Juliano Spyer

Sempre reparei em máquinas que servem para telecomunicação.

Eu era pequeno nos anos 70, meu pai trabalhava no Estadão e algumas vezes me levava com ele para o jornal nos plantões aos sábados. Se eu desaparecesse, era provável me encontrar na sala do Telex... Em 82 quase todos os dias minha turminha da escola saia da aula e ia passear no Shopping Eldorado e registrei na memória o período em que apareceu no saguão principal um tótem do Videotexto, um parente distante da internet. A criançada fazia fila para mexer.

Alguns anos depois, meio para o final dos anos 80, apareceram as linhas de computadores TK e CP, as primeiras vendidas para o uso doméstico no Brasil. Eu já tinha chapado no filme Jogos de Guerra, assisti umas nove vezes no cinema, mas apesar de babar pelas máquinas, não passei da lição 2 de programação em Basic. Já na faculdade, testemunhei a implantação das primeiras salas de informática da USP. Quase ninguém tinha computador em casa e para nós, das Humanas, eles serviam como máquinas de escrever sofisticadas.

Contratado para fazer pesquisa para um acadêmico americano, o querido professor Bob Levine, acabei tendo acesso ao CCE da Faculdade Politécnica da USP. Era o único lugar do Brasil com acesso à rede mundial de computadores. Não existia mouse nem interface gráfica. Levávamos os programas em disquetes - havia uma espécie de orgulho nerd em ter aquilo na mochila - para instalar e usar segundo a necessidade. E a rede, pelo menos para mim, se resumia a uma conta de correio eletrônico e às listas de discussão da época.

Passaram-se mais alguns anos, eu já tinha saído da faculdade e estava vagando pela vida, fazendo um pouco de tudo, um pouco de nada, programa de rádio, aulas de inglês, organização de eventos, quando finalmente apareceu a internet comercial. Devia ser 1995 ou 1996. Minha primeira conta de acesso discado - modem conectando-se à rede por linha telefônica - foi da Sanet. E junto com um pouco de exploração, do uso já frequente do email, da busca por amigos perdidos, cheguei às salas de bate-papo do UOL - hoje esse canal, apesar do público fiel, não se compara ao que foi nesse período.

Ali eu me convenci que queria estar nos bastidores, ajudando a fazer aquilo acontecer. Eu não saberia explicar na época o motivo da fascinação, mas tinha a ver com o fato sem precedentes de se poder falar em tempo real com pessoas a princípio desconhecidas entre si e dispersas pelo mundo.

Comecei a pensar em como um historiador conseguiria se integrar a alguma equipe e comuniquei aos amigos e à família das minhas pretensões para eles também ajudarem. Tanto fiz que acabou acontecendo. Meu primeiro emprego foi como editor do canal de notícias em português que a StarMedia, então uma start-up cheia de sonhos e planos de conquistar o mundo, tinha feito em parceria com a rede de TV americana CBS. A vaga era nos Estados Unidos, em Miami - na verdade, em Hialeah -, para ficar junto com os jornalistas da TV que produziam o conteúdo em texto. Nosso canal era o espelho na Web do material televisivo.

Apesar do emprego ter aparecido, ainda faltava muito para eu me sentir estabelecido na nova profissão. Tinha muita coisa para conquistar. Aproveitei a imersão com jornalistas para melhorar o meu texto, aprender a organizar o pensamento e escrever com simplicidade. Depois veio a parte difícil: constatar que aquele ainda não era o meu lugar na internet, apesar de não saber para onde eu queria ir.

A StarMedia acabou crescendo rápido, recebeu milhões de dólares de investidores, e abriu escritórios nas principais capitais da América Latina e Espanha. Isso permitiu que os brasileiros desterrados esticassem um pouco as vindas ao país. Trabalhando no escritório local aproveitávamos para conhecer pessoalmente e conviver com os colegas que ficavam aqui. Foi numa dessas passagens que eu preseciei o trabalho vibrante da equipe de bate-papo com convidados - coincidentemente liderada pelo Cláudio Melqui, que fez parte e foi dos que inventou os procedimentos para essas ações online no UOL.

Voltei aos Estados Unidos com planos mirabolantes de reproduzir aquela experiência para o mercado falante de espanhol da StarMedia. Mais ou menos um ano depois estava no ar o canal StarMedia Eventos e a partir dali, tive certeza do que me interessava naquelas máquinas que servem para telecomunicação.