto pelo Twitter. 24 horas depois o artigo estava traduzido - abra o link abaixo. Só precisei fazer uma última revisão para checar pontos específicos e dar uniforminade ao conteúdo. E o que mais me impressionou não foi tanto o tempo ou a qualidade do resultado - mais que suficiente para o texto ser compreendido -, mas as notas de roda-pé explicativas incluídas junto dos parágrafos revelando pelo capricho o compromisso dos tradutores com a tarefa.

Fiquei pensando, então, na oportunidade aberta por esse experimento para trazer para o leitor lusófono textos avulsos dispersos pela rede, em grande parte escritos em inglês, sobre assuntos relacionados a comunicação e internet que, de outra forma, dificilmente ficariam disponíveis ao grande público. Em função disso, decidi dar um passo adiante e, com o apoio da Talk, investir um pouco de tempo para ver se é possível fazer essas traduções regularmente e criar um repositório online (aberto, obviamente) desse conteúdo. Nasceu assim o projeto Adote um Parágrafo.

Foi por isso que eu esperei um pouco para publicar o resultado da tradução, para já ter a proposta de como fazer isso funcionar. Nada muito complicado: um wiki para ir publicando o conteúdo novo, a mesma página do GoogleDocs para os tradutores trabalharem e mais esse trabalho de fazer a revisão final nos textos e ir registrando erros e acertos.

Da mesma forma como o Para Entender, a meta final é que este projeto traga ao mesmo tempo a teoria e a prática, que as idéias e argumentos apresentados expliquem a situação - improvável há alguns anos - de ter pessoas desconhecidas entre si trabalhando juntas e voluntariamente por alguma coisa que será livre para quem quiser aproveitar. E vamos ver onde isso leva. Já tem um texto novo esperando voluntários:

* http://docs.google.com/Doc?docid=dd5ggjr8_426cvsxchgw&hl=en

PS. Já tinha publicado este post quando chegou o email de uma pessoa me perguntando se era preciso ser jornalista para ter um blog. Respondi que não. Ela me escreveu de novo querendo saber sobre a legalidade de blogar, na medida em que havia recebido a seguinte mensagem enviada - supostamente, eu não o conheço - por alguém representando o sindicado dos jornalistas. O conteúdo da mensagem fala tanto sobre o texto do Shirky e esse momento de transição e de negação da internet, que não tive como não compartilhá-lo. Segue:

Caro Luis, as atividades de redação, diagramação, que veiculam noticias é especial e privativas de Jornalistas, conforme Decreto que regulamenta a profissão de n. .83284. O exercício de quaisquer funções discriminadas no decreto citado por pessoas inabilitadas, caracteriza o exercício ilegal da profissão, contravenção penal, além de multa. Assim, sugerimos que você não exerça as funções de jornalistas, por estar correndo risco de ser autuado pela DRT.

E agora?